Toxinas de organismos marinhos são estudadas desde a década de 70

 

Brasília, 15 (Agência Brasil - ABr) - Apesar de sua significativa extensão, mais de 7.500 Km, o litoral brasileiro é uma fonte de recursos naturais praticamente inexplorada. As pesquisas com as toxinas produzidas por animais marinhos que ocorrem na costa nacional são recentes. No Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP, localizado na estância balneária de São Sebastião (SP), esses estudos começaram na década de 70.

José Carlos Freitas, diretor do centro, informa que o interesse pelas toxinas marinhas surgiu com algumas descobertas de seu mestrado, em que foi identificada uma substância numa glândula do molusco Aplysia brasiliana, que modifica a neurotransmissão colinérgica. Essa substância apresenta características de relaxante muscular e cardiomoduladora.

No Cebimar já foram isolados e identificados cerca de trinta compostos, sendo dez deles inéditos. Uma das pesquisas do centro isolou e identificou em uma anêmona vermelha, endêmica da costa brasileira, uma substância que aumenta a motilidade intestinal, podendo ser utilizada futuramente para essa finalidade. Outro animal estudado, um molusco da espécie Conus regius, encontrado em grande quantidade na ilha de Fernando de Noronha, produz uma toxina que tem revelado efeitos promissores no combate à dor crônica de aidéticos e cancerosos, com a vantagem de não causar dependência química.

Um dos estudos que mais interessam ao Cebimar é com a toxina produzida pelo baiacu pintado. Segundo Freitas, para se defender, esse peixe libera uma substância que provoca parada cardíaca em seu predador, obrigando-o a soltar a presa. Essa toxina é semelhante à utilizada como marcador por pesquisadores. "É uma molécula, uma neurotoxina, que marca naturalmente a membrana da célula facilitando o estudo", explica. O objetivo da pesquisa é desenvolver formas de obter essa substância em escala comercial para que possa ser colocada no mercado em concorrência à empregada hoje, cujo preço é alto.

O Cebimar e o Instituto de Biociências, ambos da USP, trabalham em parceria. Em São Sebastião são realizadas as coletas de organismos marinhos e a parte experimental das pesquisas. Caso seja detectada bioatividade, o material segue para o Instituto de Biociências, onde será feito o "screening" farmacológico a fim de descobrir o perfil de atividade biológica.

A caracterização de esponjas coletadas no Litoral Norte Paulista revelaram atividades citotóxicas, com potencial uso como anti-proliferativo e/ou antitumoral. "O trabalho também vem identificando a presença de substâncias cardiotônicas e antiinflamatórias em extratos orgânicos de esponjas e algas do Litoral Norte Paulista", diz José Carlos Freitas.

A multidisciplinariedade, informa Freitas "é condição primordial para atingir os objetivos dessas pesquisas". Objetivos esses que podem traduzir-se em novas toxinas, drogas para a quimioterapia e defensivos agrícolas, subsídios para a vigilância sanitária quanto à presença de organismos potencialmente capazes de provocar envenenamentos quando consumidos pela população. Outro aspecto do estudo é determinar espécies peçonhentas.

Quanto a possível toxicidade de algumas espécies consumidas pela população, os dois centros verificam a presença de neurotoxinas paralisantes como a Saxitoxina e a Tetrodotoxina existentes em algas da costa brasileira. Essas toxinas, esclarece o pesquisador, são substâncias naturais usadas pelos animais para defesa: não têm nada a ver com poluentes existentes na água do mar.

Para identificar a presença dessas neurotoxinas, os técnicos analisam o tunicado filtrador Phallusia nigra, muito freqüente no litoral brasileiro e com intensa capacidade de filtrar e reter essas substâncias. Se os mariscos, como os mexilhões e as vieiras, ao serem consumidos, estiverem contaminados por essas toxinas, podem provocar diarréias intensas. "Esses organismos estão sendo isolados da água do mar e cultivados para verificação da presença ou não dessas toxinas", diz Freitas. Com recursos de outro programa da Fapesp - Programa de Políticas Públicas - as instituições farão o monitotamento do pescado ao longo do litoral paulista, acompanhando os níveis de toxina.

Apesar do grande potencial, não há medicamento produzido a partir de toxinas extraídas de animais marinhos encontrados no país. Entretanto, Freitas visualiza no ambiente marinho um celeiro de novos fármacos ou fonte de matéria prima para outros fármacos. "Acreditamos que vários desses compostos que estão sendo encontrados nesses organismos marinhos poderão servir para novas patentes brasileiras, num futuro próximo", acrescenta. (Hebert França)

© Todas as matérias poderão ser reproduzidas desde que citada a fonte