
Língua Eletrônica supera capacidade humana em
distinguir sabores
Brasília, 14 (Agência Brasil - ABr) - Imagine um aparelho, que cabe
na palma da mão, capaz de avaliar o paladar do vinho, água, café, entre outras bebidas.
É a Língua Eletrônica, mais um invento brasileiro criado pelo pesquisador Luiz Henrique
Capparelli Mattoso e pós-doutorando Antonio Riul Júnior, da unidade Instrumentação
Agropecuária da Embrapa.
A Língua Eletrônica é um sensor gustativo e representa um avanço no
controle da qualidade para a indústria alimentícia, vinícolas, estações de tratamento
de água e, possivelmente, para a indústria farmacêutica. O próximo projeto, segundo
Mattoso, será com o leite. "Vamos avaliar sua qualidade, se está degradando e se
apresenta elementos contaminantes", diz.
Hoje, os testes para avaliação do paladar de bebidas são feitos por
degustadores, enquanto que a da água é realizada por análise química em laboratórios,
o que demanda tempo. Com esse aparelho, é possível fazer testes contínuos na linha de
produção em segundos e também auxiliar o degustador, permitindo medidas contínuas e de
maior precisão.
"O sensor funciona como a nossa língua e detecta os sabores com
mais precisão", explica seu criador. A língua eletrônica é muito mais sensível
que a humana. Ela diferencia sem dificuldades os padrões do paladar, doce, salgado,
azedo, amargo, umami (frutos do mar e comidas asiáticas) e a mistura entre eles, em
concentrações muito a baixo da capacidade do ser humano. A nossa língua é capaz de
detectar se uma substância é doce ou salgada quando ela contém acima de 30 milimolar de
sal ou 10 milimolar de doce, enquanto que o sensor diagnostica a partir de 5 milimolar.
Além disso, o sistema também apresenta excelentes resultados na
diferenciação de bebidas com o mesmo paladar, sendo possível distinguir diferentes
tipos de vinho e café.
Em relação à água contaminada dos locais onde o saneamento básico
é deficiente, o sensor auxilia, mas não resolve o problema. O motivo é que na água há
um grande número de contaminantes. "Teríamos que saber quais são as impurezas e os
contaminantes para treiná-la e, depois, usá-la no processo", explica Mattoso. Se em
zonas onde a água é poluída o sensor não resolveria o problema, nas engarrafadoras de
água mineral a situação é diferente. Na opinião do pesquisador, o emprego do aparelho
nessas empresas seria mais fácil porque já existe um padrão de qualidade da
substância. "A função do equipamento seria apenas de monitoramento da substância
para verificar sua qualidade", comenta.
Apesar dos inventores não terem feito testes na indústria
farmacêutica, a Língua Eletrônica também pode determinar em que ponto o sabor do
remédio pode ser alterado. "Podemos modificar o gosto do remédio para menos amargo
ou fabricá-lo com um sabor de fruta", revela o pesquisador da Embrapa.
A Língua Eletrônica é formada por um conjunto específico de
plásticos que conduzem eletricidade e que são sensíveis às substâncias responsáveis
pelos diferentes tipos de paladar. Além disso, ela tem um medidor de resposta e um
computador acoplados. O sensor ainda não está disponível no mercado. A estimativa é
que até o final de 2002, ele seja repassado às pequenas e médias empresas.
O projeto do aparelho durou seis anos e custou R$ 1 milhão, mas sua
confecção no laboratório é rápida, leva apenas cinco dias. A tecnologia desenvolvida
pelos dois técnicos da Embrapa ganhou o Prêmio Governador do Estado, na categoria
Invento Brasileiro, concedido pelo Serviço Estadual de Assistência aos Inventores
(Sedai), da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico de São Paulo.
(Gabriela do Vale) |