Brasília, 01 (Agência Brasil - ABr) - Um ônibus que em funcionamento
emite vapor d'água parece até sonho de ambientalista. Entretanto, devem estar circulando
na cidade de São Paulo, em 2002, três ônibus movidos a hidrogênio. Esse é o objetivo
do Projeto de Transporte Coletivo Movido a Hidrogênio coordenado pelo Ministério de
Minas e Energia (MEE) e que conta com a parceria da Empresa Metropolitana de Transportes
Urbanos de São Paulo (EMTU-SP).
Os moradores dos grandes centros sabem o prejuízo, tanto ao organismo
quanto ao meio ambiente, causado pela fumaça lançada pelos ônibus a diesel. Rica em
gases poluentes e particulados, essa fumaça é um dos principais fatores de queda da
qualidade do ar respirado nas cidades.
A tecnologia que possibilitou o desenvolvimento do ônibus a
hidrogênio não é recente. Segundo Cláudio Júdice, coordenador-geral de Eficiência
Energética do MME, essa técnica data de 1839, mas devido à necessidade de recursos
tecnológicos avançados, só agora está em desenvolvimento. Chamada de células a
combustível (fuel cells), essa tecnologia transforma energia química diretamente em
energia elétrica sem haver combustão. Essas células são como baterias com dois
eletrodos - um positivo (o cátodo) e outro negativo (o anôdo) - com um condutor
eletrolítico entre eles. O que as difere das baterias é que elas não necessitam de
recarga, produzindo energia a partir do energético fornecido.
O Hidrogênio, combustível que abastecerá esses coletivos paulistas,
virá da eletrólise da água - quebra da molécula de água em hidrogênio e oxigênio -.
Ele também poderia ser gerado do metanol, gás natural, propano e combustíveis
hidrocarbonetos. Sendo uma reação que necessita de energia elétrica, o ideal, informa
Júdice, é que o "reabastecimento" seja realizado quando o consumo de energia
é menor. A autonomia do veículo é de 400 km por carga.
De uma maneira extremamente simples, diz Júdice, a forma como essas
células obtêm energia poderia ser explicada assim: à medida que as moléculas de
hidrogênio migram do eletrodo negativo para o positivo, por meio do eletrólito, liberam
elétrons. Para se juntar ao oxigênio e formar água, esse hidrogênio precisa dos
elétrons liberados anteriormente e capturados pelo anôdo. Essa diferença potencial
entre os dois eletrodos é que gera a energia. "O processo não é tão simples
assim, muito materiais estão envolvidos, mas o princípio básico é esse", reafirma
Júdice.
A energia proveniente da reação química fica acumulada numa série
de placas de pequena voltagem. A intensidade da tensão está diretamente relacionada à
quantidade de placas presentes no sistema. Para mover o motor de um ônibus são
necessários 250 watts.
A alta tecnologia exigida para o desenvolvimento desse coletivo eleva
seu custo unitário para US$ 1,6 milhão, para efeito de comparação, um ônibus a diesel
custa R$ 80 mil. "Para encomendas maiores, por exemplo 200 ônibus, esse preço
cairia para US$ 200 mil, cerca de R$ 400 mil", informa Júdice. Todavia, como ele
explica, o modelo a diesel tem vida útil média de cinco anos, já os ônibus a
hidrogênio devem rodar sem problema, segundo expectativas do projeto, por vinte anos.
São poucas as empresas que detêm a tecnologia necessária para a
fabricação desse ônibus, nenhuma delas brasileira. Para março, está programada uma
licitação internacional para a compra de oito unidades, das quais três serão entregues
em 2002 e, até 2005, todas deverão estar circulando. O grupo optou pela licitação dos
veículo completos para que não haja problemas futuros com a inadequação de peças e
componentes.
De acordo com Júdice, não há ônibus desse modelo circulando em
nenhum lugar do mundo. "Eles circularam em Vancouver (Canadá) e em Chicago (EUA)
para testes de viabilidade e para o desenvolvimento do projeto. Será a primeira vez que
ônibus desse tipo trafegarão regularmente, fazendo linhas", destaca. O objetivo é
verificar possíveis problemas com a utilização rotineira. A previsão é de que cada
ônibus circule 100 mil quilômetros em quatro anos.
Esse projeto é desenvolvido há cinco anos e é financiado pelo GEF
(Fundo Mundial para o Meio Ambiente), que para a primeira etapa de estudos de viabilidade,
destinou US$ 360 mil. O grupo tem o interesse em que uma universidade ou institutos de
pesquisa brasileiro acompanhe o projeto para que haja a absorção dessa tecnologia.
(Hebert França)