
Nova espécie de veado entrará em lista de
extinção
Brasília, 14 (Agência Brasil - ABr) - O Bororó-de-São-Paulo (Mazama
bororo), uma espécie de veado recentemente identificada e descrita pelo
médico-veterinário e doutor em genética José Maurício Barbanti Duarte, do
Departamento de Zootecnia da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), da
Unesp, câmpus de Jaboticabal, deve ter seu registro homologado pelo Ibama simultaneamente
à entrada na lista oficial de animais ameaçados de extinção, organizada pelo próprio
instituto.
Além dos predadores naturais aos quais qualquer animal selvagem está
sujeito, os Bororó-de-São-Paulo também são alvo de caçadores, interessados na carne
do cervídeo que, em idade adulta, atinge peso médio de 22 quilos. Mas o fator
determinante para a entrada do animal na lista de iminente extinção é a devastação de
seu habitat natural, a Mata Atlântica. Segundo dados da Fundação Mata Atlântica, esse
bioma está reduzido hoje a uma área correspondente a 8% do que era originalmente.
Duarte chegou à nova espécie quando estudava veados-mateiros (Mazama
americana) e veados-bororó-do-sul (Mazama nana) para sua tese de mestrado e se
deparou com um animal com características diferentes, no zoológico de Sorocaba, no
interior de São Paulo. Mesmo com a comprovação de que o animal em cativeiro possuía
diferenças morfológicas em relação aos outros cervídeos já descritos, não era
possível ao veterinário afirmar que se tratava de uma nova espécie. "Com um único
animal não se descreve uma espécie", esclarece ele.
A certificação de que o animal de Sorocaba era realmente uma espécie
diferente veio por meio de estudos cromossômicos. "O Bororó-de-São-Paulo, objeto
do estudo, possui 34 cromossomos, o Bororó-do-sul, 38, e o veado-mateiro, entre 50 e 54
cromossomos. Além disso, eles também têm o ponto de interseção em locais
diferentes", explica Duarte. A diferenciação cromossômica é um atestado natural
de que o Bororó-de-São-Paulo é uma espécie distinta dos outros cervídeos brasileiros.
Para que a descoberta de Duarte seja aceita na comunidade científica falta a publicação
em revistas especializadas, o que deve ocorrer, segundo ele, em breve.
Contatando caçadores e mateiros na região onde foi encontrado o veado
recolhido ao zoológico de Sorocaba - sul do estado de São Paulo e nordeste do Paraná -
Duarte localizou outros três espécimes em cativeiro. Com esses, a descrição da
espécie pode ser finalizada. Entretanto, faltava localizá-lo em seu habitat na mata. Com
a ajuda de colaboradores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), Duarte
tentou, durante três anos, encontrar populações selvagens do cervídeo no Parque
Estadual de Intervales, reserva da Mata Atlântica na região de Capão Bonito, sudeste de
São Paulo, onde havia indícios da existência da espécie.
Nesse período, eles utilizaram de todas as iscas conhecidas para
atrair o animal - frutas, milho, pasta de amendoim -, mas nenhum exemplar foi avistado.
Normalmente os cervídeos são animais difíceis de serem vistos na natureza,
principalmente dentro da floresta, pois evitam o homem.
Adotando outras táticas de localização, instalaram câmeras
fotográficas, funcionando por sistema de sensor infra-vermelho, que revelaram os animais
se alimentando de árvores frutíferas locais. "Esperamos até o ano seguinte, quando
as árvores deram frutos de novo e subimos numa delas na mata fechada, por cinco noites
seguidas, a uma temperatura de dois graus. A espera foi inútil.", relata Duarte. Num
recurso extremo, impregnaram as roupas com fezes e urina dos veados de cativeiro com o
intuito de atrair as espécies selvagens, mas, nem assim, obtiveram êxito. "Foi uma
noite de frio e mau cheiro", relembra o pesquisador.
O primeiro veado Bororó-de-São-Paulo, selvagem, só foi capturado
após quatro anos de tentativas, com a colocação de armadilhas feitas com talas de bambu
e equipadas com radiotransmissores que emitiam sinais quando desarmadas. Nesse primeiro
exemplar, foi instalado um rádio-colar para monitoramento e estudo ecológico da
espécie. Para decepção da equipe, passados dois meses, esse animal foi abatido por uma
onça.
Posteriormente, outros dois veados foram capturados, tiveram coletados
fragmentos de pele, amostras de sêmen, de fezes e de sangue para estudo e em seguida
também foram devolvidos à natureza portanto radiotransmissores.
Esses são, oficialmente, os únicos exemplares da espécie que se tem
conhecimento. Os cervídeos que estavam em cativeiro e serviram de base para a descrição
da espécie já morreram. Contudo, Duarte acredita que a população da espécie não é
tão reduzida assim.
Visando a identificar locais de ocorrência e traçar um panorama da
situação populacional da espécie, Duarte coordena o projeto Área de Distribuição
Geográfica no Brasil do Bororó-de-São-Paulo, financiado pelo Programa de Conservação
e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira (Probio) do CNPq. No
projeto, os pesquisadores adotaram a metodologia de coleta de fezes para extração de DNA
como mecanismo para identificação da espécie. (Hebert França) |