Planta invasora compromete vegetação de Fernando de Noronha

 

Brasília, 24 (Agência Brasil - ABr) - Levantamento fotográfico recente, feito por pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), mostra que quase 80% da ilha de Fernando de Noronha está ocupado por uma forrageira normalmente usada para produção de feno, a leucena. Espécie arbórea que atinge até três metros de altura, a planta tem uma copa frondosa que impede a passagem dos raios solares para os vegetais menores.

Como a maioria das espécies da ilha são herbáceas e arbustivas, ou seja, de baixo porte, o risco é de haver uma devastação e, pior que isso, de se formar uma monocultura. Para controlar a leucena, a UFRPE criou um projeto de extensão, coordenado pela zootecnista e professora Maria Eunice Queiroz, com a participação de alunos da graduação e da pós-graduação.

Não se sabe ao certo como a leucena foi introduzida em Fernando de Noronha, nem quando. Moradores antigos da ilha divergem sobre a data, mas acredita-se que a espécie tenha chegado lá, pelas mãos do homem, no início do século. A única certeza é de que levaram sementes de leucena para a ilha com o objetivo de alimentar o gado.

Como a pecuária só existe em Noronha como meio de subsistência, o número de cabeças é pequeno e não dá conta da oferta. Além disso, animais ruminantes como caprinos, ovinos e bovinos são criados em regime de semi-confinamento e não têm acesso a todas as áreas onde ocorre a leucena.

Esse, no entanto, é apenas um dos motivos pelos quais a densidade populacional da árvore aumentou tanto. De acordo com Maria Eunice, os consumidores naturais da leucena foram exterminados, não colaborando mais para o controle natural da espécie. As saúvas comem a leucena quando a árvore está no estágio de plântula (planta jovem), o que significa um tamanho de até 15 centímetros.

A legislação que rege a vida em Fernando de Noronha proíbe que seja introduzida qualquer espécie animal ou vegetal e isso impede que os pesquisadores testem outro inimigo natural. Além disso, as vagens descentes da leucena se abrem ao amadurecer e lançam as sementes a até cinco metros de distância da planta-mãe. Talvez por isso os pesquisadores tenham encontrado áreas imensas povoadas com a planta. "Há uma localidade com 30 hectares só de leucena", conta Maria Eunice. Essa área eqüivale a 36 campos de futebol do tamanho do Maracanã.

A zootecnista relata que, no último levantamento sobre a densidade populacional feito nos dias 16 e 17 de outubro, foram registradas até 60 plântulas por metro quadrado. "Isso é uma quantidade estúpida", lamenta ela que, para efeito de comparação, registra: nas áreas vizinhas há, no máximo, seis plantas por metro quadrado.

O plano de controle da leucena já iniciado pela UFRPE prevê, de início, a produção de feno para o rebanho. Numa primeira visita, os técnicos ensinaram aos agricultores locais a produzir o feno e mostraram estudos que comprovam a vantagem protéica do produto. "Tem 20% de proteína e é muito mais barato, já que a matéria-prima é abundante", observa. Os zootecnistas acompanham a nutrição de quatro vacas para comparar a diferença na produção leiteira, entre as que se alimentam de feno de leucena e as que recebem concentrado. "Enquanto no continente o concentrado custa R$ 0,40, na ilha sai por R$ 2", diz Maria Eunice.

Essa seria uma solução emergencial, já que também é proibido, pela legislação, o uso de pesticidas ou mesmo óleo para o controle de plantas invasoras. Uma outra meta do projeto, segundo a pesquisadora, seria reflorestar áreas que apresentam declividade com plantas endêmicas como o feijão bravo, que compete com a leucena. Isso será colocado em prática no ano que vem. (Lana Cristina)

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