Terapia
gênica começa a apresentar resultados
Brasília, 03 (Agência Brasil - ABr) - Com os avanços do conhecimento
sobre o DNA, torna-se cada vez mais real a possibilidade de se manipular genes com o
intuito de curar doenças. É a terapia gênica, que possibilita aliviar o defeito causado
pela perda ou mau funcionamento de um determinado gene ou de seu respectivo produto. Neste
tratamento, são introduzidas, em células específicas do paciente, cópias de genes com
objetivos terapêuticos. No futuro, esta técnica poderá ser empregada para curar
doenças genéticas, bloquear o desenvolvimento de tumores cancerígenos e corrigir outros
males.
Os avanços obtidos nessa nova técnica ainda são limitados, mas
significativos. Dentre os problemas a serem superados para que a terapia gênica torne-se
mais eficaz, encontra-se o desafio da obtenção de vetores seguros. Vetor é o meio de
transporte de fragmentos de DNA específicos para dentro de uma célula. Existe uma
variedade de sistemas vetores, podendo ser físicos, químicos ou biológicos. Entre os
vetores físicos ou químicos, podem ser citados a transfecção de DNA, a injeção
direta de DNA, complexos receptores-ligantes e eletroporação. Os sistemas vetores
biológicos, por sua vez, baseiam-se na infecção de células por retrovírus (na terapia
gênica, alteram de forma permanente a célula hospedeira, integrando-se ao genoma) ou
adenovírus (não se integram ao genoma da célula hospedeira, mas apresentam alta
expressão gênica).
"Para que a terapia seja efetiva, os vetores necessitam de vários
atributos: atuar diretamente no interior da célula a ser modificada, atingir o alvo, ter
grande poder de ação com pequenas quantidades do material, poder ser industrializado a
baixo custo e não causar efeitos maléficos", explica o professor e médico Milton
Artur Ruiz.
Segundo Sérgio Dani, do Departamento de Genética da Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), em São Paulo, a terapia gênica começa a apresentar
eficácia especialmente contra doenças genéticas relacionadas ao sangue, como
deficiência de adenosina deaminase, doença de Guacher, doença granulomatosa crônica e
anemia de Fanconi, entre outras. "Não é qualquer doença genética que pode ser
tratada por esse método. A terapia é indicada para doenças monogênicas, ou seja,
quando apenas um gene é problemático", esclarece Dani. É o caso da fibrose
cística, que provoca acúmulo de fluidos no epitélio respiratório (o que possibilita
tratamento com o uso de aerosol) ou pâncreas.
A terapia gênica também tem apresentado resultados encorajadores no
tratamento do câncer e de determinadas doenças infecciosas para as quais ainda não se
tem um tratamento seguro, como tuberculose, Aids, herpes, malária, hepatite,
esquistossomose e dengue. De acordo com Sara Terezinha Olalla Sàd, médica e professora
da Unicamp, determinadas técnicas de terapia gênica têm sido empregadas com relativo
sucesso em leucemias e linfomas, tumores cerebrais agressivos, tumores de pulmão e outros
tipos de câncer.
Ela cita variadas estratégias: modificar a célula tumoral, reparando
um ou mais defeitos genéticos; introduzir um gene indutor de respota imune antitumoral;
introduzir gene produtor de enzima conversora de pró-droga que induzirá sensibilidade do
tumor a agentes citotóxicos; e diminuir a sensibilidade das células normais do
hospedeiro, introduzindo genes de resistência a drogas, possibilitando tratamento mais
agressivo.
Sàd acredita que a terapia gênica avançou significativamente nos
últimos dez anos. "Ela já é uma realidade e neste século será objeto de grande
incremento. Todavia, o relato recente da morte de um paciente devido à terapia gênica
aponta para aspectos éticos que deverão ser explorados no curso deste
desenvolvimento", adverte.
Ela se refere a Jesse Gelsinger, 18 anos, que morreu durante um estudo
feito pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. "Foi um caso de reação
imunitária exacerbada contra um vetor. Infelizmente, esta é uma situação que pode vir
a ocorrer na implementação de terapias experimentais", opina Sérgio Dani. Para
ele, em poucos meses, serão totalmente aprovados alguns tipos de terapia gênica com
comprovada eficácia. (Claudio Marques)
Para mais informações:
www.med.upenn.edu/~ihgt
www.wiley.co.uk/genetherapy
www.nhgri.nih.gov/Intramural_research/Clinical_therapy
www.mc.vanderbilt.edu/gcrc/gene/inttext.htm
www.sciam.com/explorations/101496explorations.html
www.newsrx.com/
www.med.unc.edu/genether/welcome
http://health.ucsd.edu/gt/