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18/04/05
Ao ar na Rádio Nacional
Luiz
Fara Monteiro - Olá amigos em todo o Brasil. Começa
agora mais um Café com o Presidente, o programa de
rádio do presidente Lula. Tudo bem, presidente?
Presidente Lula - Tudo bem,
Luiz.
Luiz
Fara Monteiro - Presidente,
o senhor chegou recentemente de uma viagem a cinco países
africanos. Qual foi o intuito dessa viagem, o que o senhor
pode contar para a gente de novidade?
Presidente Lula - O objetivo
da viagem, Luiz, é fazer com que o Brasil estabeleça
uma relação política, uma relação
cultural, uma relação comercial mais forte com
os países africanos. Você sabe que num primeiro
momento nós fizemos uma forte política para
a América do Sul, no sentido de discutir a integração
física da América do Sul. Isso hoje está
bem consolidado. O Mercosul se fortaleceu, estamos trabalhando
muitas obras de infra-estrutura nos países que têm
fronteira com o Brasil. Acho que isso está possibilitando
a gente poder comemorar hoje que o comércio entre o
Brasil e a América do Sul cresceu mais de 50% nesses
dois anos de governo.
Para a África, nós
viajamos por algumas razões. Primeiro porque nós
precisamos estabelecer contatos com os países africanos.
Nós temos uma relação histórica,
parte da nossa gente tem origem na África, parte da
construção do Brasil a gente deve ao povo africano.
E acho que o Brasil precisa estabelecer com os países
africanos uma relação política mais forte,
uma relação comercial mais forte, uma relação
cultural mais forte. O Brasil pode e deve ajudar esses países
nos campos científico e tecnológico. A Embrapa
pode contribuir de forma extraordinária com a agricultura
africana, já que nós temos uma agricultura competitiva
como qualquer país do mundo.
Na questão da educação,
o país pode ajudar os países africanos. Pode
ajudar a formar enfermeiros, a formar médicos. A gente
pode aumentar o número de bolsas de estudos. Especialistas
nossos podem viajar mais para a África. A gente pode
ajudar a combater a Aids. E eu acho que o Brasil pode convencer
outros países a ajudá-los. Eu, por exemplo,
vou no dia 8 de julho para a Escócia participar do
encontro com os países do G-8, mais Índia, China
e México. Acho que lá é um bom momento
de discutir com os países qual política de desenvolvimento
poderemos ter para ajudar a África. Um país
sozinho não pode, mas muitos países juntos podem
ajudar. Essa é a melhor forma de combater a pobreza.
O papel do Brasil é
ser solidário porque eu acho que é uma dívida
que nós temos histórica com a África.
O Brasil pode ajudá-los porque nós temos história
junto com eles, e porque nós temos mais tecnologia,
somos mais ricos, temos mais indústria, temos mais
conhecimento científico. Portanto, a gente pode ajudar
muito mais esses países.
Luiz
Fara Monteiro - O senhor
falou em dívida histórica e, depois de 26 anos
de reivindicação, o governo também homologou
a demarcação da terra indígena Raposa
Serra do Sol. Isso também foi uma correção
à injustiça feita a esses povos indígenas
brasileiros?
Presidente Lula - No Brasil,
nós temos muitas dívidas, algumas seculares.
Temos dívida com o povo pobre desse país, temos
dívida com o povo do Nordeste, temos dívidas
com os negros, temos dívidas com os índios brasileiros
e precisamos pagar.
Obviamente, como a dívida
é uma dívida histórica, não é
possível pagá-la de uma única vez. Mas
é preciso construir um caminho para pagar. E quando
eu falo do índio, falo do sem-terra, dos quilombolas
porque não basta demarcar a área, não
basta homologar. Uma vez homologada, uma vez demarcada, uma
vez acertada, é preciso que a gente dê acesso
a benefícios que todo o ser humano tem que ter: acesso
ao trabalho, ao conhecimento, à saúde, à
alimentação, à educação.
São coisas que nós temos que fazer. E estamos
fazendo. Possivelmente, não no ritmo que desejamos
fazer, mas no ritmo em que a gente pode fazer.
E a Raposa Serra do Sol, ela
é um marco. É um marco porque é uma reivindicação
histórica. É uma terra que criou muita polêmica
no Brasil. Desde o ano passado queríamos ter homologado
e não pudemos porque tinha um processo no Supremo Tribunal
Federal (STF). Finalmente, foi acertado um pacote que resolve
o problema dos posseiros que estão lá, que resolve
o problema dos arrozeiros que estão lá, que
resolve o problema da terra do estado de Roraima - porque
o estado não tem terra, a terra é praticamente
do governo federal.
É um pacote que vai
resolver grande parte. O que é importante? É
que a homologação foi marcada em terra contínua,
o que era uma reivindicação histórica,
e que a gente vai mandar todas as equipes da Funai [Fundação
Nacional do Índio], da Funasa [Fundação
Nacional da Saúde] e de outras instituições
do governo para ir trabalhando e fazer com que os índios
de Roraima possam finalmente viver tranqüilamente. Terem
a terra garantida, mas também terem acesso aos benefícios
que o Estado tem obrigação de garantir a todo
brasileiro que mora no território nacional. E vamos
continuar demarcando outras terras porque temos que pagar
a dívida que nós temos com os índios.
Afinal de contas, temos que reconhecer que eles têm
direito, mais do que alguns pensam que eles têm.
Luiz
Fara Monteiro - Obrigado,
presidente, e até o nosso próximo programa.
Presidente Lula - Obrigado
a você, Luiz, e até o próximo programa.
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