| 07/04/04
Ao ar na Rádio Nacional
Apresentador - Alô, amigos em todo o Brasil, eu sou
Luiz Fara Monteiro e esse é o Café com o Presidente, edição especial em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversa com o ministro
da Saúde Humberto Costa. Eles vão falar sobre o Dia Internacional da Saúde, comemorado nesta quarta-feira, dia 07 de abril. Tudo bem presidente?
Presidente - Tudo bem, Luiz.
Apresentador - Presidente, nós temos muito o que falar sobre a saúde neste programa,
não é mesmo?
Presidente - Temos que falar sobre a saúde porque é tema que mais interessa a
uma grande parcela do povo brasileiro, e esse café da manhã de hoje é um café muito especial porque eu tenho um convidado muito especial. Quando
se trata de falar da saúde nós temos que chamar para falar da saúde alguém que tenha responsabilidade no Brasil de melhorar a qualidade da saúde
para o povo brasileiro.
Por isso eu convidei para vir tomar café comigo o ministro da Saúde, o nosso companheiro Humberto
Costa. Humberto, quando nós tomamos posse, no dia 1° de janeiro, nós tomamos posse depois de um ano em que a dengue matou umas 150 pessoas no Brasil no
ano de 2002. Eu sei que você fez um trabalho imenso para que a gente pudesse reduzir a questão dos casos de dengue no Brasil, ou seja, nós reduzimos 82%
em 2003 se comparado a 2002, a dengue.
Mas eu sei que o Ministério da Saúde tem dedicado um tempo extraordinário para melhorar
o atendimento médico das pessoas nos hospitais, aquelas filas intermináveis, o sofrimento das pessoas. Como é que nós estamos cuidando disso nesse
momento, Humberto?
Ministro - Bem, nós temos esse grande compromisso, por orientação do próprio
presidente da República, de melhorar a qualidade do atendimento.
Nesse primeiro ano, nós melhoramos a área da atenção
básica, ampliamos o atendimento ns comunidades com programas de saúde da família, quase 8 milhões de pessoas passaram a ter acesso ao programa,
e também trabalhamos na linha da prevenção, de forma importante, vacinando mais pessoas idosas contra a gripe, vacinando mais crianças contra
a paralisia infantil e lançando programas importantes para o controle de doenças que foram negligenciadas no nosso país, como a hanseníase (a
lepra) e a tuberculose.
E o nosso grande desafio esse ano será exatamente enfrentar as filas nas emergências, o mau atendimento,
a espera para se conseguir uma consulta médica, a falta dos medicamentos. Temos absoluta convicção, com o que já foi feito e o que está
planejado para este ano, o brasileiro será atendido com mais dignidade nos serviços de saúde.
Presidente - Eu não sei se os ouvintes perceberam que eu tomei o lugar do apresentador
do programa hoje, que é o Luiz. Mas é que esse dia é um dia muito especial, porque, quando se trata de saúde, é um problema que atinge
todo brasileiro e brasileira, mas sobretudo a parte mais pobre da população. Aquela que mora nos lugares mais longínquos, aquela que mora na periferia
dos grandes centros urbanos, muitas vezes se sentem desrespeitadas pelo atendimento.
Muitas vezes as pessoas chegam ao Pronto Socorro com uma febre ou ferida, com uma dor qualquer, às vezes
que a pessoa que está para atendê-la não se dá conta de que aquilo é urgente. Às vezes as pessoas ficam horas e horas intermináveis
e nós sabemos que não é um processo fácil. A gente não termina isso por decreto, como num passe de mágica. È uma política
que nós temos que colocar em prática, desde melhorar a qualidade de funcionamento dos Prontos Socorros, dos postos de atendimento médico, dos hospitais,
até melhorar as condições de trabalho dos funcionários e também melhorar a fiscalização do governo federal.
Porque o governo federal repassa muito dinheiro na área da saúde para os municípios e para
os Estados, e é preciso que a gente tenha um controle para saber se o dinheiro que nós passamos para os municípios e para os estados está sendo
aplicado corretamente para melhorar a qualidade de vida do nosso povo.
Mas, ministro, tem uma coisa que eu brigo desde 1972, eu fui diretor dos Sindicatos dos Metalúrgicos e
durante um tempo eu cuidei do Departamento Médico do Sindicato, tínhamos muitos dentistas no sindicato.
