
Materiais hospitalares lideram desperdício no
HC da Unicamp
Brasília, 21 (Agência Brasil - ABr) - Na visão dos funcionários do
Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o recurso mais
desperdiçado na instituição é o material hospitalar. Essa observação é resultante
de uma pesquisa de percepção do desperdício que fez parte da dissertação de mestrado
da economista e chefe do Serviço de Estatística do hospital, Guiomar Aranha, defendida
em setembro. Foram dois mil questionários respondidos. Em 640 (32%), o material
hospitalar apareceu em primeiro lugar, com 32% das sugestões.
O segundo bem que se entendeu ser mal utilizado foi a energia
elétrica, com 9%, seguido pela água, com 8%, medicação e alimentos respectivamente com
7%, material de higiene e limpeza, ambos com 5%, e material de escritório, com 4%. Para
um hospital com o volume de trabalho do HC - no ano passado registrou 14.476
internações, realizou 14.502 cirurgias e 292.455 consultas -, controlar os recursos
materiais de suporte para o trabalho significa reduzir custos para a implantação de
outras atividades e incremento das já existentes.
Para Guiomar, uma das primeiras possibilidades abertas pelo
conhecimento da percepção dos empregados é trabalhar a questão do desperdício com
eles mesmos. "Pode-se ter um programa de educação continuada, orientando os
funcionários, principalmente os que estão ligados às atividades que envolvam materiais,
sobre o manuseio correto, à necessidade de não gastá-los em vão, explicar o que é uma
situação de desperdício, além de conscientizá-los dos custos do que é usado",
explica ela.
Na outra ponta, estão atividades relacionadas à adoção de normas
nacionais e internacionais de qualidade (famílias de ISO's do setor privado) e
acreditação hospitalar na área da saúde e à monitoração dos custos das falhas e de
sua prevenção. Segundo a economista, outra ação de utilidade é "implantar a
filosofia dos 5S em todos os serviços do hospital, como forma também de evitar
desperdícios". Criado no Japão, o 5S integra todo programa de qualidade total. As
cinco letras "S" se referem a "seiri" (senso de utilização -
eliminar o que é desnecessário), "seiton" (senso de organização),
"seiso" (senso de limpeza), "seiketsu" (senso de saúde/manutenção
da qualidade já atingida) e "shitsuke" (senso de autodisciplina).
Dentro dos conceitos de qualidade total, a perda ocorre a partir do
momento em que uma falha de processo pede que uma atividade seja realizada duas vezes, em
vez de uma, ocasionando utilização inadequada de recursos humanos, de tempo e de
dinheiro. "Todo gasto acima do devido, mesmo em busca da qualidade, que tem um custo,
estará praticando desperdício, daí um dos indicadores do custo de qualidade",
explica Guiomar.
As informações contidas na pesquisa já são utilizadas no HC.
"Foi dado início ao treinamento visando ao uso racional de materiais e equipamentos,
mediante projeto estabelecido pelo Serviço de Educação Continuada", salienta.
Segundo Guiomar, os resultados das áreas foram entregues para os respectivos diretores
para a implementação de medidas de redução dos desperdícios apontados no
levantamento.
As ações estabelecidas com base nos dados obtidos com os
questionários incluem também a revisão da administração de quotas e da adequação de
equipamentos terapêuticos em geral, e complementam, inclusive, os programas de
diminuição de gastos já adotados no HC. "O Programa de Redução de Custos sempre
existiu, só que, a partir de 1999, ele foi mais incisivo, com a apresentação de
relatórios sobre as áreas que mais consumiam, e que mereciam ser debatidas ou ter os
custos esclarecidos". Nesse mesmo ano, surgia também o Programa de Contenção de
Despesas.
As normas de qualidade adotadas pelos hospitais são emitidas pelo
Ministério da Saúde, que busca criar padrões de referência na prestação dos
serviços. O Manual Brasileiro de Acreditação Hospitalar divide em três os níveis de
ações para a qualificação dentro dos padrões. "O Manual avalia e verifica todos
os serviços de um hospital geral, sendo que o nível 1 corresponde à referência
básica, ou limite essencial de qualidade com o qual deve funcionar um serviço
hospitalar", explica Guiomar.
A partir do nível 2, o hospital reúne mais organização em
assistência, documentação, funcionários, treinamento e controle, além de trabalhar
com estatísticas e práticas de auditoria interna na tomada de decisões. O último
nível, alcançado só quando os anteriores forem satisfeitos, prevê políticas
contínuas de melhorias, oferecimento de tecnologias avançadas, além de ações
assistenciais. A instituição precisa, ainda, apresentar resultados de impacto de
programas de qualidade. Os conceitos para o hospital avaliado vão do
"não-acreditado" ao "acreditado com excelência".
Já os certificados da International Organization for Standardization,
mais conhecidos como ISO, fixam normas e padrões por área, o que torna a sua adoção
mais flexível que a proposta por outros sistemas de avaliação. Mas as regras seguem os
mesmos princípios, que são os de orientar a atividade entre cada departamento para que o
trabalho corra em sintonia. Nos Estados Unidos e Canadá, o método não é muito
difundido por causa da existência de programas locais que definem parâmetros, como a
Joint Commission on the Accreditation of Healthcare (JCAHO).
Um dos principais indicadores para o atestado de qualidade é a
ocupação de leitos existentes, sendo que segundo consta como norma geral, deve haver
pelo menos 20% de leitos disponíveis. Guiomar diz que o número dá flexibilidade para
que o hospital em geral, possa atender casos de urgência. "Se acontece um acidente
em alguma rodovia por perto, é preciso atender à demanda", afirma. Outros fatores
de qualidade estão relacionados à produção de exames ao nível da capacidade, taxa de
infecção hospitalar, número de cirurgias realizadas e dados de referência e
contra-referência, ou seja, quando o órgão de saúde precisa encaminhar pacientes, o
ideal é que existam condições para o atendimento, evitando o que, no jargão
hospitalar, é chamado de evitar ter demanda reprimida.
Para Guiomar, mais que um problema de planejamento e racionalização
do uso de materiais, o desperdício, e suas implicações na questão da qualidade, é uma
questão cultural. "Parece que não se aprende com os erros do passado, como no caso
do desperdício de água e energia, que tiveram vários agravantes no passado", diz.
O orientador da tese, o médico Reinaldo Wilson Vieira, que chefia o
Departamento de Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, enfatiza o
trabalho a ser feito com as pessoas. "A atenção deve ser voltada para o
investimento do capital humano nas suas formas de motivação, retribuição e formação,
constituindo-se no trinômio indivisível para a eficiência do sistema de saúde",
opina.
Embora as conseqüências da subutilização ou gasto em demasia de
materiais, que igualmente configuram perdas, sejam visíveis, em um primeiro momento, no
aumento do gasto para repô-los, Guiomar lembra que a questão influencia toda uma cadeia
de serviços e usuários. "Esse é um problema de todos", sentencia. (Fabiana
Vasconcelos) |