Embrapa consegue leguminosa com maior teor protéico

 

Brasília, 10 (Agência Brasil - ABr) - A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) realizou ontem mais um Dia de Campo na TV para divulgar a Multilinha Campo Grande, uma leguminosa forrageira desenvolvida pela sua unidade Gado de Corte, em Campo Grande (MS).

"A Multilinha Campo Grande não é uma nova cultivar, é resultado de uma combinação de sementes de várias linhagens do Stylosanthes capitata e S. macrocephala", explica Celso Dornelas Fernandes, coordenador das pesquisas. Essa leguminosa tem alto teor de proteína, de 18% a 22%, superior ao de quaisquer gramíneas, que possuem índices entre 8 e 14%.

Em testes de campo em que os estilosantes foram consorciados com Brachiaria decumbens, uma gramínea, o ganho de peso vivo diário foi de 542 gramas por animal, enquanto que no sistema a braquiária exclusivamente esse ganho é, em média, de 464 gramas. Em um ano, a produção de carne na consorciação foi de 401 kg/ha, nos testes só com a gramínea essa produção foi de 338 kg/ha.

Outra vantagem da adoção das leguminosas é a fixação biológica de nitrogênio tanto no solo, quanto na planta. Segundo Fernandes, os dois estilosantes presentes na multilinha Campo Grande fixam algo em torno de 180 quilos de nitrogênio por hectare ao ano, reduzindo, dessa forma, os gastos com adubação nitrogenada. "A leguminosa é boa para todo o sistema, além dos benefícios que traz para a planta, esses estilosantes contribuem, também, para a fixação do nitrogênio no solo", explica ele. Devido a essa característica, são realizadas pesquisas para a adoção dos estilosantes como adubo verde. A Embrapa Cerrados, em Planaltina (DF), testa com resultados satisfatórios, como informa Fernandes, as leguminosas como cobertura verde na cultura do milho.

A multilinha Campo Grande possui resemeadura natural, as sementes germinam simplesmente ao cair no solo. Roza Maria Schunkle, uma das pesquisadoras, acredita que com manejo adequado só será necessário outro plantio em 5 ou 6 anos. Essa informação ainda não é confirmada porque os experimentos têm apenas quatro anos. O tamanho das plantas e das sementes, permite que se faça a colheita mecânica com as mesmas máquinas que se colhe a soja.

Uma característica da semente, destacada por Fernandes, é a necessidade de água para germinar. Entretanto, ela possui um tegumento que a torna impermeável. "Se essa proteção não for retirada a planta praticamente não germina", acrescenta. São três as opções para escarificar essa semente: com ácido sulfúrico; com água quente; ou passando a semente por uma máquina de beneficiar arroz. A Embrapa indica a última por ser aquela com menor riscos de acidente.

Fernandes explica que a combinação dessas duas espécies de estilosantes, ambas com boa variabilidade genética, torna as plantas mais resistentes às doenças, em especial à antracnose, doença causada pelo fungo Colletotrichum gloeosporioides. A antracnose provoca manchas nas folhas e hastes, podendo ocasionar desfolha severa de plantas suscetíveis, levando-as à morte, gerando grandes prejuízos nas pastagens. "Quando uma planta não for resistente ao fungo, em constante mutação, a outra o é", diz ele.

O experimento com essa mistura física de sementes teve início em 1990 na Fazenda Maracujá, em Campo Grande. Na propriedade, onde predomina solo de areia quartzosa, foram encontradas plantas de S. capitata e S. macrocephala remanescentes de um experimento conduzido em anos anteriores, sobrevivemdo sob alta pressão de pastejo, baixos níveis de fertilidade natural e com alto grau de resistência à antracnose. Sementes das espécies foram colhidas separadamente e levadas para estudo na Embrapa Gado de Corte, onde se identificou em sua composição uma mistura expontânea de 20% de S. macrocephala e 80% de S. capitata. Essa proporção, após análise, mostrou ser a ideal para pastejo. Já foram acompanhadas seis gerações da planta, em que foram definidas as características dessa multilinha em locais diferentes.

Para conhecer a amplitude da adaptabilidade do estilosantes Campo Grande, foram implantados ensaios com a leguminosa em Campo Grande (MS), Chapadão do Sul (MS), Goiânia (GO), Sete Lagoas (MG), Planaltina (DF) e Teresina (PI). Com exceção de Teresina, os testes revelaram bons níveis de produtividade anual: 13 toneladas por hectare de forragem e de sementes com casca e 300 kg/ha de matéria seca. Com esses estudos, os pesquisadores concluíram que a leguminosa se adapta melhor a regiões de solo arenoso, clima tropical e com estações chuvosas definidas.

A Embrapa Gado de Corte estendeu até amanhã o prazo para os interessados na produção de sementes do estilosantes Campo Grande se habilitarem à sua comercialização. Podem concorrer empresas produtoras de sementes e pessoas físicas, legalmente cadastradas junto ao Ministério da Agricultura. Serão disponibilizadas 3,5 toneladas de sementes. Os interessados no cultivo da Multilinha Campo Grande devem entrar em contato com a unidade Gado de Corte em Campo Grande (MS), pelo telefone (67) 768.2141; fax: (67) 763.2700 ou pelo e-mail: sac@cnpgc.embrapa.br. O próximo Dia de Campo na TV está programado para o dia 23 deste mês, o tema será o Cultivo do Girassol no Brasil. (Hebert França)

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