E eu sempre brigava porque as empresas grandes como Volkswagen, Mercedes
, Ford, Brastemp, todas faziam convênios com empresas prestadores de assistência médica e nesse convênio não se coloca a questão da
saúde bucal. Eu ficava muito nervoso, porque eu não admitia que no Brasil a saúde bucal não fosse tratada como uma questão de saúde
pública, e eu ficava indignado porque eu dizia, bom, não se trata dos dentes do povo porque quem tem dor de dente é pobre, rico trata dos dentes desde
que nasce.
Ou seja, agora o pobre não vai no dentista porque não pode pagar uma obturação, não
pode pagar uma consulta, e o Estado não oferece oportunidade. E eu participei com você do lançamento do primeiro centro de saúde bucal, na cidade
de Sobral, no estado do Ceará, e eu voltei fascinado. Voltei fascinado com os números que você me deu, ou seja, 400 centros serão criados até
2006. Centros esses que vão ser criados nas cidades pólo além das regiões metropolitanas, cada centro pode atender cerca de 500 mil pessoas. Eu
fiquei fascinado porque pela primeira vez um governo no Brasil se preocupa em tratar dos dentes das pessoas.
Humberto, você é nordestino como eu, você conhece a periferia dos grandes centros urbanos
como eu, e você sabe que a maioria dos adolescentes, a maioria das pessoas pobres tem dificuldades de ir ao dentista porque não pode pagar. E também os
nossos dentistas, que são os melhores do mundo, porque, para ser dentista no Brasil, tem que fazer um curso de 5 anos. Para ser dentista nos países desenvolvidos
da Europa, as pessoas fazem um curso de medicina e depois fazem um ano de especialização em odontologia. Então os dentistas brasileiros são praticamente
insuperáveis do ponto de vista da formação profissional, mas ele se forma, se não tiver dinheiro para montar o consultório, ele não
arruma trabalho, porque o poder público não dava um atendimento à sociedade.
Com esse programa de Saúde Bucal que nós inauguramos em Sobral, Humberto, baseado numa pesquisa
do Ministério da Saúde que eu achei extraordinária, porque os dados são muito fortes, ou seja no Brasil, 55% dos adolescentes, apenas 55% dos
adolescentes têm todos os dentes, 13% dos adolescentes nunca foram ao dentista. São 30 milhões de pessoas que não têm dentes, ou seja, a
gente anda pelo Brasil, você vê menina de 16, 17 anos jovens, ou seja, que falta a metade dos dentes na boca das pessoas, tem vergonha de sorrir, tem vergonha
de falar. Você pega pessoas com uma certa idade, 50 e 60 anos, quase nenhum tem dentes, porque não trataram quando tinham que tratar dos dentes. Então
eu queria que você explicasse para os nossos ouvintes, para o ouvinte do Café com o Presidente, como é que vai ser esse nosso programa de Saúde
Bucal?
Ministro - Acho que essa é uma das grandes mudanças
que o nosso governo está fazendo na área da saúde. A saúde bucal sempre foi relegada a um segundo plano. Esse programa, ele vai ter ações
tanto preventivas quanto ações de cura. Preventivamente, nós vamos garantir que seja colocado flúor em todo sos municípios que têm
água tratada no nosso país pra prevenção da cárie. Nós vamos fazer o tratamento nas comunidades com o programa de Saúde Bucal,
esse ano em 45%, e o Centro de Especialidade, porque é um dos problemas no Brasil também é que, quando tem o dentista, o que se aplica é apenas
a extração dentária e a restauração.
Agora, nós vamos oferecer tratamentos que só eram oferecidos para pessoas com o poder aquisitivo,
o tratamento de canal, o tratamento das inflamações da gengiva, o tratamento do câncer bucal, a correção dos dentes na ortodontia, que é
hoje um privilégio das pessoas ricas e, principalmente, a garantia do atendimento de urgência com resolutividade. Acho que esse programa tem tudo pra ser uma
revolução do serviço de saúde no Brasil.
Presidente - Importante, né, Humberto, as pessoas vão ser atendidas com horário
marcado?
Ministro - Exatamente!
