Brasília, 08 (Agência Brasil - ABr) - Já faz parte da história da
propaganda o estudo realizado pelo pesquisador de mercado James Vicary, em New Jersey
(EUA), no ano de 1957. Por seis semanas, durante a projeção do filme "Picnic",
num determinado cinema, foram inseridas duas mensagens publicitárias: "Coma
Pipoca" e "Beba Coca-Cola".
Essas frases surgiam uma vez a cada cinco segundos, permanecendo três
milésimos de segundo na tela. Segundo Vicary, esses flashs não foram percebidos
conscientemente por nenhum dos 45 mil freqüentadores naquele período. O resultado dessa
propaganda inconsciente, conforme alardeou o pesquisador, foi o aumento da venda de pipoca
em 57,7% e do refrigerante, em 18,1%.
Apesar de ser usado como um dos principais exemplos do poder de
persuasão da propaganda subliminar, o estudo de Vicary nunca foi atestado cientificamente
e, em 1962, o próprio pesquisador teria afirmado que tudo não passava de invenção.
Entretanto, a partir desse episódio, verdadeiro ou ficcional, o mundo começou a se
preocupar com as técnicas de propaganda e os mecanismos por ela utilizados para fazer com
que as pessoas sintam necessidade de consumir.
Com relação a propaganda subliminar, os publicitários, quase que em
unanimidade, afirmam que ela não existe e nunca foi comprovado, em testes, que inserir
mensagens induzindo as pessoas a comprar resulte em consumo em massa. Pela falta de
comprovação científica de sua existência, nenhum país possui legislação que
efetivamente proíba a propaganda subliminar. Nos Estados Unidos, a Comissão Federal de
Comunicações considera a prática antiética, injusta e enganosa, contudo o país não
tem lei proibindo-a.
No Brasil, o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária
(Conar), uma organização não-governamental formada por profissionais da área de
propaganda, é quem regula o setor. O documento no qual ele se baseia para atuar é o
Código de Ética dos Publicitários e, nele, não há qualquer referência à propaganda
subliminar. Mas fazendo uma interpretação mais aprofundada verificamos que o artigo 20
do código condena a técnica ao afirmar que "as mensagens devem ser ostensivas e
assumidas". O Código de Defesa do Consumidor em seu artigo 36 também veta os
anúncios disfarçados
Luiz Celso de Piratininga, 1º vice-presidente do Conar, professor da
Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) e
diretor-presidente da agência de publicidade Adag, confirma que o código não faz
menção à propaganda subliminar porque, segundo ele, não há comprovação de que ela
exista. "É preciso acabar com essa idéia de demonização do processo na
propaganda", acrescenta.
Na sua visão, perde-se muito tempo discutindo um aspecto da propaganda
que sequer sabemos se realmente existe. Nessa linha da propaganda agindo no subconsciente
das pessoas, Piratininga prefere analisar a pesquisa motivacional, de acordo com ele
comprovadamente eficaz na ação sobre o consumidor.
A motivacional é um tipo de pesquisa que procura identificar os
motivos que impulsionam os indivíduos a adquirirem um produto. Os métodos utilizados
para isso são os mais diversos. De uma forma geral, grupos são montados para debater
temas relacionados a produtos ou serviços e identificar as características que deverão
ser valorizadas na propaganda para satisfazer as necessidades inconscientes dos
consumidores. Piratininga conta que a propaganda eleitoral utiliza muito dessa técnica,
fazendo exibições monitoradas dos programas, antes deles irem ao ar, verificando
eventuais quedas de interesse dos espectadores.
Philip Koetler, eleito como o primeiro "líder em pensamento de
marketing" pelos membros da American Marketing Association, utiliza o estudos de
Freud para justificar o potencial da pesquisa motivacional. No livro "Princípios de
Marketing", escrito por ele em parceria com Gary Armstrong, diz que "para Freud,
as pessoas não têm consciência da maioria das forças psicológicas que moldam seu
comportamento. Segundo ele, à medida que as pessoas crescem, reprimem muitos dos seus
impulsos, os quais nunca são eliminados nem perfeitamente controlados. Aparecem em
sonhos, em atos falhos, em comportamentos neuróticos ou obsessivos, ou em último caso,
em psicoses. Portanto, Freud sugere que ninguém chega a compreender por completo suas
motivações. (...) A pesquisa motivacional coleta informações de pequenas amostras de
consumidores para descobrir os motivos mais profundos que os levam a escolher certos
produtos".
A partir de Koetler ficou impossível dissociar o produto e a
propaganda da satisfação das necessidades humanas. Para ele, "o ponto de partida
para o estudo do marketing reside nas necessidades e desejos humanos. A humanidade precisa
de comida, ar, água, roupa e abrigo para sobreviver. Além disso, as pessoas desejam
recreação, educação e outros serviços".
Apesar dessa polêmica sobre a existência ou não da propaganda
subliminar, o merchandising indireto, dissimulado é regularmente usado. Especialistas
dizem que a propaganda quando inserida na programação normal, seja num filme ou novela,
ou num evento esportivo, tem seu potencial melhor aproveitado. Dessa forma, é mais fácil
superar os mecanismos de defesa que o consumidor cria quando dos intervalos comerciais.
Um exemplo desse tipo de técnica subliminar foi aproveitado pela Coca-Cola no filme
norte-americano Blade Runner, dirigido por Ridley Scott. Uma das tomadas de cena mostra
uma paisagem urbana com dezenas de anúncios, nenhum deles focalizados plenamente. As
mudanças rápidas de enquadramento, o movimento ágil da câmera perseguindo os atores e
a edição com vários cortes não permitem que o espectador se concentre em verificar
todos os itens que compõem a cena, estão concentrados na trama. Apesar disso, a visão
periférica das pessoas está, subliminarmente captando dezenas de anúncios, um deles do
refrigerante. Cada um de nós será capaz de citar um exemplo desse tipo visto em novelas,
shows, jogos esportivos, atualmente em tudo há propaganda indireta de produtos. (Hebert
França)