Proteína de taturana pode curar trombose

 

Brasília, 9 (Agência Brasil - ABr) - Pesquidadores do Instituto Butantan conseguiram isolar e reproduzir a proteína que causa a síndrome hemorrágica nas pessoas que têm contato com a taturana "Lanomia obliqua", comum no Sul do país. Com a descoberta, eles acreditam que seja possível chegar a uma droga capaz de reverter a trombose, doença caracterizada pela interrupção do fluxo sangüíneo devido à presença de coágulos.

Segundo a farmacêutica Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, que coordenou o estudo, a proteína recebeu o nome de lopap e é o princípio ativo do veneno da taturana. Depois de identificar a proteína, os pesquisadores concentraram a atenção na possibilidade de utilizá-la como princípio ativo de um anticoagulante para tratamento da trombose.

"Com o extrato das cerdas da Lanomia, conseguimos dispor de um montante muito pequeno de lopap. Porém, já estamos desenvolvendo o método para produzi-la em larga escala, a partir de bactérias geneticamente modificadas. Toda a biologia molecular necessária para isso foi estabelecida ao longo deste ano. Dispondo de grande quantidade do material, será possível pensar na fabricação do medicamento", revelou Ana Marisa.

Desde 1989, mais de mil acidentes causados pelo contato com Lanomia obliqua foram registrados na região Sul. Caracterizado por síndrome hemorrágica, acompanhada por drástica redução de alguns fatores de coagulação, o fenômeno tornou-se alarmante.

As manifestações mais comuns são dor de cabeça, náusea, dermatite urticante, equimoses, hematomas, sangramentos em feridas recentes, gengivas e narinas. As mais graves são sangue na urina e hemorragias abdominais, glandulares, pulmonares e cerebrais, que podem levar à morte.

Conhecida como oruga ou ruga, a Lanomia obliqua é uma taturana esverdeada, com manchas e listras, que muitas vezes mimetiza (torna-se igual) as plantas que habita. O animal tem cerdas simetricamente dispostas ao longo do dorso, em forma de espinhos ramificados e pontiagudos, de aspecto arbóreo.

O contato com essas cerdas, nas quais se encontra a proteína lopap, é que causa a hemorragia, que se torna grave porque em geral as pessoas tocam uma colônia de taturanas. As conseqüências dependem da quantidade de lagartas com que se teve contato, da intensidade desse contato e das predisposições do paciente.

Os pesquisadores obtiveram a lopap pela purificação do extrato das cerdas da taturana. Verificaram, "in vivo", por microscopia intravital em ratos, que a proteína provoca hemorragia. "Ela ativa uma substância do sangue chamada protombina, produzindo a trombina, enzima que desencadeia o processo de coagulação", explicou Ana Marisa. Com um controle rigoroso da dosagem, porém, a lopap poderia funcionar contra a trombose, sem provocar reações hemorrágicas.

Segundo um dos membros da equipe, o farmacêutico bioquímico Cleyson Valença Reis, no Brasil, os envenamentos têm sido tratados com um soro que o Butatan criou antes da pesquisa do grupo. Ele disse que o próximo passo é produzir um soro baseado exclusivamente na lopap. Atualmente, o medicamento usado é obtido a partir do veneno total da taturana. O soro da lopap já é testado em animais e pode ser uma alternativa mais "limpa" de tratamento. (Fapesp)

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