Presidente - As pessoas não têm que sair três horas da manhã, para
serem atendidas às 5 horas da tarde. As pessoas podem, por telefone, marcar e serão atendidas, ou seja, nós vamos ainda este ano fazer...quantos, quantos
centros nós vamos inaugurar este ano?
Ministro - Bem, em noventa dias, nós vamos ter 50 centros já inaugurados e, até
o final do ano, nós vamos ter 100 centros inaugurados. E nós esperamos, até o final do nosso governo, chegar a 400 centros no país inteiro.
Presidente - Bom, graças a Deus, eu posso dizer ao povo brasileiro que, finalmente, a
boca do povo será tratada como uma questão de saúde pública, e o povo brasileiro vai poder falar e sorrir sem ter vergonha de mostrar a ausência
de dentes na boca. Eu acho isso extraordinário, porque, nesse centro de urgência, também vai ter serviço de prótese, ou seja, quando uma
pessoa não tiver dentes, ou seja, nós vamos fazer com que ele faça prótese da melhor qualidade, para ele poder utilizar material de primeira.
É apenas o Estado cumprindo aquilo que está na Constituição, respeitando o direito do povo e devolvendo para o povo o dinheiro que nós
arrecadamos dele próprio na área da saúde.
Mas, Humberto, eu participei outro dia, no Palácio do Planalto, de
um ato, no Dia da comemoração das Mulheres. E lá, você disse uma palavra que eu não entendi direito, você falou porque nós
vamos lançar o SAMU. Quando você terminou de falar, eu até brinquei com você, eu falei, Humberto, o quê que é esse tal de SAMU, aí
você me explicou que o SAMU é o Serviço de Assistência Móvel de Urgência. Agora, explica para o povo brasileiro concretamente o quê
que é o SAMU e como é que ele vai funcionar.
Ministro - O SAMU é um serviço de atendimento de urgência chamado pré-hospitalar.
Ou seja, tanto na via pública, um acidente ou um mal súbito, quanto em casa, um acidente, um mal estar que alguém sinta, poderá ligar no país
inteiro até o final do ano, em 1.500 municípios, para um número que será o 192, e pedir o atendimento. Ali, haverá um médico que
vai analisar as queixas que a pessoa apresenta e, se for o caso, pode encaminhar uma ambulância com uma equipe para fazer o atendimento emergencial e até mesmo
uma UTI para aqueles casos mais graves.
Isso não só vai fazer a diferença para muita gente que hoje morre porque não teve
o primeiro socorro, ou então que fica com seqüelas, porque não foi atendida no primeiro momento e, mais do que isso, vai ajudar a organizar o sistema de
emergência. Por quê? Porque aquele caso que não é necessário vai ter uma orientação daquele médico sobre que lugar ele
deve procurar, evitando concentrar o atendimento nos grandes hospitais de urgência do Brasil.
Presidente - E isso, nós vamos lançar quando esse programa?
Ministro - No dia 26 de abril, nós estaremos entregando uma quantidade significativa
de ambulâncias a prefeitos e governadores e, até o final do ano, nós teremos aproximadamente 118 milhões de pessoas no Brasil já tendo acesso
ao atendimento com o SAMU.
Presidente - Serão quantas ambulâncias?
Ministro - No total, 1.480.
Presidente - Para atender 1.500 municípios. Ou seja, serão os principais municípios
do Brasil?
Ministro - Exatamente.
Presidente - Agora, em cada município que tiver ambulância,
ele vai atender também os municípios vizinhos?
Ministro - A idéia é que tenhamos uma central de atendimento, de regulação,
e, nos municípios próximos, de acordo com o critério populacional, uma ambulância mais simples para cada 250 mil habitantes e uma UTI pra cada
500 mil habitantes, que fará o atendimento nesses locais.
Presidente - Bem, Lula, você percebeu que eu roubei o seu papel hoje...
Apresentador - Não tem problema, presidente.
Presidente - Eu acho que o nosso ouvinte já percebeu que eu trato o apresentador de Lula,
porque o nome dele também é Lula. Então é Lula pra cá, Lula pra lá. Mas o nome dele também é Luiz. Então ele
me trata de Lula e eu trato ele de Luiz. É importante lembrar que, nesta Semana da Saúde, nós estaremos anunciando alguns programas como esse que o Humberto
citou aqui, e o combate à hanseníase.
