Pesquisa com invertebrados marinhos dá prêmio a química da UFF

 

Brasília, 15 (Agência Brasil - ABr) - Pelas pesquisas sobre toxinas farmacológicas extraídas de animais marinhos, a química Rosângela de Almeida Epifânio, do Laboratório de Produtos Naturais Marinhos (Lapromar), da Universidade Federal Fluminense (UFF), recebeu, esse mês, o prêmio Pesquisador Júnior no I Prêmio Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) - EMS-Sigma Pharma de Ciência e Tecnologia em Saúde.

Desde sua criação, em 1993, o Lapromar se dedica ao estudo de invertebrados marinhos, com ênfase na avaliação da atividade biológica de extratos brutos e substâncias puras isoladas e identificadas, principalmente de esponjas e octocorais. "Nossas pesquisas tiveram como objetivo principal a descoberta de substâncias com atividade ecológica ou farmacológica produzidas por organismos marinhos coletados ao longo da costa do Brasil", define Rosângela. A criação do grupo foi motivada pela falta de informações sobre as substâncias orgânicas produzidas pelos organismos que habitam a costa brasileira.

Nas coletas realizadas na costa do Rio de Janeiro, nos parques nacionais marinhos dos Abrolhos e de Fernando de Noronha, o Lapromar analisou atividades biológicas em extratos brutos de sete octocorais, 63 esponjas e duas ascídeas. Desse material, trinta substâncias foram isoladas, 14 delas inéditas na literatura. Alguns destes trabalhos ainda estão em andamento, outros, como informa Rosângela, foram concluídos e publicados em revistas científicas internacionais.

Das pesquisas realizadas, Rosângela destaca os estudos com uma ascídea da família Didemnidae, coletada em Tamandaré (PE). "É o mais importante pela atividade biológica observada e pela complexidade estrutural dos produtos naturais isolados", justifica ela. A Tamandarina A, substância extraída dessa ascídea, quando testada frente à diversas linhagens de células cancerígenas, mostrou-se mais potente que outros fármacos anticâncer em testes, como a Didemnida B. Por esse trabalho, o Lapromar mereceu a capa do Journal of Organic Chemistry, apontada como uma das revistas mais conceituadas da área de química.

Os primeiros resultados favoráveis do laboratório com os extratos marinhos vieram com os octocorais. Uma pesquisa com esses invertebrados descreve o isolamento de esteróis glicosilados "inéditos e citotóxicos", enfatiza Rosângela, com ação frente a células tumorais de cólon humano. Das gorgônias (animais marinhos celenterados como os corais vermelhos), Phyllogorgia dilatata e Lophogorgia violacea foram isoladas substâncias com reconhecida atividade neurotóxica. "Os ensaios de preferência alimentar em campo, demonstraram que estas Neurotoxinas inibem o consumo da gorgônia por peixes e que, portanto, são importantes no mecanismo de defesa e de sobrevivência destes organismos", explica.

Outras cinco espécies com atividade citotóxica significativa também são estudadas pelo Lapromar. "Um destes extratos quando testado pela professora Izabel Frugulhetti - colaboradora do Instituto de Bioquímica da UFF - inibiu em 95% a enzima transcriptase reversa do vírus HIV", informa Rosângela.

O isolamento de substâncias bioativas de animais marinhos no Lapromar é obtido por meio de ensaios biológicos de palatabilidade em campo, de atividade contra bactérias marinhas patogênicas, de atividade contra a enzima transcriptase reversa e de citotoxicidade.

"Apesar de já terem sido descobertas mais de 7 mil substâncias produzidas por micro e macroorganismos marinhos, muitas das quais com diferentes atividades farmacológicas já comprovadas, a pesquisa em produtos naturais marinhos no país ainda está no início", analisa a pesquisadora. As informações sobre a química dos organismos coletados na costa nacional (muitos dos quais são espécies endêmicas), obtidas pelo Lapromar e por outras instituições, mostram que há um grande potencial farmacológico a ser descoberto no litoral brasileiro. (Hebert França)

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