Avanços da ciência e tecnologia podem contribuir para gerar fobias

 

Brasília, 16 (Agência Brasil - ABr) - Do ponto de vista das ciências da saúde, as fobias são resultado de intrincados processos químicos no cérebro, comportamentos, reforços e estímulos psicológicos. Para as ciências sociais, a doença também está ligada aos avanços da sociedade, decorrentes do desenvolvimento da ciência e da tecnologia.

De acordo com a doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e pós-doutoranda pela USP, Elen Geraldes, os avanços da ciência e da tecnologia, que tornam melhor a qualidade de vida nas sociedades modernas, também provocam medo das conseqüências de possíveis erros. Junto com o conforto oferecido pelo avião, que encurta o tempo de viagem, por exemplo, caminha o risco de um acidente, normalmente sem sobreviventes, devido às peculiaridades do meio de transporte.

"Certas pessoas podem desenvolver fobias porque a ilusão de segurança oferecida pelo desenvolvimento científico e tecnológico foi confrontada pela presença do risco", explica Elen. Segundo a socióloga, os atentados ocorridos nos Estados Unidos mostram a "fragilidade aberta pelo conhecimento". "Os Estados Unidos são uma sociedade ultra-desenvolvida, que acreditava na capacidade de antecipar qualquer problema", afirma.

Os exemplos da convivência de perigo e confiança são diversos. A alta tecnologia empregada na manipulação genética pode gerar armas biológicas. Os microcomputadores agilizam o processamento de informações e dão suporte para inúmeras atividades, mas os vírus criados com os princípios da Computação são capazes de destruir em segundos os dados armazenados nas máquinas. "A ciência é dupla face: tem limites e possibilidades", avalia.

Segundo Elen, o cenário desenhado pelos conflitos internacionais entre Estados Unidos e Afeganistão trouxe fatos que também podem influenciar no desenvolvimento de distúrbios psicossociais, entre eles, a contrariedade das ações dos Estados Unidos, que joga bombas, mas também envia alimentos. A socióloga acredita que uma sociedade em crise favorece o desenvolvimento de problemas nos indivíduos.

De acordo com Elen, a suscetibilidade ao desenvolvimento da doença está ligada à relação entre a pessoa e a sociedade. Quanto mais integrada ela está ao meio, menos risco corre. Embora estar inserido possa parecer uma escolha, a socióloga afirma que quem exclui o indivíduo é a própria sociedade. "Você está dentro a partir da sua idade, da sua escolaridade, do seu poder de consumo", diz.

A influência da sociedade pode ser percebida pelos casos recorrentes de estudantes armados que mataram colegas e professores dentro da escola onde estudavam. De acordo com Elen, uma nação favorece esse tipo de comportamento ao não cumprir a sua função moral de educar. "Hoje se vê um Estado que deseduca", afirma.

Pelo fato de o ser humano necessitar do convívio social, tudo o que acontece no meio influencia suas atitudes. Para Elen, a imprensa, que segundo as teorias da Comunicação, forma nos indivíduos a imagem do mundo ao divulgar o que ocorre fora das suas relações interpessoais, é um fator de descobertas que pode gerar medos ao interferir no aparelho cognitivo.

Os fatos novos a que Elen se refere dizem respeito à classificação das sociedades feita pelo comunicólogo e escritor Norval Baitello Júnior, que coordena o Centro Interdisciplinar de Semiótica de Cultura e da Mídia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Para o estudioso, a imprensa, em vez de padronizar e ajustar o relógio do leitor ao acontecimento, evidencia o choque de três visões de mundo, quando inclui na divulgação os países e os atentados terroristas. (Fabiana Vasconcelos)

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