Engenheiros criam fogão que funciona com energia solar

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Brasília, 12 (Agência Brasil) - O semi-árido nordestino é definido, na maioria das vezes, como uma região seca, "castigada pelo sol". À irradiação solar constante e intensa é atribuída parte das mazelas dos que ali vivem. No entanto, o nordestino, assim como o restante dos brasileiros, não considera o sol um recurso natural. Basta verificar o baixo índice de aproveitamento da energia solar no país para chegar a essa conclusão.

Um projeto que se beneficia do sol abundante da caatinga nordestina é o fogão solar, desenvolvido pelo engenheiro mecânico Manuel Claro de Moraes Guerra Neto e pelo engenheiro civil Arnaldo Moura Bezerra, proprietários da empresa Solar Nort Pesquisas e Aplicações de Energia Solar, em parceria com o Instituto de Tecnologia do Estado de Pernambuco (Itep). O equipamento foi apresentado nesta semana pela Secretaria de Políticas para o Desenvolvimento Sustentável do Ministério do Meio Ambiente (MMA), que busca alternativas sustentáveis para regiões carentes.

O fogão transforma a irradiação solar em calor para o preparo de alimentos. Ele funciona com o uso de concentradores solares dispostos em parábola que convergem a energia para um ponto da panela, que aquece. A temperatura alcançada pelo equipamento dependerá do material utilizado para revestir a parábola.

Bezerra realizou testes comparativos de reflexão com espelho de vidro e alumínio polido para mensurar as temperaturas atingidas. A mesma quantidade de chumbo, que tem ponto de fusão a 327 graus, foi derretida em dois minutos no fogão com parabolóide de vidro, e em cinco minutos com o de alumínio polido. Apesar dos resultados favoráveis ao fogão com placas de vidro, Bezerra afirma que o modelo de alumínio polido é mais adequado, por ser de mais fácil manuseio. "Para cocção de alimentos, não há necessidade de temperaturas tão elevadas como as atingidas pelo fogão com parábola de vidro", diz o pesquisador.

Além de aproveitar o sol abundante na região, o fogão solar, segundo seus idealizadores, reduzirá a destruição da caatinga para a produção de lenha. Dados fornecidos pelos engenheiros indicam que 30% da madeira retirada da caatinga transforma-se em lenha. "Utilizando o fogão solar, será possível economizar até 55% dessa lenha", garante Bezerra.

Por necessitar de sol constante e em abundância, o fogão não elimina o uso de gás e lenha. Como também não tem baterias ou coletores, não há como cozinhar em dias chuvosos e à noite. A falta de recursos que possibilitem o armazenamento de energia é justificada pela necessidade de fornecer um produto economicamente viável para as populações carentes do interior nordestino. O fogão protótipo construído pelos pesquisadores foi orçado em R$ 180. Para produção em escala industrial, eles acreditam que o preço caia para aproximadamente R$ 90.

O fogão solar tem outra vantagem sobre os concorrentes. Por não produzir chama, as possibilidades de acidentes são bem menores. Queimaduras só ocorrerão se a pessoa tocar a vasilha aquecida, algo que se aprende a não fazer ainda em criança. A parábola, seja de vidro ou alumínio, não retém calor. Caso isso ocorra, é um defeito do equipamento, que deve refletir e não absorver a irradiação solar.

O tempo de cozimento de alimentos é mais demorado no fogão solar. De acordo com Bezerra, meio quilo de feijão, em um fogão a gás, demora 90 minutos para cozinhar. No solar, com placas de alumínio polido, o tempo de cozimento é de 100 minutos. Um litro de água, em temperatura ambiente de 28°, no fogão convencional entra em ebulição em 10 minutos; no fogão solar, esse mesmo volume demorará 15 minutos para ferver.

Entretanto, acreditam os engenheiros, o principal obstáculo para aceitação do fogão é o cultural. "Modificar hábitos é difícil", analisa Guerra Neto. Como o sol é essencial, as pessoas terão que cozinhar fora das casas. Além disso, no primeiro contato, o fogão causa estranheza: em nada ele se parece com os similares existentes. A aparência é de uma antena parabólica com um fogareiro ao centro. Para seus criadores, um bom trabalho de conscientização, explicando os benefícios ao meio ambiente e as vantagens econômicas que o uso do fogão trará, é essencial para que ele seja adotado pela população.

A idéia de um fogão alimentado por energia solar não é novidade. Nem mesmo a utilização de parábolas para aquecer é uma descoberta: os vikings ateavam fogo às velas das embarcações inimigas utilizando um equipamento semelhante. Existem diversos modelos de fogões solares, a maioria do tipo caixa quente, que tem um compartimento fechado, como um forno, onde os alimentos são colocados. Os pesquisadores consideram esse modelo menos eficiente, pois a temperatura máxima atingida fica em torno de 160°, bem inferior aos 350° alcançados pelo modelo por eles desenvolvido. Em países como a China e a Índia, o uso do fogão solar é mais difundido, estima-se que nesses países existam 100 mil unidades em uso. (Hebert França)

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