Brasília, 15 (Agência Brasil - ABr) - Um único fenômeno da
natureza, os raios, traz ao país um prejuízo anual de US$ 200 milhões e ainda provoca
entre 100 e 200 mortes por ano. Esse é o principal motivo para que os relâmpagos sejam
objeto de estudo do Inpe há pelo menos vinte anos.
No ano passado, as investigações se intensificaram com a
inauguração do Centro Internacional de Pesquisas e Testes de Raios, em Cachoeira
Paulista (SP) e, recentemente, os cientistas conseguiram gerar dois raios artificiais. A
experiência ocorreu no último dia 23. O Centro é um consórcio de pesquisadores do
Brasil, Canadá, França e Estados Unidos.
É a primeira vez que se produz raios artificiais num país localizado
nos trópicos, região do planeta mais acometida por tempestades de verão, o estopim dos
relâmpagos. A condição básica para a ocorrência de raios é a combinação de calor e
umidade. De acordo com Osmar Pinto Júnior, do Centro Internacional de Pesquisas e Testes
de Raios, a expectativa é produzir pelo menos outros vinte raios até o final do verão,
entre fevereiro e março, e estudá-los para aperfeiçoar os sistemas de proteção de
redes elétricas e os pára-raios.
Para obter os raios, os pesquisadores lançam durante uma tempestade -
único evento da natureza no qual ocorrem relâmpagos - foguetes que levam fios de cobre
numa das extremidades. A possibilidade de ocorrer um raio aumenta com a passagem do fio de
cobre porque o material intensifica os campos elétricos abaixo da tempestade, quando as
nuvens estão carregadas. "Tivemos aproveitamento de 100%, lançamos dois foguetes e
obtivemos dois raios naquele dia", conta Osmar. Outros foram lançados antes e depois
dessa data, embora sem sucesso.
O centro tem cem foguetes para a campanha desse verão - estação na
qual certas regiões brasileiras registram mais tempestades, mas o pesquisador pensa que
será lançada apenas a metade. "Só ao final da campanha, teremos dados
conclusivos", explica. Osmar acredita que, se forem produzidos cerca de vinte raios,
será possível fazer os primeiros testes de performance em equipamentos de proteção,
baseados nas informações obtidas.
O Brasil é o país mais acometido por relâmpagos no mundo, devido a
dois fatores: predominância do clima tropical - fator que favorece o aparecimento de
tempestades - e a grande extensão do território. A incidência é maior nas regiões
Norte, Centro-Oeste e Sudeste, especificamente no noroeste de São Paulo, sul de Minas,
Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e na Amazônia.
São 100 milhões de descargas elétricas por ano, segundo levantamento
do Inpe, publicado em 1996, no livro "Relâmpagos". Cachoeira Paulista tem uma
boa incidência do fenômeno, segundo Osmar, o que é positivo para a atividade do centro,
que é o primeiro dos trópicos. Existem outros dois laboratórios que simulam raios no
mundo, um na Flórida (EUA) e outro na China. "Os dados neles levantados, no entanto,
não são apropriados porque o clima é diferente e conseqüentemente o comportamento das
chuvas e a produção de raios", comenta.
A equipe brasileira é composta de oito a dez pessoas que permanecem de
plantão 24 horas, até o final do verão, para acompanhar as tempestades. A procedência
do equipamento utilizado é mista, o corpo do foguete é francês, o combustível
americano e os equipamentos de medição são dos três países que formam o consórcio de
estudo.
Os raios artificiais foram obtidos a uma altura entre 400 e 500 metros,
o que também foi avaliado como positivo pelo pesquisador. "Quando lançamos a uma
altura menor, gasta-se menos combustível e isso barateia a operação", explica. De
acordo com Osmar, há tempestades em que é preciso lançar os foguetes a uma altitude
entre 800 metros e 1 Km.
Como a pesquisa sobre o tema evoluiu desde 96, o Inpe deve lançar o
segundo livro da série até o final do mês. De autoria do engenheiro eletrônico Osmar
Pinto Júnior e da física Iara Regina Cardoso de Almeida Pinto - ambos com
especialização em ciências espaciais - a publicação terá como título
"Tempestades e Relâmpagos no Brasil". Embora seja uma edição independente,
será distribuído para livrarias de todo o país.
Em linguagem acessível a leigos, o livro traz os resultados das
pesquisas desenvolvidas no Inpe nos últimos anos, além de dicas sobre como se portar
durante uma tempestade com raios. De acordo com Osmar, o ideal é se abrigar em um
ambiente fechado, que pode ser um edifício ou mesmo um carro. No entanto, se a pessoa
estiver num campo aberto há recomendações do que não se deve fazer, como, por exemplo,
não se encostar em objetos altos como árvores e torres metálicas que atraem as
descargas.
O ideal ainda, destaca o engenheiro, é que a pessoa se ajoelhe e
espere a chuva passar. "Imagine que em pleno verão o sol está quente e a família
está na praia. De repente, cai uma tempestade. Não havendo prédios próximos, o certo
é ficar ajoelhado na areia", aconselha. Esse procedimento é o menos arriscado
porque, dessa forma, a pessoa diminui sua estatura.
Embora pareça melhor a opção de deitar-se, baseado nesse princípio,
é desaconselhável fazê-lo. Isso porque o relâmpago pode se propagar num raio de até
50 metros e, deitada, a pessoa teria mais chances de ser atingida pela descarga. Da mesma
forma é desaconselhado entrar na água, na medida em que a corrente elétrica se propaga
num raio muito maior, até 500 metros, pois a água é ótima condutora de eletricidade.
(Lana Cristina)