
Animais
marinhos têm vários mecanismos de defesa
Brasília, 15 (Agência Brasil - ABr) - Na maioria das vezes, as
toxinas dos animais marinhos são mecanismos naturais de defesa ao ataque de predadores.
Além da intoxição, as espécies marinhas estão providas de outras formas de proteção
ao contato com predadores, entre eles nós humanos.
Quando o homem entra em contato com seres marinhos, a maior
probabilidade é de que o animal seja o prejudicado. Entretanto, em algumas situações, a
tentativa de fuga do animal pode provocar acidentes em que os danos ficam para os humanos.
O aumento da ação antrópica nesse habitat, em que ele é um intruso, só tem aumento os
relatos de acidentes.
Segundo Marcelo Szpilman, biólogo marinho e mergulhador, autor do
livro "Seres marinhos perigosos, guia prático de identificação, prevenção e
tratamento", das aproximadamente 80 espécies de animais marinhos que podem provocar
algum tipo de acidente, apenas duas atacam: o tubarão e a barracuda. Outras espécies, as
traumatogênicas, como os agulhões; as eletrogênicas, como as raias elétricas; ou mesmo
as mordedoras, caso das moréias, só respondem se molestadas.
Dos animais que produzem toxinas há os peçonhentos e os venenosos, a
diferença entre os dois é explicada por Szpilman. "A peçonha é uma substância
(toxina ou mistura de toxinas) de origem estritamente animal, produzida por uma glândula,
capaz de alterar o metabolismo de outro animal quando inoculada. Já o veneno não é
produzido por glândulas, nem pode ser inoculado naturalmente. A toxina entra no corpo
através dos tratos digestivo ou respiratório ou por absorção por meio de contato com a
pele".
No contato com animais marinhos ou peçonhentos, a principal
recomendação é a cautela. Szpilman diz que "de um forma geral, não se deve tocar,
manusear ou importunar os seres marinhos desconhecidos, evitando-se aqueles com formas e,
principalmente, cores exóticas - as cores vivas são um sinal da natureza para o
perigo". Também não é fácil determinar com exatidão quais peixes são adequados
para o consumo. As espécies que contêm secreções venenosas em seu organismo não
compõem grupos facilmente identificáveis e nem ocorrem em determinadas épocas do ano.
"Algumas espécies podem apresentar toxicidade sazonal, enquanto outras só se tornam
venenosas após consumirem ou se exporem a substâncias ou organismos venenosos",
acrescenta o biólogo.
Contudo, como revelam os estudos de Marcelo Szpilman, o tubarão
continua sendo o animal marinho mais perigoso. Já foram identificadas cerca de 380
espécies de tubarões e cações (como também são conhecidos), 32 delas com registros
de acidentes com o homem. Na costa brasileira ocorrem 80 espécies de tubarões e dessas,
cerca de quinze são realmente perigosas e podem atacar de forma não provocada surfistas,
banhistas, pescadores e mergulhadores.
O olfato e a sensibilidade à vibrações (mecanismo de audição) são
os sentidos mais desenvolvidos nos tubarões, informa Marcelo. "Pelo olfato, eles
conseguem detectar uma gota de sangue a 300 metros de distância", exemplifica. Os
tubarões possuem a boca em posição ventral e sem contato com o crânio, o que
possibilita uma grande abertura. O temor provocado pelos tubarões está diretamente
relacionado ao impacto da visão de suas mandíbulas abertas. Tanto assim, que o filme
Tubarão, ainda um dos maiores sucessos de bilheteria mundial, dirigido por Steven
Spielberg, tem título original Jaws, mandíbula em inglês.
Os dentes dos tubarões são triangulares, pontudos, extremamente
eficientes, mas não são bem fixados às mandíbulas devido à falta de raízes. Para
suprir esta deficiência, os tubarões são providos de várias fileiras de dentes de
reposição, dispostas em posição reversa, atrás da fileira que está em uso. Esse
número de fileiras em uso e de reposição pode chegar até cinco. "Quando um dente
é perdido, o que está logo atrás se move para o seu lugar. De tempos em tempos toda a
fileira é substituída", informa Szpilman. A potência da mordida do tubarão pode
chegar a uma força de 300 kg/mm².
Apesar de todo o temor que temos de tubarões, a propabilidade de
alguém ser atacado por um é de 1/300 milhões. "É mais fácil ser atingido por um
raio, uma em um milhão", compara o mergulhador. A cada ano, no mundo, são anotados
cerca de cem ataques do peixe, com 15 a 20 fatalidades. No Brasil, de 1955 a 1997, há 70
registros de ataques que resultaram em doze mortes.
Dentre os animais selvagens, o tubarão situa-se em quinto lugar entre
os que mais atacam o homem. As cobras são os mais perigosos com 250 mil ataques por ano.
Em seguida vêm os crocodilos com 2,5 mil, as abelhas com 1,25 mil e os elefantes com 250
ataques/ano. Até mesmo animais domésticos provocam mais acidentes. Nos Estados Unidos,
cerca de 4,5 milhões de pessoas são vitimadas a cada ano por cachorros, gerando 330 mil
atendimentos em hospital e em média vinte mortes.
Estatísticas da FAO, órgão das Nações Unidas para a alimentação
e agricultura, estimam que 20 milhões de tubarões são caçados anualmente. Se fizermos
uma relação entre o número de mortes no contato entre homens e tubarões teremos que,
para cada ataque de tubarão ao homem, 200 mil tubarões são eliminados.
De acordo com informações de Szpilman, o ataque de tubarões costuma
ocorrer em águas não muito rasas, mais de dois metros de profundidade e envolvem
espécimes com cerca de 2 a 8 metros de comprimento. No Brasil, os que mais atacam são
das espécies Carcharodon carcharias, o tubarão branco, e o Carcharhinus
keucas, conhecido como Cabeça-chata. O tubarão branco, também chamado de anequim,
é o mais temido. Os indivíduos dessa espécie podem atingir até 9 metros de
comprimento. No país, são mais freqüentes no Sudeste e Sul. O Cabeça-chata foi o
responsável por ataques a surfistas no Nordeste, registrados nos últimos anos.
Pela análise de Szpilman, o aumento do número de acidentes
entre homens e tubarões registrado nas últimas décadas é explicado
pelo crescimento do interesse por esportes náuticos, especialmente
o surf, que levam cada vez mais pessoas ao mar. Devido ao tempo
prolongado de permanência na água, que pode chegar a horas,
os surfistas são as principais vítimas dos ataques. Para ele,
"a melhor prevenção é conhecer ou informar-se a respeito
de onde se irá nadar, surfar, mergulhar ou pescar". (Hebert
França)
Para saber mais:
Seres marinhos perigosos: guia prático de identificação, prevenção
e tratamento. Autor: Marcelo Szpilman, 168 páginas. Preço: R$ 40,00.
Peixes marinhos do Brasil: guia prático de identificação. Autor:
Marcelo Szpilman, 288 páginas. Preço: R$ 70,00. (lançamento)
Para solicitar os livros, acesse: www.uol.com.br/instaqua/x_plivr.htm
ou entre em contato com Instituto Ecológico Aqualung: www.institutoaqualung.com.br |