Pesquisadora elabora lista florística de Fernando de Noronha

 

Brasília, 24 (Agência Brasil - ABr) - Catalogar as espécies vegetais do arquipélago de Fernando de Noronha e atualizar seus nomes científicos é o objetivo de um complexo e meticuloso trabalho que a engenheira florestal Ângela Miranda, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), realiza desde 1993 e que deve ser publicado dentro de um ano.

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Combretum rupicolum - Ridley
Ramo florido, espécie endêmica da Ilha Fernando de Noronha, está localizada no Morro do Francês, e acredita-se que só tenha um indivíduo, esse exemplar só tem flores femininas

Em suas andanças pela ilha principal, que leva o nome do arquipélago, e pelas ilhas secundárias mais acessíveis, como a Ilha da Rata, Ângela já encontrou várias espécies catalogadas há 113 anos pelo botânico inglês H. N. Ridley. Dentre elas, duas endêmicas - que ocorrem só lá - o Combretum rupicolum e o Cereus insularis. Ridley foi o primeiro a publicar a lista florística da ilha, o que fez em 1888 na revista científica The Journal of The Linnean Society, baseado nas coletas feitas junto com sua equipe no ano anterior.

Bem antes disso, no entanto, Fernando de Noronha já havia sido visitada por pesquisadores ilustres. O evolucionista Charles Darwin esteve ali em 1832, quando identificou o Cereus insularis, uma cactácea fartamente distribuída na ilha, cujo ramo florido é de beleza ímpar.

O trabalho de Ridley resultou no relato de 128 espécies, sendo 28 classificadas por ele - ou seja, não havia descrição para elas e o botânico as batizou - e 44 cultivadas. Para Ângela, o importante em seu trabalho é encontrar as plantas descritas pelo botânico inglês e determinar quais são endêmicas. "Por ser uma ilha oceânica o normal seria ter mais espécies endêmicas", observa ela.

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Ramo florido do Cereus insularis

Distante 345 Km do Cabo de São Roque, no Rio Grande do Norte, e 545 de Recife e outros 2.600 Km da costa africana, o arquipélago é composto de 21 ilhas e ilhotas, sendo algumas formadas apenas por rochedos. Essa distância do continente é o que leva a pesquisadora a se surpreender com o pequeno número de espécies endêmicas, quer dizer, que só ocorram no local onde foram descritas. "Há mais animais endêmicos que vegetais e isso acontece porque o animal se especializa mais que o vegetal", explica a engenheira.

As visitas de Angela à ilha não foram poucas, mas, segundo ela, ainda há um longo caminho a percorrer. Só no ano passado, quando encontrou o Combretum rupicolum no Morro do Francês, ela fez quatro coletas no período chuvoso, que vai de janeiro a agosto. Isso porque uma planta só pode ser identificada quando está florida, o que não ocorre no período da seca.

As coletas da pesquisadora são sempre acompanhadas de funcionários do Ibama já que a maioria é feita no território que engloba o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha. Mais de 70% do território da ilha é compreendido pelo parque, ou seja, é protegido. Estudos mostram que o arquipélago é de origem vulcânica e que a ilha principal é, na verdade, a parte visível de uma cadeia de montanhas submersas. Ângela encontrou mais de 250 espécies, entre árvores, arbustos, trepadeiras e herbáceas e acredita que exista aproximadamente 300 espécies em todo o complexo.

Ela acredita que, quando for publicada, sua pesquisa servirá de base para estudos sobre a vegetação da ilha. "Abrirá caminho para outros estudos", prevê. Nesse trabalho, ela deve incluir alguns questionamentos que a deixam intrigada, como o porquê de haver poucas espécies vegetais endêmicas, e uma possível influência africana nas espécies vegetais que lá ocorrem. Essa desconfiança passou a ser objeto de estudo quando Ângela percebeu que o Combretum rupicolum frutificou, embora só tenha flores femininas. Os indivíduos hermafroditas dessa espécies ocorrem apenas na América, sendo que no Brasil são cerca de 60 e os indivíduos de sexo separado (dióico) ocorrem na África.

Outro achado que o trabalho dela conterá é o Combretum rupicolum em si. Desde que Ridley identificou esse indivíduo em 1887, ninguém mais o havia encontrado. Ângela crê que só haja esse indivíduo da espécie, de flores femininas, no mundo inteiro. A planta é uma trepadeira que se apoia em cima das pedras, comuns em Fernando de Noronha, e ocupa cerca de 50 metros quadrados.

A pesquisadora está segura de que não haverá espécies a serem classificadas por ela, uma vez que a ilha já sofreu muito com a influência da ocupação humana desde que foi descoberta por Américo Vespúcio, em 1503. Vários vegetais foram introduzidos pelo homem, principalmente os cultivados e, devido a essa introdução desordenada, há muitas espécies invasoras. Houve também muito desmatamento.

A solução para as áreas desmatadas, de acordo com a engenheira, seria o uso de plantas nativas. Mas é necessário antes o controle de plantas invasoras, como a leucena, uma forrageira introduzida possivelmente na década de 30 para servir de alimento para o rebanho local que, hoje, simplesmente toma conta da vegetação local. "Se não houver um controle, é grande a possibilidade da leucena acabar com a flora da ilha", afirma.

O pouco número de espécies arbóreas é creditado, por ela, à ocupação humana. A predominância de herbáceas e cactáceas fez com que Ângela apresentasse no ano passado, durante o Congresso Nacional de Botânica, uma outra denominação para a vegetação de Fernando de Noronha. Ao invés de vegetação típica de Mata Atlântica, ela classificou como Mata Estacional Decidual. Estacional porque a vegetação muda de acordo com estações bem definidas, a chuvosa e a seca, que vai de agosto a fevereiro. Decidual porque perde as folhas no período seco. (Lana Cristina/Fotos: Ângela Miranda)

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