Urânio consumido em pequenas doses afeta medula

 

Brasília, 07 (Agência Brasil - ABr) - A medula pode ficar seriamente afetada quando houver consumo diário de pequenas doses de urânio, ao longo de alguns meses. Foi o que constataram pesquisadores do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), ao simular a situação em cães da raça Beagle. Esta foi a primeira vez que se analisou os efeitos da ingestão crônica do elemento.

Até hoje, só havia relatos científicos sobre casos de contaminação tóxica de urânio, onde há exposição a grandes quantidades num evento único. Depois de, no máximo, quatro meses, o sistema linfático retira os resíduos do elemento da corrente sangüínea, depositando-os nos rins. O material é expelido pela urina.

Já na exposição gradual, onde há ingestão crônica, o sistema linfático fica sobrecarregado porque, a cada dia, sobram resíduos. "Por isso o urânio se acumula", explica o físico João Arruda Neto, da USP. Nesse caso, a pessoa contaminada estaria mais predisposta a desenvolver algum tipo de câncer, especialmente osteosarcoma ou leucemia.

No Iraque, por exemplo, onde se registrou presença de urânio nos restos dos projéteis usados pelos Estados Unidos, na Guerra do Golfo, já foram reportados diversos casos de leucemia. "São fatos correlacionados, o que nos dá pistas de que os casos da doença podem ser atribuídos à repentina presença do elemento, antes não encontrado ali", observou Arruda Neto.

O urânio estaria presente no projétil porque tem ductibilidade para penetrar a carcaça de um tanque, por exemplo, sem estilhaçamento simultâneo. A explosão ocorre já na parte interna do alvo, tornando o ataque mais eficiente. Essa propriedade é algo como ser mais elástico, flexível.

Não se sabe o efeito do urânio em pessoas que vivem próximas a jazidas. Tampouco há estatística do quanto é ingerido pela população. O fato é que o elemento entra na cadeia alimentar. O Brasil tem a maior jazida do mundo e, também, a mais inexplorada. Estudo feito pela equipe do Instituto de Física há cerca de dez anos constatou que os alimentos deviam concentrar uma quantidade de urânio não-desprezível. Eles analisaram, então, dez marcas de fertilizantes e de fostato de cálcio usado na ração de frango.

É que o urânio é encontrado naturalmente no solo e sempre associado ao fósforo. Os vegetais podem igualmente absorve-lo pelas raízes. "A quantidade de urânio presente no fósforo retirado vai depender do lugar", comentou Arruda Neto, que também coordenou os estudos na época.

A pesquisa atual é feita pelo Grupo de Biotecnologia e Ciências Biomédicas (Bionuc), que usa para tanto técnicas nucleares, com a colaboração do Instituto de Pesquisas Energéticas Nucleares (Ipen) e a Universidade Santo Amaro (Unisa). Apresentado publicamente pela primeira vez, em outubro, na Conferência Internacional de Física Nuclear Aplicada, em Havana (Cuba), o trabalho chamou a atenção de pesquisadores italianos.

"Agora, há a possibilidade de estabelecermos parceria", revela Arruda Neto, ao contar sobre as negociações em andamento com o Centro de Investigação Politécnica de Torino. Os italianos têm interessem em saber mais sobre o efeito do urânio nos ossos. "Nós, em contrapartida, queremos colher material da Bósnia para realizar novos estudos", disse. É que, como no Iraque, há evidências de que os Estados Unidos usaram projéteis revestidos de urânio nos ataques ao Kosovo, no ano passado.

Arruda Neto e sua equipe preparam, agora, texto para publicação dos estudos sobre o efeito da ingestão crônica de urânio na medula, na revista científica Science, dos Estados Unidos. A previsão é de publicação no ano que vem. (Lana Cristina)

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