"Precisamos
colocar na cadeia os empresários que ainda não sabem
que acabou a escravidão no Brasil", diz Lula
09/02/04
Ao
ar na Rádio Nacional
Jornalista:
Olá, presidente. Tudo bem?
Presidente:
Tudo bem, Luiz.
Jornalista:
Presidente, o Brasil ainda está chocado com o assassinato
de um motorista e de três fiscais que atuavam em Unaí,
no estado de Minas Gerais. O senhor esteve já com as famílias
das vítimas, levando o seu apoio. Agora, a gente que saber
o seguinte: o que pode ser feito, presidente, para acabar com essa
vergonha do trabalho escravo no Brasil?
Presidente:
- Primeiro, Luiz, eu queria dizer a você, dizer ao povo brasileiro
que é constrangedor, em pleno século XXI, nós
estarmos aqui debatendo uma coisa que já foi terminada em
1888, quando houve a lei que aboliu a escravidão. Lamentavelmente,
no Brasil nós ainda temos trabalho escravo. Pra gente acabar
com isso, primeiro precisa haver uma fiscalização
muito dura do governo e estamos fazendo isso. O que nós queremos
é que quem souber onde tem trabalho escravo, comunica ao
governo, comunica à Delegacia Regional do Trabalho, comunica
à polícia da cidade, porque nós precisamos
colocar na cadeia os empresários que ainda não sabem
que acabou a escravidão no Brasil. E eu queria aproveitar
para dizer às famílias dos nossos quatro fiscais que
morreram, que nós vamos, como eu disse na missa, cuidar com
carinho da família, sobretudo das crianças, nós
vamos garantir bolsa de estudo para as crianças até
elas terminarem a universidade, eu vou mandar uma lei para o Congresso
Nacional e vamos dar a eles o mesmo tratamento que nós demos
aos trabalhadores que morreram na Base de Alcântara, no Maranhão,
no ano passado. É o mínimo que a gente pode fazer
para garantir o futuro dos filhos de trabalhadores que morreram
servindo ao nosso país. E agora, Luiz, nós vamos continuar,
eu disse ao ministro Ricardo Berzoini que se os fiscais estão
incomodando alguns fazendeiros que não querem respeitar a
lei, nós vamos agora colocar mais fiscais, porque nós
queremos deixar claro que nós seremos intransigentes na perseguição
àqueles que praticam o trabalho escravo no Brasil. Nós
colocamos o que existe de melhor na Polícia Federal, porque
pode demorar um mês, pode demorar seis meses, mas pode ficar
certo que nós vamos pegar esse assassino. Esse ou esses assassinos
e se tiver mandantes, vamos pegar os mandantes também. Aliás,
é importante lembrar, eu tive com o ministro da Agricultura,
Roberto Rodrigues, e eu disse a ele que era importante que os fazendeiros
de bem deste país, aqueles que cumprem a lei, aqueles que
geram empregos, aqueles que geram riquezas e distribuem renda, não
podem ficar quietos, é preciso que os bons fazendeiros, os
bons empregadores denunciem também o trabalho escravo, porque
senão a sociedade fica confundindo, parecendo que está
todo mundo envolvido nisso. São poucos que praticam o trabalho
escravo e nós achamos que todas as pessoas de bem do Brasil,
homens e mulheres que tiverem uma notícia, é importante
fazer a denúncia, porque nós precisamos banir de uma
vez por todas qualquer trabalho escravo no Brasil.
Jornalista:
Presidente, o Brasil está sofrendo agora problemas com as
fortes chuvas que atingem praticamente todo o país. O senhor
fez uma viagem para conferir de perto esses estragos da chuva na
região Nordeste. O que o senhor viu, presidente? O que pode
ser feito para resolver a situação das pessoas que
estão desabrigadas e para evitar que novas tragédias
aconteçam?
Presidente:
Olha, eu tenho muita experiência em tratar de enchentes, porque
fui vítima de enchentes durante muito tempo na minha vida.
Então, eu sei o que é perder fogão, o que é
perder geladeira, o que é ver rato passando dentro da água,
correndo para se salvar, sei o que é tirar pessoas mais idosas
quando estão com água quase pelo pescoço. É
uma vida muito dura, eu fico chocado quando vejo a água entrar
na casa de uma pessoa. Então, eu acho que é preciso
uma ação combinada, de investimentos em saneamento
básico, de investimentos em habitações em lugares
mais adequados, de canalização dos córregos
que podem ser canalizados. Na viagem que eu fiz ao Nordeste, nós
garantimos algumas coisas – primeiro, de que não ia
faltar alimento para ninguém, de que não ia ficar
ninguém isolado, porque nós iremos recuperar as estradas,
de que não ia faltar remédio pra ninguém e
de que não ia faltar água potável para ninguém.
Essas quatro coisas nós estamos cumprindo à risca
e, disse aos moradores, tanto em Petrolina quanto em Juazeiro, na
Bahia, quanto em Teresina, no Piauí, que nós vamos
esperar a chuva passar, vamos sentar com prefeitos e governadores
e vamos começar a discutir como construir a casa, porque
nós não podemos reformar a casa e nem construir no
mesmo lugar que deu a enchente, é preciso tirar as pessoas
de lá. Então, é preciso que as prefeituras
dêem terreno, é preciso que os governadores, quem sabe,
façam urbanização e o governo federal financie
a casa para essas pessoas. Eu, inclusive, estou estudando com a
Caixa Econômica Federal a possibilidade de liberar o Fundo
de Garantia das vítimas das enchentes, para que elas possam
reformar as suas casas. Ou seja, nós temos que fazer o que
for possível, o que estiver ao nosso alcance, para que a
gente possa minimizar o sofrimento das pessoas, porque, olhem, eu
já acordei uma hora da manhã com um metro de água
dentro da minha casa e depois que passa a chuva, você ficar
com 30 centímetros de lama dentro da tua casa e você
ter que tirar, é uma coisa muito difícil. Baixa
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