Diversidade de DNA das árvores é a chave para preservação

 

Brasília, 03 (Agência Brasil - ABr) - Vamos supor que uma área deva ser reflorestada com determinada variedade de árvore que era típica do local. Para isso, parece ser uma boa opção utilizar apenas sementes da melhor árvore encontrada, promovendo um aprimoramento genético da espécie, correto? Errado. É o que constatam pesquisas feitas pelo Laboratório de Genética Florestal da Escola Superior de Agricultura Luis de Queiróz (Esalq), da USP, em Piracicaba. Um dos objetivos do projeto é comparar o DNA de árvores de determinadas regiões, verificando sua variabilidade genética.

"Quando encontramos boas variações entre o material coletado, significa que as árvores estão bem, assim como toda a floresta", explica Paulo Yoshio Kageyama, coordenador do projeto. Em matas virgens, a diversidade genética de cada espécie costuma ser relativamente alta. A baixa variabilidade dentro da espécie pode ocasionar um definhamento a longo prazo, problema a médio e longo prazo detectável em gerações posteriores.

Isso significa que é prejudicial à floresta utilizar sementes de poucas árvores para reflorestamento. O problema se repete quando são cortadas as árvores de determinada área, deixando poucos exemplares no local. "Esse tipo de teste permite detectarmos sutilezas que deixam claro quando as árvores são "irmãs" ou não. Com os seres humanos, a probabilidade de nascerem filhos defeituosos de parentes muito próximos é maior do que de parentes distantes. O mesmo ocorre com as árvores", explica Kageyama.

Nessa técnica, são colhidos o DNA de 30 a 50 exemplares de cada espécie a ser analisada. Essa técnica, que começou a ser utilizada na década de 90 com animais, é ainda mais recente na análise das árvores. Kageyama e sua equipe já detectaram diferenças consideráveis entre a diversidade de matas virgens e áreas reflorestadas. A princípio, são analisados exemplares da Mata Atlântica e da Amazônia. Os estudos são realizados no Pontal do Paranapanema (SP) e nos seringais do município de Boca do Acre. Detectando o problema, é possível enriquecer a diversidade das árvores, transferindo sementes ou mudas para a área que necessitar de uma maior variabilidade.

Kageyama propõe, entre outras soluções preservacionistas, a criação de corredores ecológicos, ou seja, áreas contínuas de floresta que propiciem também o deslocamento de animais, especialmente os polinizadores. "Mais de 97% das espécies arbóreas tropicais são polinizadas por insetos, morcegos e beija-flores. Em ecossistemas tropicais, as sementes também são dispersas por animais que se alimentam de frutas. Tudo isso garante a biodiversidade vegetal", afirma. O projeto ressalta que, para preservar as espécies arbóreas tropicais, o ideal é a conservação in situ (preservar o ecossistema), em vez da ex situ (preservar apenas o DNA das espécies, como ocorre em um banco de sementes, por exemplo).

"A conservação in situ preserva não só a espécie vegetal, mas também os polinizadores e dispersores. De nada adianta preservar sementes ou exemplares de determinada variedade de árvore caso ela só se reproduza com a ajuda de um animal que tenha sido extinto, por exemplo. Além disso, a preservação de um ecossistema permite a evolução das espécies", justifica Kageyama. (Claudio Marques)

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