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16/05/05
Ao ar na Rádio Nacional
Luiz
Fara Monteiro - Olá amigos de todo o Brasil, começa
agora o Café com o Presidente, o programa de rádio
com o presidente Lula. Hoje nós vamos falar sobre a
política externa brasileira. Temos muitos assuntos
e teremos por isso uma conversa um pouco mais longa. Tudo
bem presidente?
Presidente Lula - Tudo bem,
Luiz.
Luiz
Fara Monteiro - O Brasil
acabou de sediar a Cúpula América do Sul-Países
Árabes, reunindo 34 nações aqui em Brasília.
O senhor tem dedicado uma atenção especial à
sua política externa e, nos próximos dias, viaja
para a Coréia do Sul e o Japão. Existe alguma
crítica em relação ao número de
viagens que o senhor tem feito, tem gente que fala que o senhor
viaja demais. Qual o motivo dessas viagens? O que elas trazem
de benefício para o Brasil?
Presidente Lula - Eu estou convencido
que o povo brasileiro já tem uma nítida noção
do resultado da nossa política internacional, da nossa
política externa. Eu acho até normal que, muitas
vezes, algumas pessoas fiquem pensando: “Nossa, mas
o nosso presidente está viajando demais”. Acontece
que, nesse mundo globalizado, um país com o potencial
produtivo do Brasil, tanto na indústria quanto na agricultura,
um país que tenha qualidade no setor de serviços
que tem o Brasil, não pode ficar esperando que as pessoas
venham nos descobrir. Isso Cabral já fez em 1500. O
que nós precisamos agora é descobrir países
que tenham potencial de, na sua relação comercial
com o Brasil, comprar mais e vender mais para o Brasil.
Os exemplos são muito
fortes, nós tínhamos vindo de sete anos consecutivos
de déficit na nossa balança comercial, ou seja,
nós comprávamos mais do que vendíamos.
Somente a partir de 2002 é que nós começamos
a crescer um pouco nossas vendas mais do que as nossas compras.
Ora, de 2003, depois da nossa posse, até hoje, nós
praticamente duplicamos. Nós hoje temos uma exportação,
em 12 meses, praticamente de US$ 104 bilhões. Nós
temos um superávit, ou seja, vendemos mais do que compramos,
praticamente de US$ 37 bilhões, o que é o saldo
maior da história do Brasil falando percentualmente.
O nosso comércio com os países africanos aumentou
48%, o nosso comércio com o Oriente Médio aumentou
acima de 50% e o nosso comércio com a América
do Sul cresceu 58%. Então, para mim, a resposta melhor
que eu tenho às críticas é o resultado
da nossa balança comercial, é o resultado das
nossas exportações, é o resultado das
nossas reservas.
Isso para mim é a resposta
aos críticos porque no Brasil, Luiz, essa é
a verdade, e eu quero chamar a atenção do povo
brasileiro. No Brasil tem um tipo de gente com a cabeça
colonizada, tem um tipo de gente que parece que não
gosta de independência, tem um tipo de gente que parece
que acha que o Brasil só pode estar subordinado à
política dos Estados Unidos ou à política
da União Européia. Ora, nós queremos
ter a mais extraordinária parceria com os Estados Unidos
e com esse grupo fortíssimo que é a União
Européia, mas nós precisamos ter uma forte relação
com a China, com a Índia, com a Rússia, com
a África do Sul, com o México. E nós
estamos mostrando que nós podemos comprar coisas de
vocês, vocês podem comprar coisas nossas, vocês
crescem, nós crescemos e vamos desenvolver o nosso
continente porque nós não nascemos pra ser pobre
a vida inteira. Eu acho que o povo brasileiro já tem
consciência de que ficar sentado numa cadeira esperando
que alguém nos descubra já era. Ou nós
somos ousados, corajosos, colocamos os nossos produtos embaixo
do braço e saímos pelo mundo vendendo ou nós
perderemos essa guerra num mundo globalizado.
Luiz
Fara Monteiro - Presidente,
e essa cúpula da semana passada que reuniu 34 nações,
vieram chefes de Estado, mais de 70 ministros, mais de mil
empresários. Qual foi o resultado desse encontro, dessa
Cúpula América do Sul-Países Árabes?
Presidente Lula - Luiz, eu estou
muito feliz com essa Cúpula, eu acho que ela foi extraordinária,
conseguimos fazer uma reunião histórica no Brasil.
O resultado disso vem em um curto espaço de tempo,
não vai demorar muito. Agora, depois dessa Cúpula,
o que acontece? Os nossos empresários precisam pegar
a estrada. Nossos ministros precisam viajar. Os nossos comerciantes
têm que viajar porque, meu caro, quem não fizer
isso não vende. Vamos lá! Vamos chegar com os
nossos produtos embaixo do braço, com o nosso sapato,
com a nossa roupa, com os nossos carros, com a nossa soja,
com o nosso milho, com o nosso suco de laranja, com as nossas
empresas de construção civil e vamos vender,
vamos mostrar que nós somos competitivos. É
por isso que nós não vamos parar, nós
vamos continuar viajando, vamos continuar levando as coisas
do Brasil.
Eu vou contar um episódio
engraçado: agora, na Cúpula Países Árabes-América
do Sul, no jantar, o presidente da Argélia, eu comecei
a conversar com ele sobre a questão do combustível,
do petróleo, eu comecei a falar do diesel, do álcool,
comecei a falar do carro triplex que nós temos no Brasil
e o ministro dele não acreditava que num mesmo motor
a gente pudesse colocar álcool, pudesse colocar gasolina
e ainda tinha carro com botijão de gás. Chamei
o Furlan imediatamente e falei, “Furlan, providencia
um carro amanhã na porta do hotel que nós temos
que mostrar pra ele”. No outro dia, 9h da manhã,
estavam lá três carros a álcool, a gasolina
e um triplex a gás também pra gente mostrar.
