Maior estrela da Via Láctea sofre "apagões" períodos

 

Brasília, 17 (Agência Brasil - ABr) - De tempos em tempos, Eta Carinae, a maior estrela da Via Láctea, deixa de brilhar o equivalente a 60 sóis num só dia. A estrela, classificada com uma supergigante, possui uma luminosidade calculada em cinco milhões de vezes a do Sol. Ela se encontra na constelação de Carina, distante 7.500 anos-luz da Terra, ou cerca de 68 quatrilhões de quilômetros.

Detectar o "apagão" e tentar explicar esse e outros comportamentos dessa que é a maior estrela de nossa galáxia é o objetivo de uma série de projetos desenvolvidos desde 1990 pelo professor Augusto Damineli, do Instituto Astronômico e Geofísico (IAG) da Universidade de São Paulo (USP), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Não é de hoje que o comportamento de Eta Carinae intriga a comunidade astronômica. Datam de 1827 os primeiros registros ralacionados com a variabilidade de seu brilho. Além do mais, sua massa superaria 120 vezes a do Sol, quando se acreditava que só estrelas que tivessem até cem vezes a massa solar conseguiriam se mante "vivas". Ou seja, o fato de Eta Carinae simplesmente existir já é um mistério.

Outro episódio ainda não totalmente compreendido relaciona-se com uma grande explosão ocorrida em 1843, na qual teriam sido liberados o equivalente a três sóis de energia. "Apesar de gigantesco, foi um fenômeno apenas epidérmico", garante o pesquisador. Tal acontecimento deu origem a uma grande nebulosa, uma gigantesca nuvem de gases e poeira cósmica, que foi apelidada de Homúnculo, por sua forma lembrar a de um homem pequeno. Tal nuvem passou a envolver o astro luminoso, dificultando a sua melhor observação.

Devido a esse fato, o professor Damineli se utilizou de métodos indiretos para tentar explicar os enigmas de Eta Carinae. Sua previsão do fenômeno da variação do brilho se deu há vinte anos. O último foi registrado em janeiro de 1998. De acordo com seus cálculos, o próximo "apagão" deve ocontecer em julho de 2003.

Ocorre que, para o astrônomo, Eta Carinae não é uma, mas sim duas estrelas. Ele acredita que ambas possuam órbitas elípticas e fortes ventos estelares, entendidos aqui como uma chuva de prótons e eletróns originários de gases ionizados, ou seja, carregados eletricamente. O "apagão", salienta Damineli, não é perceptível a olho nu, sendo identificável apenas com o auxílio de equipamentos e técnicas adequadas. O fenômeno se dá quando as estrelas se aproximam, ficando encobertas por seus ventos. Nesse período, a fonte de raios-X, um dos espectros luminosos identificados, desaparece.

Para obter resultados, o professor trabalhou com um telescópio montado no Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), em Brasópolis, sul de Minas Gerais. Os resultados de sua pesquisa demoraram a ser aceitos pelas comunidades astronômicas norte-americana e européia. Segundo o astrônomo da USP, seus colegas sismplesmente usavam técnicas inadequadas que impediam a obtenção dos mesmos resultados.

Membros do European Southern Observatory, importante observatório europeu localizado nos Andes chilenos, chegaram a contestar como era possível que um jungle telescope (literalmente, um telescópio da selva) revelava-se o que um dos maiores observatórios do mundo não via?

As coisas começaram a mudar em 1996, quando Mike Corcoran, chefe de um grupo da Nasa, deu ouvidos ao brasileiro e passou a vigiar a estrela diariamente, na espera do "apagão". Mike acabou vendo não só o desaparecimento dos raios-X como também descobriu uma série de outros fenômenos, que acabaram por dar suporte às teses de Damineli. (AUN/USP)

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