Brasília, 08 (Agência Brasil - ABr) - Desde que a televisão assumiu
o papel de babá nas famílias, surgiram questionamentos sobre a possível influência da
programação televisiva na formação das crianças. Estudo realizado pelo Laboratório
de Pesquisas sobre Infância, Imaginário e Comunicação (Lapic), da Escola de
Comunicações e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo (USP), mostra que a sociedade
superestima a TV.
De acordo com a coordenadora da pesquisa "O desenho animado na TV:
mitos, símbolos e metáforas", Elza Dias Pacheco, "a televisão é apenas um
dos mediadores sociais que formam a criança. A estrutura familiar tem muito mais
influência, além da escola, religião e grupo de amigos, e toda a mídia da qual a
televisão é apenas uma parte". Conforme os estudos verificaram, as crianças não
são receptoras passíveis da programação televisiva. Elas recebem, mas selecionam o que
lhes interessa, incorporando criativamente a mensagem. Para isso, diz Elza, "pais e
professores têm papel fundamental na construção de um olhar crítico das crianças
frente ao que vêm na TV, fazendo desse meio de comunicação um elemento de
desenvolvimento emocional, intelectual e cognitivo".
Para os pesquisadores a Tv poderia ser utilizada pro-ativamente por
pais e professores como fonte de discussão para temas que interessam as crianças.
Entretanto, como ficou comprovado em levantamento anterior, realizada pelo Lapic,
"Televisão, criança e imaginário: contribuição para a integração
escola-universidade-sociedade", os pais parecem ter medo do que a televisão possa
estimular, e os "professores não sabem trabalhar com a linguagem televisiva, porque
isso exigiria que a escola assumisse o papel de ensinar seu aluno a fazer uma leitura
crítica desse veículo".
Partindo do pressuposto de que as crianças assistem a desenhos
animados e que deles gostam, um dos objetivos da pesquisa foi verificar de que forma a
escola e a família podem converter isso em desenvolvimento cognitivo e emocional.
A pesquisa de campo foi realizada em janeiro de 1999, foram
entrevistadas 311 crianças em cinco parques da cidade de São Paulo. Elas apontavam seus
desenhos preferidos, descreviam personagens e contavam porque gostavam do desenho. Essa
pesquisa foi complementada pelo estudo teórico sobre o que é o mito e como ele se
estrutura na linguagem, seja oral, visual ou multimídia.
Conforme os resultados do levantamento, o desenho preferido pelos
menores foi o Pica-pau, seguido do Pernalonga. Segundo Claudemir Edson Viana, um dos
pesquisadores, esses dois desenhos têm estrutura narrativa similar, caracterizados por
uma grande variedade de ações, com ritmo acelerado e sem ligação de causa e efeito.
"As crianças se identificam com esses personagens pelo aspecto frágil que possuem e
porque são capazes de inverter essa situação de desvantagem com esperteza vencendo o
inimigo no final", explica.
No ranking dos preferidos, A Turma do Pateta e O Máskara ficaram em
3º e 4º lugares, respectivamente. Para Viana, ambos são visualmente mais elaborados que
os anteriores, com movimentos de câmera e cores menos teatralizadas. "Como existem
muitos personagens em cada desenho, as inter-relações sociais servem à criança como um
modelo a mais e acabam satisfazendo necessidades conscientes e inconscientes de
compreensão de seu entorno".
Uma das conclusões a que chegaram os pesquisadores é que não há uma relação de
causa e efeito entre violência televisiva e comportamentos anti-sociais das crianças.
Também não se sustenta a idéia de que uma boa Tv infantil deva ser assexuada e sem
violência. Essas são visões reducionistas e místicas, classificam os especialistas.
(Hebert França)