
Parte da carga transportada no país se perde
pelo caminho
Brasília, 21 (Agência Brasil - ABr) - O setor de transportes nacional
é um dos que mais contribuem para o bem-estar econômico do país. Por outro lado, esta
área geradora de riquezas é, também, responsável por importante parcela do
desperdício brasileiro, decorrente de perdas de cargas e do mau aproveitamento da malha
ferroviária e das hidrovias existentes.
Em detrimento do sistema ferroviário e do grande potencial
hidroviário, as rodovias caracterizam, hoje, a forma mais usual de movimentação de
cargas, o que significa que 54% da produção de bens escoam por estradas, contra 21% em
ferrovias e 17% em hidrovias, de acordo com estimativas levantadas em 1999 pelo
Ministério dos Transportes.
Com isso, a preferência pelo chamado "atendimento
porta-a-porta", característico da rede rodoviária, descarta grande parte da
produção industrial e agrícola. Em trechos mal conservados das pistas, por exemplo, a
vibração no veículo pode jogar fora considerável fatia da produção de granéis
sólidos agrícolas. Além disso, a deficiência de equipamentos dos caminhões, como
compartimentos sem ventilação, ou a inadequação de embalagens favorecem a perda
durante as operações de carga e descarga, podendo ultrapassar a faixa dos 50%, como é o
caso da banana. Isto significa que é preciso produzir duas frutas para cada uma que é
consumida.
Conforme estudos sobre processos de transporte de alimentos da Embrapa,
as perdas de produtos agrícolas no mercado atacadista poderiam ser sensivelmente
reduzidas, diminuindo-se o tempo despendido entre a colheita e o consumo, isto é, fazendo
com que o alimento chegue mais rápido à mesa do consumidor por meio de um transporte
mais eficiente.
Cada modalidade de transporte oferece uma série de vantagens e
desvantagens para a movimentação de cargas. A rede ferroviária, por exemplo, é um
sistema de cara implantação e manutenção, que requer constantes investimentos. Mas as
ferrovias reduzem consideravelmente o desperdício dos materiais transportados e, se
eficientemente operadas, podem apresentar custos reduzidos para movimentações que
envolvam grandes quantidades de carga.
Apesar das rodovias apresentarem custo operacional superior em grandes
distâncias, por consumir mais combustível e descartar maior volume de carga, elas
constituem a modalidade preferida pelas empresas nacionais, tornando irrisório o
deslocamento total de cargas pelas ferrovias do país. A distância média percorrida no
conjunto de malha ferroviária é inferior a 500 quilômetros (km), segundo revelam dados
do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea).
Para o engenheiro José Vicente Caixeta Filho, coordenador do Sistema
de Informações de Fretes para Cargas Agrícolas (Sifreca), o transporte rodoviário é
recomendável apenas para percursos inferiores a 500 km, ficando evidente, em um país de
mais de 8 milhões de Km² de extensão, a maior eficiência dos sistemas ferroviário e
hidroviário, o que não é observado no transporte de grãos no Brasil. "Produtos
como o milho e o arroz praticamente cruzam o país em função das longas distâncias que
separam áreas de produção e mercados consumidores. A distância média percorrida chega
a superar 1.600 Km", ilustra Caixeta Filho, também professor da Escola Superior de
Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).
De acordo com Ricardo Elesbão Alves, pesquisador da Embrapa
Agroindústria Tropical, o prejuízo no setor agrícola poderia ser reduzido com melhoria
da rede rodoviária ou emprego de outras modalidades de locomoção, mas os descartes
devidos ao transporte não ocorrem só durante o tempo em trânsito ou por causa de
embalagem inadequada. "O desperdício acontece também pela falta de conhecimento
sobre manuseio dos produtos na pós-colheita", esclarece ele.
Para Alves, deve-se associar investimentos em meios de transporte
adequados e na capacitação da mão-de-obra do setor que manipulará melhor o produto,
evitando danos que resultem em descarte. A redução das perdas significaria, então,
maior oferta de produtos e redução nos custos de produção, beneficiando as áreas
econômica e social. "Estamos jogando fora o fruto do trabalho do setor produtivo. Se
a oferta aumentasse com a redução dos custos de produção, mais pessoas teriam acesso a
alimentos saudáveis, como frutas e hortaliças." (Julia Segatto) |