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Entulho é reaproveitado em vias e jardins de Belo Horizonte

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Primeira rua pavimentada, em Belo Horizonte, com entulho reciclado em 1995 Briquetes de resíduo de construção colocados em jardim público

Blocos de alvenaria fabricados com resíduo de construção reciclado

Brasília, 31 (Agência Brasil - ABr) - A cidade de Belo Horizonte terá, ainda este ano em funcionamento, sua terceira unidade descentralizada de reciclagem de entulho. A instalação da quarta e última unidade prevista dentro da política de gestão dos resíduos da construção civil da prefeitura também está em articulação. Com isso, o projeto para aproveitamento de rejeito produzido no município completa seu primeiro ciclo.

O uso de entulho reciclado na cidade já é uma realidade desde 1995, na pavimentação de ruas. Na época, havia apenas uma unidade descentralizada. Hoje, com as duas que estão em funcionamento, o material é reaproveitado não só em novas pavimentações, mas também em operações de tapa-buraco, nas calçadas e jardins públicos, na contenção de encostas e, em menor escala, na produção de blocos para construção.

Segundo o arquiteto Tarcísio de Paula Pinto, da I&T Informações e Técnicas, empresa especializada em gestão de resíduos que presta consultoria para a prefeitura, Belo Horizonte é pioneira no tratamento de resíduos da construção e seu respectivo aproveitamento. "Há uma usina de reciclagem em São Paulo, porém subutilizada", observa.

O projeto de gestão desses resíduos é da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) e a execução das unidades de reciclagem fica por conta da I&T. A captação foi distribuída por toda cidade, com cinco pontos de recepção de pequenos volumes. Esse material é reunido nas unidades de reciclagem, onde são reciclados grandes volumes.

Houve todo um trabalho de educação ambiental junto aos carroceiros que hoje são parceiros do sistema. Atualmente, 600 deles estão cadastrados e operando junto aos centros de recepção, reduzindo-se drasticamente a deposição de entulho em aterros. O material reciclado alcança a um volume de 200 toneladas diárias. São mais de 40 caminhões por dia chegando às unidades de reciclagem. "Belo Horizonte é um grande exemplo de política de gestão do resíduo da construção civil", elogia Tarcísio de Paula.

Arquiteto, com doutorado em engenharia, ele vem estudando o tema racionalização da obra, com possibilidade de aproveitamento de entulho desde 83. Considera que é cada vez mais urgente a necessidade de adoção de uma política de gestão desses resíduos por parte dos municípios. "Há uma preocupação que vem se aguçando entre as prefeituras de municípios médios, com cerca de 100 mil habitantes, no sentido do que fazer do entulho", observa. Ele, no entanto, lamenta que não exista vontade política de definir uma ação sustentável para o rejeito da construção civil.

A massa de entulho gerada em nível nacional chega a ser o dobro do lixo que se produz nas cozinhas do país, conforme Tarcísio de Paula verificou ao desenvolver estudos para sua tese de doutorado "Metodologia para gestão diferenciada dos resíduos da construção urbana", defendida na Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP) em 96. O objetivo de sua pesquisa era detectar a quantidade de resíduos gerados numa obra.

Desde 83, quando então era professor da Escola de Engenharia da USP, em São Carlos, e depois, atuando junto ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Tarcísio de Paula também se dedicou a avaliar o desperdício de material nos canteiros, foco que deixou de lado para centrar os estudos na reutilização do entulho pela administração pública.

"O desperdício de material de construção no Brasil é real e ocorre desde à obra doméstica até à obra industrial", diz. Ele destaca pesquisa sobre o mau aproveitamento, desenvolvida em 98, pelo Instituto Brasileiro de Tecnologia e Qualidade na Construção Civil, pelo departamento de Engenharia de Construção Civil da Poli e mais quinze universidades de todo o país.

Com o trabalho, foram constatados índices de perdas altíssimos, como o do cimento que foi de 56%. Segundo o professor da Poli, Vanderley John, que se encontra na Inglaterra realizando trabalho de elaboração de uma metodologia adequada para reciclagem ambientalmente saudável e segura, o levantamento mostrou que há uma diferença substancial de taxas de perda entre as diferentes empresas analisadas. "Isso revela a importância da gestão", aponta.

Parte desse desperdício, ressaltou, está incorporado na própria obra, na forma de espessuras exageradas, por exemplo. Ou seja, nem todo desperdício vira entulho. Conforme John, cerca de 50% do entulho vem da demolição e de obras de manutenção, atividades difíceis de evitar. O resíduo da construção civil, assim, é inevitavelmente um grande problema ambiental e econômico.

As prefeituras gastam muito dinheiro com a deposição irregular de entulho em aterros. De acordo com dados da prefeitura de São Paulo, por exemplo, a atividade consome R$ 4,5 milhões por mês. É justamente com o argumento da economia que Tarcísio de Paula tenta convencer prefeitos da importância da reciclagem desse material inerte, que colabora para transmissão de doenças e provoca inundações, porque parte vai parar nos córregos, e ainda compromete a estética da cidade. "Uma unidade de reciclagem se paga em três meses", garante. Além disso, o custo do material reciclado é, em média, 50% menor que o material novo. Segundo Tarcísio de Paula, há diferenças mais gritantes ainda, com uma relação de cinco contra trinta, sendo que o reciclado ainda tem boa qualidade técnica.

Ele cita como exemplo a cidade de Salvador que executa uma política de gestão de entulho, baseada em usinas de reciclagem. Lá, a estratégia está bem definida, bem como o projeto de construção das usinas, de acordo com Tarcísio de Paula. Ele cita ainda outras cidades que trabalham com a reciclagem de entulho, tais como Ribeirão Preto (SP) - que tem uma unidade operando desde 96 - São José do Rio Preto (SP) - que elabora uma série de decretos e leis municipais que dão suporte a uma política de gestão, inclusive com obrigatoriedade de uso de material reciclado em determinados serviços públicos - Brasília e Nova Iguaçu (RJ) que, na semana passada, publicaram editais de terceirização do serviço de limpeza pública, exigindo que a prestadora faça a reciclagem do material recolhido, inclusive entulho. (Lana Cristina)

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