| 06/09/04
Ao ar na Rádio Nacional
Jornalista
– Presidente, hoje, segunda-feira, 6 de setembro,
véspera da data da Independência. Amanhã,
uma comemoração especial. O que o Sr. pode falar
sobre a Independência do Brasil, sobre as comemorações
para esta semana?
Presidente
– Primeiro, que nós estamos comemorando
o Dia da Independência num momento de muita auto-estima
do povo brasileiro, num momento em que a economia brasileira
dá sinais de crescimento sustentável, superando
as expectativas do começo do ano, e vamos comemorar
o Dia da Independência com a certeza de que não
basta ter a independência constitucional: é preciso
ter independência econômica, tecnológica,
científica e isso nós estamos provando, com
o crescimento das nossas exportações, o crescimento
da geração de empregos, o crescimento da economia
brasileira, que nós estamos caminhando para uma independência
política, econômica e social. Isso é muito
importante. Um outro fato é que nós estamos
comemorando a independência com uma coisa nova, ou seja,
com a inclusão de mais 30 mil jovens nas Forças
Armadas Brasileiras, que vão, além de servir
o ano normal às Forças Armadas, aprender uma
profissão para que saiam das Forças Armadas
preparados para o mercado de trabalho, na possibilidade de
ter um emprego mais digno, com um salário melhor.
Jornalista
– É o projeto Soldado-Cidadão.
Presidente
– E eu fiquei muito emocionado no dia da inclusão
desses soldados porque um aspecto que eu não sei se
vocês notaram, eu notei, ou seja, quando nós
formos cantar o Hino Nacional, a força que a meninada
cantou o Hino Nacional. A impressão que eu tive é
que eles estavam com a auto-estima lá em cima, todos
muito emocionados. Eu fiquei muito emocionado. Eu acho que
é um programa importante. Vamos ver se a gente vai,
a cada ano, criando oportunidades para que o jovem da periferia,
que tem menos oportunidade, que não aprendeu uma profissão,
que muitas vezes parou de estudar, adquira novamente o gosto
pelo estudo, que tenha a esperança de que o seu emprego
vai surgir. Eu acho que esse é um dado importante.
Por isso é que o dia 7 de setembro será uma
coisa muito rica, porque também nós queremos
fazer com que o 7 de Setembro seja comemorado por toda a sociedade.
Não é uma coisa do Presidente da República
ou uma coisa dos militares. A independência do país
é uma conquista da sociedade brasileira, de homens
e mulheres, de ricos e pobres, de negros e brancos, ou seja,
todos nós temos que ir para a rua para comemorar porque
é um dia muito importante. Aliás, o Dia da Independência
é o dia mais importante em todos os países do
mundo. Eu tive a felicidade de participar do Dia da Independência
da Índia. E ali, além deles mostrarem o desfile
militar, eles mostram um desfile da sociedade: é desfile
de escola, é desfile de agricultores é desfile
de trabalhador, é a totalidade da sociedade se manifestando
no Dia da Independência. E eu trabalho para que a gente
consiga, a cada Dia da Independência, fazer uma coisa
melhor, uma coisa que envolva mais a sociedade. Por isso eu
quero convidar todas as pessoas aqui de Brasília e
do Brasil – os de Brasília para participar do
Dia da Independência aqui, dia 7, lá na Esplanada
dos Ministérios, e quero convidar o Brasil inteiro
(as pessoas) a irem pra rua pra comemorar. Não é
sempre que a gente pode comemorar a Independência do
Brasil num clima tão bom como estamos vivendo nesse
momento no nosso país.
Jornalista
– O Sr. gosta de ver as pessoas com a Bandeira
do Brasil nas ruas? O Sr. disse que se emocionou com o vôlei
masculino, que foi medalha na Olimpíada, cada jogador
com a Bandeira mostrando pra todo mundo.
Presidente
– Eu acho que a Bandeira é um símbolo
maior nosso. Eu acredito que uma nação será
muito mais nação, ela será muito mais
produtiva, será muito mais feliz se as pessoas estiverem
acreditando nos valores da própria nação,
se as pessoas estiverem bem na família, se as pessoas
estiverem bem no seu bairro, na sua cidade, se as pessoas
estiverem acreditando nas coisas que estão acontecendo
no país. E quando eu vejo um jogador, qualquer que
seja ele, um atleta ou uma pessoa valorizando a sua Bandeira,
é uma coisa bonita porque significa que a pessoa está
gostando do seu país, está admirando mais o
seu país. Então, eu fiquei feliz, ou seja, eu
acho que o povo brasileiro está vivendo um momento
especial. Lógico que nós ainda estamos começando
muitas coisas, ou seja, isso tudo leva um tempo, mas nós
estamos começando, e começando bem. Eu acho
que nas Olimpíadas a marca do Brasil ficou muito forte,
inclusive pelo comportamento do nosso maratonista, o Vanderlei,
que provou que brasileiro, definitivamente, não desiste
nunca. Porque o que aconteceu com ele e ele não ficou
magoado, não ficou ressentido, não parou como
alguns. Porque tem pessoas que poderiam parar e ficar chorando
o leite derramado. Ele não. Ele, com a mesma altivez,
saiu caminhando, chegou em terceiro lugar, se recebeu a medalha
de terceiro lugar poderia ter sido a segunda, poderia ter
sido a primeira, não se sabe nunca. O dado concreto
é que, em nenhum momento, ele se queixou, ou seja,
ele estava orgulhoso de ter chegado entre os três mais
importantes maratonistas do mundo. Eu acho que é isso
que vale: é as pessoas valorizarem aquilo que têm,
aquilo que conquistaram e não ficar sempre choramingando
aquilo que não conquistaram ainda. Por isso, eu acho
que foi uma coisa muito importante as Olimpíadas nesse
momento da nossa história. Não só porque
foi a maior delegação, a maior conquista de
medalhas*, mas porque ela teve gestos muito importantes como
o gesto da Bandeira.
