Borracha de pneu usado pode ser
reaproveitada em materiais de engenharia
Brasília, 20 (Agência Brasil - ABr) - Está comprovada quimicamente a
viabilidade do emprego de borracha de pneu usado em materiais de engenharia. A conclusão
é da pesquisadora Nádia Cristina Segre que, em sua tese de doutorado, comprova que a
mistura de borracha de pneu moída e pasta de cimento resulta num composto resistente à
abrasão e à flexão, propriedades consideradas importantes do ponto de vista mecânico.
Ligada ao Instituto de Química (IQ), da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp), e orientada pela professora Inês Joekes, Nádia Segre levou quatro
anos e meio para chegar a um material ideal. Seus estudos foram financiados pelo Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Bacharel em química, com
atribuições tecnológicas, Nádia e parte de seu grupo de trabalho sempre se dedicaram
à química de cimento e são praticamente os únicos na área.
Ao definir o tema de sua pesquisa no doutorado, Nádia pretendia dar
continuidade aos estudos químicos com o cimento e, ao mesmo tempo, usar um material
reciclável. "Pensei primeiro no PET, mas a literatura que encontrei sobre o assunto
registrava a incompatibilidade do material com o cimento", conta ela, referindo-se
às atuais garrafas plásticas de refrigerante denominadas simplesmente de PET (nome do
material do qual são feitas: polietilenotereftalato). Segundo a pesquisadora, a
explicação para tal incompatibilidade é que o material é pouco resistente ao meio
alcalino, fator predominante no cimento.
Ao escolher a borracha, Nádia se deparou com algumas limitações. Ela
já sabia, também por meio de pesquisa na literatura sobre o assunto, que o material não
aderia bem à superfície da matriz de cimento. Os estudos que indicavam isso, no entanto,
tinham como enfoque a análise das propriedades mecânicas da mistura.
Surgiu então a idéia de tratar a borracha para melhorar suas
propriedades na adição à pasta de cimento. "Além do mais, eu pretendia encontrar
um processo de baixo custo que não inviabilizasse a tecnologia", diz. Nádia usou
dois reagentes simples e muito usados na química, o ácido sulfúrico (H2SO4) e
hidróxido de sódio (NaOH). Após vários ensaios para testar propriedades como a
resistência à flexão e à acidez, e averiguar a densidade, ficou demonstrado que a
mistura de cimento e borracha tratada com NaOH apresentou os melhores desempenhos.
Os ensaios feitos especificamente para verificar propriedades que se
relacionam mais à questão da adesão da borracha à matriz também levaram à mesma
conclusão. E mais, que o novo material tem aplicabilidades na engenharia civil. O cimento
adicionado à borracha poderia ser usado em materiais que exijam resistência moderada
como, por exemplo, pisos. Para isso, foram feitos também ensaios mecânicos.
A resistência à flexão e à abrasão, duas propriedades importantes
quando se desenvolve um material para pisos, se apresentam na mistura num nível bem
satisfatório, segundo Nádia. Ela, no entanto, chama a atenção para a necessidade de
estudos de engenharia mais aprofundados para atestar a aplicabilidade definitiva para o
material. "Apresentei o primeiro trabalho que comprova o uso da borracha na
engenharia, mas será preciso que pesquisadores da área se interessem em se aprofundar na
questão, utilizando puramente o enfoque da engenharia. É diferente", afirma Nádia.
A borracha utilizada na pesquisa foi cedida por uma das únicas
empresas que reaproveita borracha de pneu usado no país, a Borcol Indústria de Borracha.
Sediada em Sorocaba, no interior paulista, a empresa fabrica tapetes para carros com
borracha virgem e usada. A pesquisadora atribui o sucesso em alcançar propriedades tão
boas ao tamanho da borracha empregada. "Usamos uma fração bem moída e isso nos
permitiu utilizá-la como adição, que não funciona com partículas grandes",
explica.
As partículas tinham granulometria menor que 35 mesh, ou seja, os
orifícios da peneira na qual a borracha foi peneirada medem cerca de 500 micrômetros
(500 micrômetros eqüivalem a meio milímetro, que é a milésima parte do metro).
"Por isso, encontrávamos estudos na literatura relatando o fracasso do uso da
borracha na mistura com cimento. Esses estudiosos usavam a borracha como agregado, isto
é, em partículas grandes, maiores que dois milímetros", relata.
O produto resultante da pesquisa de Nádia Segre certamente não é
tão resistente à flexão como o concreto, conforme ela própria informa. No entanto, ela
considera a borracha como material viável não só do ponto de vista ecológico, já que
se recupera um dos materiais menos reciclado em todo o mundo, que é o pneu. Há, também,
a vantagem econômica, garante Nádia, embora a borracha custe o dobro da areia, material
obrigatório para mistura de cimento no uso da engenharia.
É que na engenharia usam-se comercialmente fibras poliméricas de polipropileno e
fibras de aço para aumentar a resistência à flexão. Na comparação dos preços, a
borracha sai ganhando, pois a tonelada do produto na granulometria usada na pesquisa custa
US$ 400, enquanto a fibra de aço custa US$ 900 e a fibra de polipropileno US$ 5.000.
(Lana Cristina)