Brasília, 17 (Agência Brasil - ABr) - Que o planeta Terra é composto
por 2/3 de água, todos nós aprendemos logo de início em nosso período estudantil.
Temos até uma música do compositor Guilherme Arantes que diz ser a Terra o planeta
água. O que todos esquecem de dizer é que desse volume de águas, 97% são mares e
oceanos, portanto água salgada. Do restante, 70% são geleiras e montanhas de água.
Então, o que sobra do líquido disponível para utilização pelo homem é apenas 1%.
A finitude desse recurso é uma constatação que a sociedade mundial
chegou há pouco tempo. O aproveitamento racional das águas e o controle da poluição
pela emissão de efluentes são políticas adotadas nas últimas décadas por alguns
países, grande parte deles desenvolvidos. O economista Euris Morato, que fez estudos
sobre os mecanismos de cobrança pelo consumo de água e sobre a emissão de efluentes de
vários países, afirma que não há um modelo ideal para aproveitamento e controle desse
recurso. A única certeza que ele tem, é que "não há soluções para os problemas
das águas, sem a participação financeira e gerencial direta dos usuários e de toda a
sociedade organizada".
Há países que cobram pelo uso da água e pela emissão de efluentes.
Outros criam incentivos fiscais e creditícios. Há, ainda, os que combinam esses
procedimentos e os que têm livre mercado. A política brasileira para as águas, em fase
de implantação, foi preparada após análise desses modelos existentes. O mecanismo
francês de gestão foi o mais influente na montagem do similar nacional. Elaborado no
início do século, o código francês das águas foi incrementado após a 2ª Guerra
Mundial, com a deterioração dos rios do país. A alta densidade demográfica - 50
milhões de habitantes numa área de 500 mil km² -, o conseqüente aumento do consumo, a
urbanização, a poluição e a degradação fizeram com que, em 1964, fosse criada a Lei
das Águas que passou a tratar o recurso como finito.
Pela lei francesa, essa é uma ação conjunta do Estado, dos agentes
econômicos e da sociedade. O gerenciamento de cada uma das bacias hidrográficas é feito
por comitês e por agências responsáveis. Bacia Hidrográfica é a área drenada parcial
ou totalmente por um ou vários cursos d'água.
Ao Estado compete monitorar as fontes poluídoras e consumidoras, a
qualidade da água, o controle institucional e o gerenciamento ambiental. O sistema de
cobrança de água por volume consumido não foi implantado em algumas bacias. A taxação
pela emissão de poluentes está mais avançada, são cobradas as emissões de: matéria
orgânica em suspensão, nitrogênio, fósforo, hidrocarbonetos e outros inorgânicos. Os
agricultores irrigantes não participam do sistema.
Em 1996, as receitas totais do sistema alcançaram US$ 1,8 bilhões,
40% dos gastos totais das bacias francesas. Para 2001 é prevista uma reforma na política
das águas com a cobrança de impostos sobre pesticidas e produtos poluidores. Conforme
dados fornecidos por Euris Morato, o controle da emissão de poluentes elevou a taxa de
tratamento de efluentes domésticos de 50% em 82 para 72% em 92. A indústria reduziu a
emissão de carga orgânica em mais de 27%, e de sólidos em suspensão em cerca de 38%.
No entanto, Morato tem uma crítica ao modelo francês. "O sistema
deveria induzir o usuário a não poluir ou investir na despoluição, como é feito na
Alemanha. Tarifas baixas provocam o repasse desses custos para os consumidores,
dificultando os investimentos no combate à degradação hídrica", explica.
Na Alemanha, a taxa cobrada pela emissão de efluentes é variável.
Ela depende do teor de toxidade da substância despejada nos rios. As taxas por unidade
padrão de toxidade passaram de US$ 7, em 1981, para US$ 33,30, em 1990, e US$ 36, em
1993. Os agricultores estão isentos dessa cobrança. Com esse aumento gradual das taxas
para quem não reduz a emissão de poluentes e descontos de até 75% para quem o faz, o
sistema conseguiu, nos últimos dez anos, despoluir os rios alemães em 50%. A
arrecadação tributária originária de indústrias poluidoras caiu, mas foi compensada
pelo crescimento da de equipamentos e máquinas antipoluidoras. (Hebert França)