| 23/08/04
Ao ar na Rádio Nacional
Presidente - Hoje nosso café é
diferente. Nós estamos em Santo Domingo, capital da
República Dominicana, na véspera do jogo da
solidariedade, do jogo da paz, da seleção brasileira
com a seleção do Haiti. E eu hoje vou ser o
entrevistador de uma das mais conhecidas figuras do mundo
que é o Ronaldinho. Ronaldinho, você está
participando no Brasil de uma campanha para recuperar a auto-estima
da nossa juventude e do nosso povo. O que você acha
que poderia ser feito mais para que a gente pudesse motivar
ainda mais a juventude brasileira?
Ronaldinho - Eu acho que está no caminho
certo. Eu acho que mostrar exemplos vitoriosos como o meu
né... eu comecei (o tratamento da) minha lesão,
realmente eu não sabia quando e, se, eu voltaria realmente,
mas não desisti, persisti e sem saber o meu futuro
eu trabalhava cada dia e no final eu venci aquela batalha.
Então mostrar ao Brasil inteiro exemplos positivos
como esse, como do Cafu também que foi mandado embora
de dezessete times diferentes e no final, no São Paulo
foi mandado embora sete vezes, e no final assinou um contrato
com o próprio São Paulo. Então, mostrar
ao Brasil exemplos vitoriosos é o melhor caminho.
Presidente - Ronaldinho, uma coisa que a
gente ouvia na época era que as pessoas falavam “ah,
ele não volta mais para o futebol, acabou”. Outras
pessoas falavam “ele já ganhou muito dinheiro,
ele agora pode viver a vida dele tranqüilo, arrumar muitas
namoradas, que ele quiser, porque ele está com a vida
ganha”. Entretanto, contrariando os pessimistas que
diziam que você estava acabado para o futebol, prevaleceu
a seriedade, prevaleceu o teu compromisso com aquilo que você
mais gosta de fazer, que é ser um extraordinário
jogador de futebol. Toda vez que você levantava de manhã
para fazer fisioterapia, horas e horas intermináveis,
você em algum momento pensou em desistir realmente?
Ronaldinho - Não, em nenhum momento.
Eu sempre... foi muito mais forte o meu amor pelo futebol.
Então, eu não pensava em nenhum momento em desistir,
eu só queria lutar contra aquela lesão e eu
pensava que eu vou ganhar, eu vou vencer essa batalha, porque
eu quero voltar a jogar bola, voltar a fazer gol e eu tenho
essa dívida comigo e no final eu consegui a vitória
e em seguida teve a Copa do Mundo, a gente ganhou o pentacampeonato,
foi meio que um presente por toda a dedicação
que eu tive durante a minha lesão.
Presidente - A Copa do Mundo de 2002, o fato
de você ser o artilheiro, teve um pouco assim de uma
revanche interna tua pelo que aconteceu em 98, ou seja, você
ter que provar que estava mais vivo do que nunca?
Ronaldinho - Foi minha revanche comigo mesmo
porque infelizmente em 98 teve um final triste porque perdemos,
mas 2002 foi a minha revanche pessoal e que por fim ganhamos
a Copa do Mundo. Levantei a taça, fui artilheiro, enfim,
foram vários motivos para comemorar.
Presidente - Com um corte de cabelo que só
serviu para aquela Copa... Agora, Ronaldinho você poderia
terminar essa entrevista dizendo algumas palavras de incentivo
à juventude brasileira?
Ronaldinho - Ah, sem dúvida. Eu acho
que a juventude tem que ter várias coisas na cabeça.
Principalmente estudar, sempre, praticar esportes e bom, enfim,
se dedicar a essas duas coisas que eu acho que é o
melhor caminho para juventude de hoje.
Presidente - Ronaldinho, sua família
foi importante para a sua formação como homem,
como cidadão.
Ronaldinho - Foi e continua sendo. Minha
família é minha referência. É onde
eu olho para eles e vejo o que eu realmente eu sou, o que
eu aprendi, tudo, foi dos meus pais.
Presidente - Bem, eu penso que vocês
tiveram um Café hoje privilegiado com um menino de
personalidade, um menino que tem compromissos com a ONU, o
embaixador da UNICEF, e eu espero que a juventude brasileira,
não para ser jogador de futebol, mas eu espero que
a juventude brasileira se espelhe, sabe, no homem, no bom
caráter desse moço extraordinário chamado
Ronaldo. Muito obrigado, Ronaldo. Atenção, agora
vou entrevistar o homem de Araras. Bem, meus ouvintes do programa
“Café com o Presidente” estou aqui com
o Roberto Carlos. O Roberto Carlos é aquele jogador
de futebol que todo mundo gostaria de ser. Respeitado dentro
do campo, é um cara que chuta muito forte. É
tido como um exemplo de jogador porque briga os noventa minutos,
ou seja, é o tipo do jogador que a camisa fica suada
de verdade. Acredita sempre que é possível acontecer
o melhor. Eu queria fazer uma pergunta para você, Roberto
Carlos. Em algum momento do começo da sua vida, ou
seja, como jogador de futebol, você pensou em desistir,
você teve dificuldades para se tornar profissional?
