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Beija-flores da Mata Atlântica aprendem a cantar por imitação e não por instinto

 

Campinas, 11 (Agência Brasil - ABr) - Uma equipe de pesquisadores das universidades de Campinas (Unicamp), de São Paulo (USP), da Duke University Medical Center (EUA) e Rockefeller University (EUA) comprovou que duas espécies de beija-flores da Mata Atlântica são capazes de adquirir seu repertório vocal por imitação e não por instinto, usando um gene ligado ao comportamento, ou seja, aprendem a cantar.

A descoberta inédita de sete estruturas encefálicas distintas dos beija-flores demonstra que tal comportamento é semelhante ao do homem e outros animais como os primatas, mas só era conhecido em outros dois únicos grupos de aves: os canoros, como canários e curiós, e os papagaios. O resultado do estudo está na edição desta semana (vol 406 nº 6796) da revista britânica Nature, apontada como uma das mais importantes publicações científicas do mundo.

A revista circula um mês depois de ter colocado na capa outra importante pesquisa brasileira, o projeto genoma da bactéria Xylella fastidiosa. A praga, também conhecida como amarelinho, devasta anualmente 30% da cultura de laranja do estado de São Paulo. O mapeamento genético da Xylella envolveu 116 cientistas de várias instituições paulistas, entre elas a Unicamp. Integram a pesquisa sobre os beija-flores os cientistas Erich D. Jarvis, Sidarta Ribeiro, Jacques Vielliard, Maria Luisa da Silva, Dora Ventura e Claudio V. Mello, que pela primeira vez demonstram a existência de núcleos cerebrais controlando a voz de aves da espécie.

Segundo um dos autores do artigo da Nature, o professor de Zoologia do Instituto de Biologia da Unicamp, Jacques Vielliard, a descoberta pode parecer insignificante, mas trata-se de uma atividade rara entre os animais e tem relações mais profundas com o processo evolutivo da estrutura de comunicação dos seres vivos. A surpresa, diz Villliard, foi constatar que essa organização cerebral é extremamente similar às regiões encefálicas que estão envolvidas - e conhecidas - na aprendizagem vocal e na produção de sons em pássaros canoros e em papagaios. "É surpreendente, porque pássaros canoros, papagaios e beija-flores não são parentes e devem, portanto, ter evoluído a aprendizagem vocal e a organização cerebral correspondente de maneira independente", explica.

A doutoranda em Neurociências e Comportamento da USP e co-autora do trabalho, Maria Luisa da Silva, explica que entre todas as aves, os beija-flores são notáveis por várias das suas características de vida: eles se alimentam do néctar das flores pairando no ar e são os únicos seres capazes de voar à ré. Eles também podem enxergar a luz ultravioleta que sinaliza certas flores e apresentam um metabolismo altíssimo, com as asas batendo num ritmo de até 90 movimentos por segundo e o coração até dois mil pulsos por minuto.

Para tanto esforço eles precisam ingerir açúcar regularmente para manter-se ativos e entram em torpor noturno quando suas reservas energéticas se esgotam. "Eles tem um tamanho diminuto, até menos de duas gramas em algumas espécies, mas um cérebro relativamente grande", informa a pesquisadora.

No caso da pesquisa publicada na Nature foram estudadas duas espécies das cerca de 320 que vivem nas Américas. As duas espécies, balança-rabo-de-bico-torto (Glaucis hirsuta) e o beija-flor cinza (Aphantochra cirrhochloris) são observadas no parque do Museu de Biologia Mello Leitão, no município de Santa Tereza, no Espírito Santo.

Existe aproximadamente 320 espécies da família dos troquilídeos ou beija-flores, todos vivendo no Novo Mundo, a grande maioria nas regiões tropicais das Américas, mas também até o Alaska e a Patagônia. No Brasil foram registradas pelo menos 80 espécies, das quais 1/5 exclusivas do país, particularmente na Mata Atlântica e campos rupestres do Brasil Central. Fora essas espécies de distribuição restrita, muitos beija-flores ocupam grandes áreas e alguns executam amplas migrações.

O professor Jacques Vielliard coordena há mais de trinta anos o único laboratório de bioacústica da América do Sul que possui 15 mil gravações de mais de mil espécies de aves de todo o mundo, além de anfíbios e mamíferos. "Um aspecto pouco conhecido da vida dos beija-flores é seu sistema de comunicação sonora. Apesar de ter uma siringe, o orgão de produção vocal das aves, simplificada, eles são capazes de emitir uma variedade extrema de estruturas sonoras. Esses sons são geralmente muito agudos e rápidos, e portanto pouco percebidos pelo ouvido humano. O registro dessas vozes requer o uso de gravadores e microfones de alta sensibilidade e fidelidade", detalha Vielliard.

Graças ao acervo do Arquivo Sonoro Neotropical no Laboratório de Bioacústica da Unicamp, conta Maria Luiza da Silva, já descobriu-se que espécies de beija-flores são capazes de, por exemplo, emitir dois sons ao mesmo tempo (fenômeno da "voz dupla" até então conhecido em poucas aves), variar individualmente a seqüência de notas de seu canto (modalidade do canto "versátil" até então conhecido só em sabiás), e apresentar variações regionais de canto ou "dialetos", indício de aprendizagem.

A publicação do trabalho na Nature confirma que a pesquisa científica no Brasil tem a capacidade de participar dos avanços de ponta do conhecimento humano. Aliás, o país tem a vantagem de dispor de uma invejável biodiversidade, o que permite escolher as espécies mais adequadas ao assunto a ser estudado.

Para Vielliard, o Brasil pode conquistar mais espaço no cenário científico internacional, não só por grandes ações temáticas, como os estudos de Genoma ou de Biota, mas também investindo mais no apoio às iniciativas individuais de cooperação e às estruturas de registro da biodiversidade. A combinação da riqueza florística e faunística do país com a dinâmica dos seus órgãos de pesquisa representa um potencial a ser desenvolvido com sucesso. (Caius Lucilius)

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