
Ministério da Saúde analisa programa de
atenção à dor
Brasília, 16 (Agência Brasil - ABr) - Iniciativa de médicos da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o Aliviador, programa nacional
para melhorar o atendimento no sistema de saúde, quando a principal reclamação do
paciente é a dor, poderá ter aval do Ministério da Saúde.
O programa foi lançado em abril deste ano, com a chancela da
Associação Médica Brasileira (AMB) e já tem parceiros. A Câmara Americana de
Comércio (Amcham) e a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) não só o
apóiam, como estão orientando as empresas a instituírem programas de atendimento à
dor, bem como atividades físicas de relaxamento e alongamento, como forma de prevenir
problemas crônicos.
Segundo o coordenador científico do Aliviador, o psiquiatra João
Augusto Figueiró, o problema é maior do que aparenta. "O empresariado precisa
entender que vale investir no funcionário, como se ele fosse patrimônio da empresa.
Sabe-se que, nos Estados Unidos, por exemplo, economiza-se de US$ 3 a US$ 6 em tratamento,
quando é investido US$ 1 dólar em prevenção", disse. Figueiró está animado com
a receptividade com que o projeto foi recebido pelo secretário de Assistência à Saúde,
Renilson Rehem.
Nesta semana, eles se encontraram em Brasília e Rehem garantiu que
haverá uma resposta oficial sobre o engajamento do ministério ao programa, dentro de
poucas semanas. "Estou animado, acho que as negociações foram boas", revelou
Figueiró. Caso o ministério incorpore o programa às suas políticas, a dor passará a
ser o quinto sinal considerado pelos médicos, quando atendem um paciente na emergência.
Atualmente, se um paciente procura atendimento de emergência, terá
medidos o pulso, a pressão arterial, a temperatura e a freqüência respiratória. São
os quatro sinais que auxiliam a avaliação médica. Ao instituir a dor como quinto sinal,
o sistema de saúde estará respondendo a uma demanda alarmante. A dor é responsável por
80% da procura pelo sistema. A adoção do quinto sinal já é uma realidade nos Estados
Unidos, desde janeiro, quando a Joint Comission (órgão de credenciamento de saúde)
passou essa orientação aos hospitais filiados. Os que não a respeitam, respondem
judicialmente.
Estima-se que cerca de 40% dos adultos padeçam de algum tipo de dor
crônica, o que, invariavelmente, acarreta em ausências freqüentes ao trabalho,
aposentadorias por doença e baixa produtividade. As dores mais comuns são a lombalgia
(dor na coluna), cefaléia (dor de cabeça), reumatológicas e articulações.
Estudo recente do instituto Datafolha para o Instituto Nacional de
Prevenção às LER/Dort (Prevler) e financiada pelo Ministério da Saúde, constatou o
tamanho do problema que são as doenças ditas ocupacionais. Quase sempre relacionadas à
dor intensa e contínua, essas doenças - sejam as Lesões por Esforço Repetitivo (LER) e
Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (Dort) - geram prejuízo para o
empresário e também para o trabalhador.
"O trabalhador começa a sentir dores que não param, depois fica
temporariamente incapacitado para trabalhar. Ao procurar o médico da empresa, esse faz
vista grossa. Se encaminhado ao INSS para dar acesso ao seguro, ele passa pela perícia,
cujo médico o discrimina também e acaba dando alta. Resultado, o trabalhador não tem
atendimento adequado e volta para a mesma função, onde voltará a ficar doente",
relatou Figueiró.
Na pesquisa Datafolha, os números são alarmantes. Cerca de 310 mil
trabalhadores de São Paulo sofrem de LER/Dort, outros 508 mil trabalham em situação de
risco que os torna candidatos a apresentarem o problema. No universo da pesquisa, 4,7
milhões de trabalhadores responderam que sentem dores em alguma parte do corpo,
dormência e formigamento, inchaços ou falta de firmeza nas mãos - que são sintomas
relacionados às LER/Dort.
Não há dados sobre o tamanho do prejuízo econômico com as
ausências ao trabalho ou a redução na produtividade, devido a esses problemas de
saúde. Mas, certamente, o maior prejudicado é o trabalhador. Estudo do Grupo de Dor da
Faculdade de Medicina da USP, realizado em 2000, deu conta de que a receita familiar
diminui em 65% depois de um episódio de dor crônica. "A prevenção é o melhor
caminho e o empresariado precisa atentar para isso", alertou Figueiró.
Para o médico, que define a dor como uma condição de alteração
física, é preciso haver mais investimento na promoção e na manutenção da saúde por
parte do empresariado. "Ele verá o resultado disso na redução do custo com
assistência médica e no número de aposentadorias por afastamento", disse.
O atendimento da dor, em casos crônicos como o câncer, também traz
economia. Segundo Antônio Carlos de Camargo Andrade Filho, diretor do Centro de Terapia
de Dor e Medicina Paliativa da Fundação Amaral Carvalho (que fica em Jaú, SP), o custo
de pacientes terminais tratados num centro especializado na abordagem da dor e dos
cuidados paliativos é três vezes menor do que um paciente mantido numa enfermaria comum.
Os defensores da corrente da humanização do tratamento da dor alegam ainda que isso
melhora a qualidade de vida do paciente. Para eles, esse resultado deveria servir de
argumento para mudar o enfoque da terapia. (Lana Cristina) |