Jornalista
– E aí vai também a questão
da inclusão social: essas bandeiras mostradas na Olimpíada
foram confeccionadas por detentos aqui de Brasília.
Presidente
– Eu tive a oportunidade de ver o material
feito por detentos do Brasil inteiro. E eu penso que nós
estamos criando um novo jeito de fazer cidadania. Ou seja,
a pessoa que comete um delito tem que ter chance de se recuperar.
E não tem nada que possa dignificar mais o ser humano
do que o trabalho. Ou seja, viver do seu trabalho é
a coisa mais sagrada para um homem e uma mulher. E quando
a pessoa está presa, numa situação totalmente
desfavorável e tem uma oportunidade de trabalhar, na
verdade nós estamos dando a essa pessoa a oportunidade
de se recuperar mais rapidamente e poder ser reintroduzida
na sociedade com toda dignidade.
Jornalista
– O presidente está se referindo ao
programa “Pintando a Liberdade” do Ministério
do Esporte, que ensina um ofício aos presidiários.
Além de aprender uma profissão, os detentos
recebem um salário para ajudar nas despesas familiares.
E para cada três dias trabalhados, o detento tem descontado
um dia em sua pena.
Presidente
– Eu acho extremamente importante e é
preciso que os jogadores saibam que as bandeiras em que eles
se enrolaram e parte do fardamento que muitos usaram foram
construídos pela sociedade brasileira, pela parte mais
pobre da população, pelos meninos de Feira de
Santana, mas também por detentos.
Jornalista
– Presidente, rapidinho, mas falando sobre
o esporte ainda, me permita um furo de reportagem: o Sr. vai
receber a delegação olímpica esta semana
em Brasília. Qual vai ser o tom do discurso do Sr.
em relação aos atletas?
Presidente
– O mesmo que eu disse antes. Veja, eu estou
lembrado que quando eles partiram para Atenas eu disse pra
eles que era importante conquistar medalhas, mas, sobretudo,
era importante que eles estivessem conscientes do seu papel.
Ou seja, todos nós que vamos fazer uma disputa, vamos
fazer um debate, vamos fazer uma peça, nós queremos
fazer o melhor. Mas muitas vezes tem gente melhor do que nós.
Muitas vezes a gente não está num dia bom, então
a gente não consegue ganhar tudo o que a gente quer.
O que é importante é a gente estar espiritualmente
tranqüilo, com a consciência tranqüila de
que “olha, eu não consegui, mas fiz o máximo
que eu podia fazer. Não deu, não deu, paciência,
vamos nos preparar porque a vida continua”. Eu acho
que isso foi muito importante e eu vou dizer um pouco isso,
pra animar a pessoa. Todos nós esperávamos que
a Daiane ganhasse uma medalha de ouro. Que ela é boa
nós não temos dúvida, mas não
ganhou. Nem por isso ela está diminuída. Pelo
contrário, ela está com a auto-estima muito
forte. Eu vi uma entrevista dela muito interessante. Eu penso
é que é um pouco isso que nós temos que
dizer para os nossos atletas, porque nós vamos melhorar
mais. Podem ficar certos de que, se depender do esforço
do governo nós vamos criar todos os mecanismois legais
possíveis para que a gente possa ter mais atletas,
para que a gente possa levar uma delegação maior,
para que, durante esses próximos anos, a gente tenha
condições de criar possibilidades de esses jovens
se prepararem melhor. Temos que incentivar uma legislação
mais moderna, para que as empresas privadas possam financiar
os nossos atletas, para que as empresas públicas possam
financiar, porque senão nós não competiremos
nunca em igualdade de condições com o mundo.
Vejam a evolução que teve a China, vejam a evolução
que teve a Austrália, países que não
eram países de ponta na disputa das Olimpíadas.
