Brasília, 03 (Agência Brasil - ABr) - As conseqüências do uso
sistemático de antibióticos são o objeto de estudo de Tania Maria Sih no livro
"Infectologia em Otorrino - Uso Criterioso de Antibióticos em Infecções de Vias
Aéreas Superiores", lançado recentemente. Na publicação, a médica
otorrinolaringologista e professora da Faculdade de Medicina da USP, enumera os principais
fatos associados ao uso de antibióticos.
Com os anos de pesquisas dedicados ao tema, Tania concluiu que,
"diminuindo o uso desnecessário de antibióticos, melhorando os protocolos de
tratamento, evitando a prescrição de antimicrobianos (antibióticos) nas infecções
respiratórias é possível diminuir a pressão seletiva sobre os patógenos bacterianos
na faringe e, com isso, diminuir a resistência aos antibióticos".
O estudo ficou restrito as infecções respiratórias porque, segundo a
médica, cinco destes diagnósticos representam 75% dos antibióticos prescritos nos
Estados Unidos, onde ela realizou parte dos estudos: otite média (infecção no ouvido);
resfriado comum, não específico; bronquite; faringite e sinusite. Para todas essas
moléstias, Tania afirma ser possível o uso de antibióticos de uma forma mais
criteriosa.
Como exemplos ela explica que em otite média com efusão ou otite
média secretora é desnecessária a administração de antibióticos; nas
faringites/amigdalites, só usar se houver positividade para o Streptococcus dos Grupo A;
as bronquites só devem ser tratadas com antibióticos havendo infecção específica ou
uma doença pulmonar; na sinusite, se os sintomas agudos não cederem dentro de 10 a 14
dias e nos resfriados comuns não devem ser ministrados.
Pesquisadores americanos acreditam que caso esses princípios fossem
adotados nos EUA haveria uma redução em 1/3 no uso total de antibióticos. Eles
comentam, também, que a diminuição entre 20 e 50% na prescrição de antibióticos não
causaria qualquer impacto negativo sobre a saúde dos pacientes. Contrariamente, como
informa Tania, 20% das pessoas que estão utilizando antibióticos poderão apresentar
efeitos colaterais em decorrência disso. Dessas, 0,5% poderão apresentar reações
alérgicas graves
Segundo Tania, esse trabalho de reeducação para o uso de
antibióticos deve ser desenvolvido primeiramente com a classe médica. "É a
educação para pequenos grupos, e não para uma auditório, que resulta mais produtiva.
Conversar com grupos de médicos, verificando o que estão fazendo e mostrando os
procedimentos considerados adequados. Com isso é possível fazer com que as pessoas mudem
a conduta na prescrição de antibióticos".
Uma questão muito valorizada no livro é a informação. "As
pessoas não mudarão seu comportamento só porque é dito que devem ser administrados
menos antibióticos", adverte Tania. Visando a furar esse bloqueio, a obra relaciona
uma série de ações que podem ser adotadas pelos médicos para conscientização dos
pacientes. Uma delas é a abordagem ativa no tratamento das doenças virais, falando
detalhadamente sobre a infecção, explicando porque o antibiótico pode vir a ser
prejudicial, dando instruções sobre a terapêutica sintomática - antipiréticos contra
a febre e analgésicos contra a dor -, isso faz com que os pacientes e principalmente os
pais das crianças fiquem mais tranqüilos.
Caso o infectado seja uma criança em idade escolar, ou freqüente
creches/berçários, o livro fornece um modelo de carta, a ser apresentada à
instituição, revelando a existência de uma infecção viral e explicando que, de acordo
com a Academia Americana de Pediatria, crianças com infecções desse tipo podem
freqüentar escolinhas sem necessidade de antibióticos. Essa carta deve estar assinada
pelo médico.
Tania considera essencial informar às pessoas sobre a possibilidade
delas se sentirem melhor sem a necessidade de usarem antibióticos, sobretudo quando estes
forem desnecessários. "Sugerimos no livro, diversos tipos de materiais, para os
médicos distribuírem aos pacientes nos seus consultórios, explicando por que muitas das
infecções respiratórias não requerem antibióticos", acrescenta. Para os
interessados, a pesquisadora indica a página eletrônica do CDC (Centers for Disease
Control and Prevention): www.cdc.gov/. Esse site fornece
informações que podem ser reproduzidas e distribuídas sem problemas de direitos
autorais
O tempo, a paciência na evolução da doença,
é uma questão que deve ser bem trabalhada no tratamento. "É
importante monitorar os sintomas dos pacientes até que aqueles
desapareçam, assegurando um tratamento adequado", diz Tania.
Cada infecção tem um tempo de resposta específico. "Esperar
pelo resultado da cultura, no caso de suspeita de faringite;
com a sinusite, aguardar cerca de dez dias para verificar se
há melhora; quando de uma otite média com efusão ou secretora,
esperar três meses antes de ministrar antibiótico", explica
Tania. Entretanto, essa espera é de difícil compreensão pelo
paciente, admite a médica. Para contornar isso, podem se lançar
mão dos fármacos sintomáticos. Vale destacar que também esses
medicamentos podem desencadear efeitos colaterais.
Para cada país devem ser verificados os antibióticos
que funcionam, uma vez que há resistências a microorganismos
que são globais e outros regionais. Em países em desenvolvimento
as dificuldades para o uso criterioso dos antibióticos são ainda
maiores. Alguns fatores contribuem para isso : o acesso aos
antibióticos sem a receita médica; a falta de acompanhamento
sobre a evolução da infecção, os pacientes não retornam ao médico;
a alta mortalidade por doenças infecciosas motivadas pela prescrição
excessiva e a automedicação.
A resistência dos microorganismos pode ser controlada.
Na Islândia, em 1989, só 2,5% de todos os Streptococcus pneumoniae
não eram sensíveis à penicilina. Em 1993, esse número passou
para cerca de 20%. A partir deste aumento da resistência do
pneumococo foram promovidas intervenções por meio de campanhas
públicas e educação aos médicos. Como resultado o emprego dos
antibióticos diminuiu e a resistência também (4% em dois anos).
Este tipo de abordagem é que Tania pretende levar ao conhecimento
das pessoas com seu livro.
"Infectologia em Otorrino - Uso Criterioso de Antibióticos em
Infecções de Vias Aéreas Superiores" foi lançado simultaneamente em inglês e
espanhol. Tania tem mais de oito livros e manuais publicados na área de
otorrinolaringologia. Ela também é presidente da Interamerican Association of Pediatric
Otorhinolaryngology (Aipo) com mais de 4 mil médicos. (Hebert França)
Para saber mais:
www.radiobras.gov.br/ABrn/c&t/2000/materia_300600_5.htm