“Está aqui, entra aí dentro, liga o motor,
desliga o motor”. Eles ficaram encantados, ou seja,
é assim que a gente vai conseguir mostrar as coisas
boas do Brasil, meu caro. E essa competição
é pesada porque nessa competição ninguém
dá colher de chá a ninguém.
Luiz
Fara Monteiro - Presidente,
vamos falar agora sobre a integração da América
do Sul. O senhor jantou com o presidente da Venezuela, Hugo
Chaves, e com o presidente da Argentina, Néstor Kirchner.
Existem algumas queixas dos empresários argentinos
em relação ao comércio com o Brasil,
eles acham que estão levando desvantagem. Como é
que o Brasil se posiciona em relação a essas
queixas dos argentinos?
Presidente Lula - Veja, a Argentina,
ela tem consciência da importância do Brasil,
o Brasil tem consciência da importância da Argentina,
nós temos consciência do potencial de desenvolvimento
da Venezuela. O Brasil tem uma forte parceria com a Venezuela,
temos um superávit comercial com a Venezuela muito
grande, nós precisamos comprar algumas coisas da Venezuela
para poder ter um certo equilíbrio. Nós queremos
contribuir para que haja uma política industrial na
Argentina porque os argentinos, muitos vezes reclamam, porque
perderam praticamente parte da indústria. E o Brasil
tem responsabilidade em ajudar com que a Argentina se desenvolva,
com que o Paraguai se desenvolva, com que o Uruguai se desenvolva.
Esse é o papel do país maior, esse é
o papel do país que tem maior riqueza, maior tecnologia.
Então nós acertamos que vamos continuar trabalhando
juntos, nós não podemos permitir que o interesse
de um grupo econômico ou de outro crie qualquer atrito
na política de Estado que nós temos que criar
entre Brasil e os países do Mercosul e entre o Brasil
e os países da América do Sul.
Luiz
Fara Monteiro - Presidente,
no encontro com os países árabes, um tema político
que teve bastante destaque na cobertura foi a relação
entre o Estado de Israel e a Autoridade Palestina. O senhor
mesmo deu algumas declarações deixando clara
sua posição favorável tanto a Israel
como a Palestina. O senhor poderia explicar melhor aos nossos
ouvintes?
Presidente Lula - Havia, durante
a semana que antecedeu esse encontro, uma certa preocupação
de que o encontro seria um encontro contra Israel, um encontro
contra os Estados Unidos. Nós recebemos aqui a secretária
de Estado Americano, nós conversamos com ela, ministros
meus conversaram com a embaixadora de Israel. Ou seja, nós
não íamos fazer um encontro dessa magnitude
para ser contra alguém. Nós fizemos o encontro
justamente para sermos favoráveis às coisas
positivas. Nós tivemos um documento muito equilibrado,
mas muito equilibrado, e eu fiz questão de dizer no
meu discurso que, da mesma forma, que eu sou defensor de um
Estado palestino, eu sou defensor do Estado de Israel. A existência
de um não nega o outro e tive a melhor impressão
do presidente da autoridade palestina, que reconhece o esforço
que está acontecendo em Israel, que reconhece as dificuldades
de Israel, mas que ele está convencido de que vão
chegar a uma situação de paz rapidamente. Ora,
quando as pessoas querem e as pessoas acreditam, ela vai acontecer.
Então, eu estou certo que a posição do
Brasil neste aspecto é consolidada. É consolidada
a posição do governo brasileiro, do Estado brasileiro
e é consolidada a minha posição pessoal.
Eu nasci na política defendendo o Estado palestino
e nasci na política também compreendendo que
o Estado de Israel não é antagônico à
criação do Estado palestino. E disse claramente
ao presidente da autoridade palestina que eu estava feliz
porque hoje eu sou um homem convencido de que somente a paz
é capaz de garantir o desenvolvimento daquela região
e, sobretudo, o desenvolvimento de um Estado palestino.
Luiz
Fara Monteiro - Presidente,
agora a próxima parada é Japão, com escala
na Coréia do Sul. O senhor está viajando na
semana que vem. Pé na estrada mais uma vez, né?
Presidente Lula - E vamos lá
com os nossos produtos embaixo do braço. Eu tenho dito
sempre, “ao invés de ficar aqui reclamando das
coisas, sabe, vamos botar o pé na estrada e vamos mostrar
o que a gente produz para o mundo inteiro” e isso tem
dado resultados extraordinários e fizemos isso aumentando
o nosso comércio com os Estados Unidos, fizemos isso
aumentando o nosso comércio com a União Européia
porque nós não queremos diminuir a nossa relação
com os Estados Unidos e a nossa relação com
a União Européia. Nós apenas não
queremos ficar dependendo de dois blocos, nós queremos
ter uma relação homogenia com o mundo inteiro
para colocar os nossos produtos e isso vai gerar riqueza para
o Brasil, isso vai gerar emprego para o Brasil, isso vai gerar
desenvolvimento para o nosso país.
Luiz
Fara Monteiro - Obrigado
presidente e até o nosso próximo programa.
Lula - Obrigada
você, Luiz, Quero agradecer aos nossos ouvintes e dizer
que, daqui a 15 dias, estaremos juntos outra vez.
Luiz - Você
acompanhou o Café com o Presidente, o programa de rádio
do presidente Lula. Nós voltamos em 15 dias com mais
uma edição.
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