Roberto Carlos – Não, presidente.
Sempre, tanto que meu primeiro presente foi uma bolinha de
capotão. No interior de São Paulo a gente fala
“capotão”. Mas eu tive muitas dificuldades,
eu estudei até a quinta série e o dia que eu
saí de casa eu falei para o meu pai: “Eu só
volto para cá, para ver o senhor de novo, o dia que
eu puder dar a primeira casa para o senhor.” E assim
foi o meu pensamento de futuro que era de ter dificuldade
no começo, mas que num futuro próximo eu conseguiria
recuperar tudo o que eu perdi, de escola, da minha época
de criança, porque quando você começa
a jogar futebol existe mais responsabilidade. Então,
eu sofri muito no começo e hoje dou muito valor ao
que eu faço porque é muito bom jogar futebol.
Em nenhum momento eu desisti.
Presidente - Se você tivesse que dar
uma mensagem para a juventude brasileira, para os meninos
que como você nasceram no interior, estão procurando
uma chance, qualquer que seja ela. O que você diria?
Roberto Carlos - Que pratique esporte e,
por mais que tenha dificuldade de estudos, acho que não
só o futebol, mas o tênis, o vôlei e a
natação, esses tipos de esportes fazem que as
crianças saiam da rua, tenham mais tempo dentro de
classes e, com certeza, cresçam um grande homem ou
uma grande mulher.
Presidente - Quem imaginava que um menininho
de Garça*, com as perninhas finas, fosse jogar no União
São João e depois hoje fosse uma das figuras
mais respeitadas no futebol mundial porque na Espanha eu estou
sabendo que você é um “pequeno Deus”
para o torcedor do Real Madri. Então, eu quero te desejar
Roberto Carlos toda a sorte do mundo, que você continue
sendo esse menino brilhante que você é e eu espero
que nunca mais ouse judiar do meu Corinthians, por favor.
Roberto Carlos - Obrigado viu, presidente.
Presidente – Bem, agora vamos falar
com o Juninho. O Juninho tem o privilégio de ser pernambucano,
nascido em Recife e depois é o seguinte: jogava no
Vasco da Gama que é o meu time. Você sabe que
o pessoal briga muito comigo, o pessoal do PT do Rio, porque
o pessoal quer que eu seja Flamengo - desculpe, Júlio
César. O pessoal quer que eu torça para a Mangueira.
Eu sou vascaíno e sou torcedor da Beija-flor. Mas eu
estou aqui com o Juninho. Juninho, dá um recado para
a juventude. Você que é pernambucano, conhece
parte da pobreza de Recife. Você morou muito tempo no
Rio de Janeiro, conhece o que é a situação
de vários bairros no Rio de Janeiro. Se você
tivesse que dar um alento para a juventude brasileira, o que
você diria para juventude brasileira, Juninho?
Juninho - Eu diria que, além de sempre
acreditar que existe o caminho certo, é muita calma
na hora da sua escolha, né? Eu acho que o jovem às
vezes não tem calma na hora da sua escolha e acaba
fazendo uma escolha diferente pelo caminho errado. Então,
muita calma, muita tranqüilidade, acreditar sempre que
tem sempre o caminho certo e que a justiça vai sempre
existir.
Presidente Lula – Agora, vamos ouvir
o Júlio César. Vocês estão lembrados
que ele é um pegador de pênaltis, né?
Diziam que era o Tafarel, depois diziam que era o Dida, mas
ele... Que sorte aquele jogo com a Argentina**, eu vou lhe
contar. Estávamos em casa eu, Marisa e os quatro filhos
vendo o jogo. Quando a Argentina marcou o gol, eu confesso
a vocês que eu levantei...
Locutor - Neste ponto o lado torcedor falou
mais forte e o microfone ficou desligado por alguns instantes,
enquanto o Presidente e os jogadores comentavam a final da
Copa América. A essa altura uma roda de jogadores estava
formada em torno do Presidente Lula e o tema estava lançado:
a superação das dificuldades pessoais e o exemplo
dos atletas que agora chegavam ao ponto alto da carreira que
é a seleção. O zagueiro Cris lembrou
as origens humildes da maioria deles e o que é preciso
para se superar.
