Brasília, 15 (Agência Brasil - ABr) - A farmacologia mundial está
baseada nas plantas. Segundo estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS), quatro
bilhões de pessoas usam extratos vegetais como fonte medicamentosa. Nos países em
desenvolvimento, em 85% das prescrições médicas o princípio ativo é delas extraído.
Apesar de não conhecermos totalmente a flora medicinal, muito menos sabemos sobre o
potencial das toxinas produzidas por organismos marinhos.
Das mais de 800 mil espécies conhecidas dos mares e oceanos, menos de
5% foram estudadas até hoje. Os resultados positivos alcançados por algumas pesquisas
que utilizam toxinas marinhas no tratamento de doenças como o câncer, resultaram em um
aumento na produção de medicamentos utilizando substâncias extraídas de seres
marinhos. Nos últimos trinta anos, foram requeridas patentes para mais de duzentos
produtos do mar, cerca de 70% deles estão relacionadas à saúde e quase metade desse
número se refere a remédios que combatem tumores malignos.
Dentre as novidades marinhas com propriedades medicinais estão três
substâncias para tratá-los. A aplidina, retirada de um tunicado marinho chamado Aplidium
albicans, originário do mar Mediterrâneo, tem provocado regressões tumorais,
principalmente no câncer de estômago, bexiga, pâncreas e próstata. Outra toxina,
também extraída de um tunicado, o Ecteinascidia turbinata, encontrado também no
Mediterrâneo e no Caribe, a Ecteinascidina-743 (ET-743), é estudada por treze diferentes
centros espalhados pela Europa e Estados Unidos. O ET-743 revelou atividade antitumoral em
pacientes com câncer de mama, colo, ovário, pulmão e melanomas em estado avançado.
Entretanto, os pesquisadores destacam o potencial da substância no tratamento de
sarcomas, para os quais ainda não existe droga eficaz. Dos briozoários, pesquisadores
extraem o Briostatin que, usado em combinação à quimioterapia tradicional, reduz o
tempo de tratamento, evitando, ainda, um dos principais efeitos das sessões, a queda de
cabelos.
No Brasil, pesquisadores do Instituto Butantan (IB) e do Instituto de
Química (IQ) da Universidade de São Paulo (USP) verificaram potencial anticancerígeno e
antitumoral no tunicado colonial - espécie de animal marinho que vive preso às rochas,
formando manchas de cor rosa ou amarela. Para a espécie, essa substância os protege do
ataque de predadores. Tanto o IB como a USP integram o Centro de Toxinologia Aplicada
(CTA), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid), criado pela Fapesp. Um
dos objetivos do centro é estudar toxinas animais e de microorganismos que possam gerar
produtos farmacêuticos.
O CTA está sediado no Butantan e o seu diretor, Antônio Carlos
Camargo, é também o coordenador do centro. Segundo Camargo, "o propósito dessa
iniciativa é o de estimular a pesquisa multidisciplinar, disseminar esse conhecimento na
sociedade e aplicá-lo na geração de produtos, em parceria com a iniciativa
privada".
Junto à população, o CTA atua fornecendo informações e
recomendações para prevenir acidentes com animais peçonhentos e bactérias secretoras
de toxinas e instruindo as vítimas na busca de cuidados médicos. Paralelamente, as
propriedades dessas toxinas serão estudadas para a formulação de antídotos ou no
conhecimento básico dos processos patológicos gerados por elas.
Na linha de produção de fármacos, o CTA estimulará as pesquisas que
podem resultar em moléculas úteis ao desenvolvimento de medicamentos. Essa atividade,
que deve gerar patentes, será ativada em parceria com indústrias farmacêuticas
nacionais. O Grupo Farmacêutico (constituído pelos Laboratórios Sintofarma,
Biolab/Sanus, União Química e Biosintética) deve financiar parte das atividades do CTA.
"Certamente nas toxinas encontraremos moléculas que servirão de padrão para o
incremento de novos fármacos", justifica Camargo.
Como explica o professor Camargo, pelo estudo do funcionamento das
toxinas animais e de microorganismos e utilizando essas moléculas como ferramentas,
passamos a entender melhor o crescimento celular, a migração de células, a contração
muscular, a atividade nervosa, o controle da pressão arterial, entre outros mecanismos
vitais. "As toxinas são reconhecidamente instrumentos de grande utilidade para a
investigação fisiopatológica porque interagem especificamente com receptores e enzimas
vitais", acrescenta.
As toxinas pesquisadas estão entre aquelas que afetam o sistema
cardiovascular, a coagulação e migração de células do sangue, os processos
inflamatórios, aos canais iônicos importantes, sobretudo para os tecidos excitáveis
(músculos e nervos) e toxinas bacterianas causadoras de diarréias.
Além dessas atividades, o CTA desenvolverá dois tipos de seleção de
substâncias farmacologicamente ativas: a seleção molecular, baseada em técnicas de
proteoma (para proteínas e peptídeos) ou simplesmente por outros métodos analíticos
(para toxinas não protéicas) e a seleção farmacológica ou imunoquímica por meio de
técnicas de bioensaios, entre outras. "Essas duas atividades permitirão encontrar e
caracterizar outras toxinas de interesse médico, científico e tecnológico", afirma
Camargo.
Para operar, o CTA utilizará o pessoal e os recursos laboratoriais das
instituições parceiras. Além do IB e da USP (Centro de Biologia Marinha, Instituto de
Ciências Biomédicas, Instituto de Química e Museu de Zoologia), participam do projeto a
Unifesp (Laboratório de Peptídeos), a Unesp (Laboratório de Química Estrutural e
Zooquímica, Rio Claro e Laboratório de Cristalografia de São José do Rio Preto) e
Univap (Laboratório de Genética Molecular).
José Carlos de Freitas, diretor do Centro de Biologia Marinha
(Cebimar), acredita que o CTA facilitará a colaboração entre os profissionais do setor
para a obtenção de derivados de composto natural, semi-sintéticos ou sintéticos que
possibilitarão os estudos farmacológicos. "A parceria com empresas farmacêuticas
nacionais tornará mais ágil a transformação dessas substâncias em fármacos com
patentes brasileiras", acrescenta. (Hebert França)