
Conseqüências do trabalho noturno afetam mais
as mulheres
Brasília, 07 (Agência Brasil - ABr) - Algumas pessoas consideram as
24 horas do dia insuficientes para fazer tudo o que gostariam. Para esses, a noite e mesmo
a madrugada são utilizadas para realizar atividades que muitos consideram essencialmente
diurnas como exercícios físicos e compras. Visando a suprir as necessidades desses
indivíduos, o número de estabelecimentos com funcionamento ininterrupto cresce a cada
dia, assim como a massa de trabalhadores noturnos.
Buscando conhecer os reflexos sobre o ser humano da inversão do
horário de trabalho, a bióloga Lucia Rotenberg, do departamento de Biologia da
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), coordenou a pesquisa "Trocando o dia pela noite:
uma análise do trabalho noturno sob à ótica de gênero". O projeto revelou que,
prejudicial física e mentalmente a todos, as mulheres sofrem mais as conseqüências do
trabalho noturno. O desgaste provocado pela dupla jornada - acúmulo das atividades
doméstica com as profissionais - é potencializado quando associado à necessidade de
dormir durante o dia.
O trabalho de campo que subsidiou o estudo foi realizado numa fábrica
que produz embalagens plásticas, no Rio de Janeiro. Foram observados 46 trabalhadores (30
mulheres e 16 homens) dos setores de produção cuja jornada de trabalho se estendia das
22 horas às 6 horas, de 2ª à 6ª feira. Lucia explica que o "tratamento
estatístico dos dados visou comparar os parâmetros do sono entre as amostras masculina e
feminina, assim como avaliar as conseqüências da presença de crianças de até 10 anos
sobre o sono em ambas as amostras".
Embora os efeitos nocivos do trabalho noturno ao sono, à saúde e às
relações sociofamiliares sejam compartilhados por todos, o envolvimento feminino com as
atribuições domésticas diferencia o cotidiano fora da fábrica de homens e mulheres,
implicando em que elas dispõe de menos tempo para outras atividade, incluindo o dormir.
As comparações estatísticas revelaram que entre as mulheres, as que
possuem filhos até 10 anos tendem a dormir menos no primeiro sono, pela manhã, uma vez
que têm que interrompê-lo para preparar o almoço ou buscar as crianças na escola. Já
os homens, com ou sem filhos, não revelaram diferenças em relação às características
do sono.
Na análise de depoimentos das trabalhadoras observadas fica evidente a
dificuldade que elas têm em combinar as atividades domésticas com a necessidade de
repousar: "A gente chega em casa e tem que dividir o descanso com as tarefas
domésticas. Você fica meio desequilibrada: ou descansa ou cuida das tarefas e dos
filhos"; "Você vive para dormir, porque tem que levantar, fazer uma coisinha e
deitar, porque de noite você tem que trabalhar"; "O homem tem uma vantagem, ele
já tem comida pronta, roupa lavada, tudo certinho, A gente tem que fazer, se não
fizermos, quem vai fazer?".
Estudos de cronobiologia - ciência que trata dos ritmos biológicos -
mostram que a espécie humana é diurna. "Quando uma pessoa trabalha à noite, ela
passa a dormir de dia, mas outros ritmos biológicos (o de temperatura, por exemplo) não
se modificam instantaneamente, o que leva à chamada dessincronização interna",
explica a bióloga. Um exemplo desse desarranjo do organismo se manifesta quando a pessoa
tenta dormir de dia, mas o repouso é tumultuado, com o indivíduo sentindo-se em alerta.
Insônia, irritabilidade, sonolência de dia, sensação de
"ressaca" e mau funcionamento do aparelho digestivo, que levam a longo prazo a
doenças relacionadas ao sistema gastrointestinal e nervoso são alguns dos avisos do
organismo de que seu ciclo natural está sendo violado.
Pesquisa comandada pelo professor Luiz Menna Barreto, do departamento
de Cronobiologia da Universidade de São Paulo (USP), aponta para uma possível redução
na expectativa de vida das pessoas que exercem atividades noturnas durante muitos anos.
Experimento com moscas de fruta (drosófilas) revelou que quando submetidas à esquemas de
iluminação em turnos alternantes, os insetos têm reduzidas de 10% a 20% a expectativa
de vida.
Adaptar o organismo à nova rotina é apenas uma das necessidades do
trabalhador noturno. Segundo Lucia Rotenberg, "trabalhar à noite implica enfrentar
um desafio temporal que envolve dimensões social e biológica". Além do organismo
também as relações familiares e sociais sofrem prejuízos. O cotidiano do trabalhador
noturno é diferente do adotado pela comunidade em geral.
Mesmo tendo consciência das alterações ao organismo, à mente e à
sociedade, provocadas pela inversão de horários, os trabalhadores vêm vantagens no
trabalho noturno. A principal delas é a econômica. Em média, quem trabalha à noite tem
um salário 20% maior do que quem exerce a mesma atividade durante o dia, como é previsto
em lei. Paradoxalmente, as trabalhadoras também consideram favorável o fato de poderem
acompanhar o dia dos filhos, no período em que deveriam estar repousando.
Para Lucia, a pesquisa sobre o impacto do trabalho noturno sob o
enfoque de gênero não deve ser vista como "argumento para restringir a
participação das mulheres no trabalho noturno, mas para inspirar ações que favoreçam
a conciliação do trabalho profissional e doméstico". Atitudes como o direito à
creche e a escola pública, em horário integral, para os filhos de trabalhadores
noturnos. "A sociedade igualitária entre homens e mulheres, tanto no meio
profissional quanto no doméstico é o ideal a ser alcançado", defende. (Hebert
França) |