Hanseníase, eu sei que é uma palavra difícil, mas o povo pobre conhece como lepra. Ou seja,
nós queremos acabar com a lepra no Brasil até 2005, evitar que haja morte por causa disso. A lepra é uma questão de pobreza, ou seja, se as pessoas
tiveram a higiene correta, se alimentarem corretamente, a possibilidade de lepra é nenhuma. E nós vamos acabar com isso. Eu queria dizer aos ouvintes, Luiz,
para terminar o nosso Café da Manhã, que esse programa que nós fizemos hoje é uma novidade, por conta da Semana da Saúde, e dizer ao povo
brasileiro que eu tenho clareza do sofrimento das pessoas quando precisam de saúde.
Eu dizia a vida inteira que não basta a pessoa ter o médico, é preciso que a pessoa vá
ao médico e, quando sai do médico, a pessoa saia com remédio pra poder tomar, porque, muitas vezes, as pessoas saem do médico com a receita, bota
a receita dentro de uma gaveta do criado-mudo e morre sem poder tomar o remédio, porque não tem dinheiro para comprar. Nós estamos preocupados com isso,
vamos... estamos planejando o lançamento da Farmácia Popular, e não queremos fazer uma coisa pequena, queremos fazer grande, por isso que está
demorando um pouco. Nós queremos fazer com que as pessoas que tomem remédio, o chamado remédio continuado, que essas pessoas possam recebê-lo,
ou de graça, ou bem mais barato do que no mercado, sobretudo as pessoas mais pobres.
Eu já senti na pele o que é não ter dinheiro pra comprar
remédio, já senti na pele o quê que é ficar na fila de um hospital. Eu lembro que, um dia, eu fui levar minha sogra no hospital às 10 horas
da noite, sai de lá às 2 horas da manhã, ou seja, esperamos 4 horas, isso é inadmissível que continue acontecendo no Brasil. Eu só
queria dizer ao povo brasileiro que pode ter certeza que nós vamos fazer o que estiver ao nosso alcance para que a gente tenha o melhor que for possível dentro
da área da saúde, porque um bom atendimento dentro da área da saúde é a primeira demonstração de respeito que a gente possa
ter por homens, mulheres e crianças do nosso Brasil. Por isso, Lula, eu quero dizer pra você, desculpa de eu ter tomado conta do programa, mas eu sou o presidente.
Apresentador - E o programa é o Café com o Presidente. Presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, obrigado mais uma vez pela participação, e agradecemos também a presença ilustre do ministro Humberto Costa nesse programa especial
do Dia Mundial da Saúde.
Balanço da Área da Saúde
Apresentador - Nesse Café com o Presidente Especial, você ouviu um balanço
da área da saúde. Aqui algumas informações que você ouviu e outras que complementam o quadro da saúde do Brasil.
A dengue, que tanta preocupação trouxe à família brasileira e matou 150 pessoas em
2002, teve uma redução de 82% dos casos a partir do novo governo.
A vacinação contra a paralisia infantil passou de 98%, ultrapassando as metas da Organização
Mundial da Saúde, e a vacinação de idosos contra a gripe chegou a 82%.
O aumento das equipes do Saúde da Família proporcionou a inclusão de sete milhões
e 700 mil pessoas no atendimento básico com o médico em casa. A hanseníase, mais conhecida como lepra, deverá ser eliminada do Brasil até
o ano que vem.
O SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) vai levar ambulâncias a 1.500 municípios
até o final do ano. Nestas cidades, moram 118 milhões de pessoas, que poderão ser atendidas em casa.
Agora, a boca passou a ser tratada como caso de saúde pública.
Com as clínicas de saúde bucal, que serão 50 em três meses e 400 até o final do ano, tratar dos dentes será um direito. Os centros
terão consultórios, raios X, laboratórios de prótese e consulta marcada por telefone.
O programa Saúde Bucal vai incluir flúor na água em mais de mil municípios, distribuição
de mais de 6 milhões de kits de escovas e pastas de dentes e mais equipes de atendimento bucal no programa Saúde da Família. O presidente Lula disse
que é o governo cumprindo a Constituição de 88. A saúde é um o dever do Estado e um direito do cidadão.
Esta foi a edição especial do Café com o Presidente. O nosso programa volta na segunda-feira,
dia 19 de abril. Um abraço pra você e até o nosso próximo encontro.
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