| 19/04/04
Ao ar na Rádio Nacional
Luís Fara Monteiro: Alô amigos, em todo o Brasil. Eu sou Luís Fara Monteiro e está começando mais uma edição
do “Café com o Presidente”, o programa de rádio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Tudo bem, Presidente?
Presidente: Tudo bem, Luís.
Luís Fara Monteiro: Presidente, durante muito tempo o senhor foi um dirigente sindical, liderou greves, movimentos. Como é que o senhor
está vendo agora essas reivindicações que nós estamos vivendo no Brasil? Passeatas do Movimento dos Sem-Terra; alguns setores do funcionalismo
em greve, solicitando aumento de salários. Como é que o senhor vê essa movimentação?
Presidente: Eu vejo com muita naturalidade. Algumas pessoas tentam fazer disso uma coisa muito grave. Às vezes, até tentam vender como
se fosse maior do que é. Quando nós temos que entender que passeatas, manifestações e greves, é uma conquista universal da sociedade em
todo o mundo. E nós temos que conceber que isso significa o exercício da democracia, gostemos ou não. Um governante, ele não pode se contentar
apenas com aplausos; um governante não pode se contentar apenas com elogios; ele tem que ter a mesma sensibilidade para as pessoas que o elogiam, mas também
para as pessoas que o criticam. Até porque, às vezes, quando criticam o Governo, estão mais certos do que os que elogiam.
Então, é apenas ter sensibilidade para entender o seguinte: no Brasil os problemas sociais estão a receber dos governantes uma
dívida quase que impagável. Ao longo de muitos e muitos anos, o povo foi cerceado no direito de fazer suas manifestações, de reivindicar.
Você vai ver setores do funcionalismo público que ficaram oito anos sem receber nenhum reajuste. E é normal que essas pessoas agora
queiram receber reajuste, até porque as pessoas vêem no meu Governo e na vitória do PT, a possibilidade de poderem extravasar mais na sua prática
democrática, na sua prática de reivindicações, do que em outro Governo que os puniam. É só você perceber que no nosso Governo
tem aumentado o número de servidores públicos. Por quê? Porque, para melhorar a qualidade do serviço, nós estamos contratando mais gente.
Ao contrário de outros que resolviam o problema do Estado mandando o funcionário embora.
Ao mesmo tempo, o bom dirigente sindical sabe que, quando a gente se dispõe a reorganizar a economia de um país, a gente não pode
atender tudo que as pessoas querem no primeiro momento. E o dirigente sindical sabe que quando nós estamos preocupados em controlar a inflação, reconquistar
a credibilidade e retomar o crescimento da economia, não adianta fazer uma reivindicação absurda. Se você quer chegar a controlar a inflação
a 5%, a 5,5%, aquele dirigente sindical que estiver reivindicando 80% ou 70%, ele não está sendo verdadeiro com a sua categoria, porque ele sabe que não
vai conquistar aquele reajuste, nem que fosse ele o presidente da República.
Como eu já vivi muito do lado de lá com os meus companheiros, e sei como se dá uma assembléia, sei como se dá o discurso,
eu só queria que as pessoas entendessem o seguinte: ninguém, na História do Brasil, vai tratar o funcionalismo melhor do que eu vou tratar. Entretanto,
as pessoas têm que entender que eu as vejo como eu vejo os meus filhos. Eu não dou tudo o que os meus filhos querem, eu dou apenas aquilo que eu posso dar. E
não faço dívida para dar um presente para o meu filho que eu não possa pagar depois. Então, eu acho que essa seriedade que eu quero ter
com os meus companheiros é que me permite dizer para a sociedade brasileira: ninguém precisa ficar preocupado com greve, com passeata ou com manifestação.
Isso é o exercício da democracia, levado a sua plenitude. Isso é bom para todos nós.
Aí você fala das passeatas dos Sem-Terra. Eu conheço o Movimento Sem-Terra há vinte anos. Eles sempre fizeram passeatas.
Fizeram no governo Collor, no governo Sarney, no governo Itamar, no governo Fernando Henrique Cardoso, fizeram em todos os governos. Eu acho importante que eles façam.
O que me dá tranqüilidade é dizer que eu fui o único presidente da República que fui a um encontro do Movimento Sem-Terra, da Contag, da
CPT e de outros movimentos aqui, em Brasília, onde tinha mais de 3 mil delegados. E, publicamente, assumi um compromisso com eles. Ninguém discordou. Nós
nos comprometemos a fazer a reforma agrária até o final de 2006, assentando 430 mil famílias. Nós nos propusemos a regularizar 130 mil títulos
para as pessoas que já estão na terra. E esse é o compromisso que nós vamos cumprir. E será feito da forma mais tranqüila possível,
da forma mais pacífica possível porque eles sabem que esse país tem lei, tem regras. E ela vale para o presidente da República, ela vale para
o Sem-Terra e vale para o “com-terra.”
Portanto, quem quiser fazer suas manifestações, este é um país democrático, é um país livre, as pessoas
podem fazer. O que as pessoas não podem é perder o senso de responsabilidade.
Agora, se as pessoas quiserem radicalizar, as pessoas sabem que isso não as ajuda. Eu já fui dirigente sindical, já radicalizei
muitas vezes, e já tive bom senso em outras vezes. E toda vez que prevaleceu o bom senso, eu ganhei. Toda vez que prevaleceu o radicalismo, eu perdi. Se eu posso dar
um conselho aos meus companheiros do movimento social, é esse: ajam com a maior responsabilidade possível, porque todos nós seremos vítimas das
nossas palavras.
Luís Fara Monteiro: Obrigado Presidente, e até o nosso próximo programa.
Presidente: Obrigado a você, Luís.
Luís Fara Monteiro: E o nosso programa fica por aqui. Acesse o “Café com o Presidente” na Internet
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