Cris – Acreditar. Acho que é
o mais importante porque nós jogadores, a maioria vem
de uma situação bem pobre também. Então
nós acreditamos e hoje estamos aqui.
Locutor - O goleiro Júlio César
também resume a sua receita do sucesso.
Júlio César - Uma simples palavra:
sonho. Nunca tinha deixado de sonhar. Nunca tinha deixado
de conquistar tudo aquilo que eu almejava, né? Graças
a Deus, hoje eu estou na seleção que sempre
sonhei. Sempre corri atrás dos meus sonhos. Nós,
quando somos muito jovens, a gente está sempre sonhando
em dias melhores, em acabar com a violência e ter paz.
Então, é sempre acreditar, como o Juninho e
o Cris falaram, e sempre correr atrás dos nossos sonhos.
O importante é sonhar e fazer por onde, ter atitudes
para correr atrás dos nossos sonhos, só isso.
Roger - Eu acho que só sonhar também
não adianta. Você precisa trabalhar. Você
precisa buscar o seu sonho. Obstáculos têm e
grandes para você ultrapassar, mas com personalidade
e perseverança, você acreditar naquilo que você
almeja, eu acho que as coisas boas tendem a acontecer.
Presidente conversa com Renato – Deixe-me
falar uma coisa para você. Quando você começou
a querer ser jogador de futebol, em algum momento da sua vida,
você teve dificuldade e pensou em desistir?
Renato – Tive. Eu fui para Campinas
com catorze anos. Lá, eu iniciei no Guarani nas categorias
de base e, às vezes, eu acho que a dificuldade de ficar
longe da família, do pai e da mãe, acabou pesando.
Eu fiquei praticamente um mês e voltei para casa. Não
estava agüentando e meu pai falou que se não era
aquilo que eu queria. Ele falou: “você não
quer ser um jogador. Você não quer estar seguindo
aí como jogador”. Então, eu coloquei na
cabeça e falei: eu quero. Então eu fui, fiquei
seis anos e meio em Campinas, me profissionalizei, consegui
ter minha transferência para o Santos e no Santos eu
acho que eu tive muitas alegrias, consegui estar servindo
a seleção. Então, isso é importante.
Acho que cada jovem no Brasil tem que acreditar, tem que ter
fé, tem que ter um Deus no coração para
que possa estar seguindo. Então, eu acho que cada jovem
tem que acreditar no seu sonho e correr atrás que com
certeza papai do céu está vendo e vai dar recompensa.
Presidente - Eu acho que tem três coisas
importantes aqui na fala do Renato. Primeiro, a vontade, não
desistir nunca. Segundo, ter fé, acreditar que tem
sempre um ser superior olhando por nós e dando força
se a gente tiver força. E a terceira coisa que o Renato
falou e é muito importante é a família.
Na verdade, eu considero a família uma coisa sagrada
da vida da gente, ou seja, você ter uma referência
na família é uma coisa importante porque quando
a coisa aperta só resta para a gente mesmo o ombro
da família para a gente chorar, rir. Eu quero te agradecer,
querido Renato.
Presidente - Edu, você na sua carreira,
teve momentos que você falou: “ah, está
difícil, vou parar?”
Edu - Não, eu passei por momentos
difíceis sem dúvida nenhuma na minha carreira.
Graças a Deus, tive um ótimo aumento no Corinthians.
Fui muito feliz na equipe do Corinthians. Depois, fui vendido
para a equipe do Arsenal, na Inglaterra, onde passei mais
dificuldades. No momento que eu cheguei. Cheguei no meio de
uma temporada, passei muito frio lá. Brasil era muito
calor. Lá era muito frio. Me machuquei muito. O pessoal
da imprensa falava que eu não era o jogador ideal,
mas eu persisti, eu falei: é aqui que eu vou ficar,
é aqui que eu vou vencer. E, graças a Deus,
estou há quatro anos, consegui quatro títulos
lá. Sou muito reconhecido, graças a Deus, pela
persistência, por querer realmente vencer num lugar
onde realmente é difícil. A Europa não
é um lugar fácil para você vencer, ainda
na Inglaterra.
Presidente - Maravilha, Lulinha, acho que
cumpri com a sua tarefa. O Lula é jornalista da Radiobrás.
Foi ele que inventou esse negócio de eu entrevistar
os jogadores. Obrigado, querido.
* cidade do interior de São Paulo
** Decisão da Copa América contra a Argentina,
o goleiro Julio César pegou um pênalti decisivo
para a vitória brasileira.
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