Eu acho que isso é uma coisa importante. Por que? Porque
o esporte não pode ser visto apenas como a disputa
de uma medalha. O esporte tem que ser visto como inclusão
social, como conquista de cidadania, uma forma de melhorar
a saúde das pessoas, uma forma de tirar o adolescente
da rua e dar pra ele a perspectiva de que ele pode ser um
atleta olímpico, de que ele pode ser um profissional.
O nosso papel, o que é? É criar as condições
para que ele tenha oportunidade. O resto é com ele.
Jornalista
– Agora, presidente, o país não
festeja só a conquista nas Olimpíadas, mas comemora
também um expressivo crescimento do PIB acumulado do
primeiro semestre desse ano em relação ao ano
passado – 4,2%. São números que consolidam,
enfim, a tendência de crescimento da economia. E o que
fazer para manter esse crescimento por muitos anos como o
Sr. deseja?
Presidente
– É importante lembrar que o que nós
estamos colhendo agora, não foi plantado agora. Isso
foi plantado desde o ano passado. Ou seja, você não
começa a crescer hoje porque investiu ontem. Nós
investimos nesse crescimento há um ano atrás.
Há um ano e meio atrás que a gente vem preparando
as condições para que o crescimento se dê.
Quando nós anunciamos, há um ano atrás,
o empréstimo com desconto em folha, ele só começou
a produzir efeito este ano. Quando você anuncia dinheiro
para saneamento básico, como nós anunciamos
dia 11 de dezembro do ano passado e agora no mês de
maio, isso não repercute no mês que você
anunciou e nem três meses depois. Às vezes, demora
um ano para começar a funcionar. Então, nós
estamos colhendo o que nós plantamos, e vamos colher
mais. Eu, particularmente, estou convencido de que nós
vamos ter um crescimento sustentável. Nós estamos
vivendo um momento muito bom porque, eu quando pego o jornal
e vejo que o movimento sindical dos trabalhadores e o movimento
sindical dos empresários, no caso Cut e Fiesp, se encontram
e começam a discutir a possibilidade de construção
de um acordo para apresentar, para discutir com o governo,
é tudo que eu acho que deva acontecer no Brasil: a
construção de um novo contrato social, em que
a gente possa estabelecer metas de crescimento, metas de inflação,
em que a gente possa ver esse país crescer mais harmonicamente
e que o resultado da riqueza seja distribuído de forma
mais queüânime, muito mais justo. Então,
nós estamos vivendo esse momento, que eu diria bom.
Eu evitei dar declarações sobre crescimento
porque eu também não quero ficar passando só
euforia, não. Eu quero que as pessoas percebam que
nós estamos no caminho certo. Outro dia, eu disse que
nós não vamos brincar com economia. Nós
não vamos fazer uma aventura, porque já foi
feito. Nós não queremos fazer mágica,
porque já foi feito nesse país. Esse país
já acordou um dia achando que era Primeiro Mundo e
três dias depois era Terceiro Mundo. Não, nós
não temos porque não dizer a verdade pro povo,
a cada minuto, a cada hora, a cada dia. Muitas vezes, a verdade
não é o que as pessoas querem ouvir, mas é
o melhor: é o melhor pro governo, é o melhor
pra quem fala e é o melhor pra quem ouve. Nós
agora temos que aproveitar esse momento. Eu já estou
pensando em 2005. Em 2004, já está consolidado
o crescimento. Nós, agora, estamos pensando nos grandes
projetos de infra-estrutura para 2005, porque o Brasil não
pode parar. Então, nós vamos continuar crescendo,
vamos continuar exportando mais, o mercado interno está
consumindo mais e isso é muito bom. Portanto, eu queria
dizer ao povo brasileiro que nós temos razão
de sobra para comemorar com um grande sorriso o dia da Independência
do Brasil, o dia 7 de Setembro. Eu estarei lá, eu espero
que vocês estejam, espero que o povo brasileiro esteja
e espero que vocês tenham a sabedoria de terminar esse
Café com o Presidente tocando o Hino da Independência.
Jornalista
– Bom, eu, como apresentador, já pedi
para o Sr. entrevistar os jogadores na República Dominicana.
Vou pedir para o Sr. fazer as vezes também de apresentador
nesta edição e vou pedir para o Sr. encerrar
o programa chamando o Hino.
Presidente
– Bem, eu quero agradecer a todo o povo brasileiro
o carinho que vocês têm comigo, que vocês
têm com o governo, mesmo quando não estão
satisfeitos e dizer que eu estarei amanhã comemorando
o dia 7 de Setembro com muito orgulho, porque eu acho que
é a maior festa cívica deste país, e
queria pedir para os homens da técnica aí colocarem
o Hino da Independência. Eu não vou cantar porque
estou muito afônico, se não ia cantar o Hino
da Independência.
Presidente
(com Hino da Independência ao fundo)
- Bem, meus amigos, minhas amigas essa foi mais uma
edição do Café com o Presidente. Daqui
a quinze dias estaremos de volta.
*O
presidente se refere a medalhas de ouro.
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