
Desperdício de alimentos "engorda"
prejuízo econômico do país
Brasília, 21 (Agência Brasil - ABr) - Os números da agricultura no
Brasil são grandiosos. A safra de arroz em 2000/2001 foi de 10.386 mil toneladas. A safra
de soja referente ao mesmo período respondeu pela produção de 37.218 mil toneladas do
grão, segundo dados do Ministério da Agricultura. Igualmente grandiosos também são os
números referentes as perdas. De acordo com a Embrapa, na colheita de soja de 1998/1999
era previsto um prejuízo de R$ 369 milhões, causado pelo desperdício na colheita
estimada, na época, em 22 milhões de sacas.
Mas também em milhões é mensurado o volume de pessoas que morrem
todos os anos em conseqüência da fome e da pobreza. São entre 13 e 18 milhões no
mundo, de acordo com o Unicrio, o Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil. O
desperdício na área de alimentação chega a níveis alarmantes e seus efeitos se tornam
ainda mais visíveis em uma sociedade com a população carente que tem o Brasil. Um
estudo feito em 1992 pela Secretaria de Abastecimento e Agricultura de São Paulo revelou
que a quantidade de alimentos que vai para o lixo corresponde a 1,4% do PIB.
Na Ceagesp, a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São
Paulo, que é o terceiro maior centro de comercialização de perecíveis do mundo (atrás
só dos de Paris e Nova York), cerca de 0,5% a 1% do que é comercializado diariamente
acaba no lixo. O economista da Ceagesp, Flávio Godas, reconhece que o número é baixo
percentualmente, mas não em termos de quantidade de alimentos, quando passa a significar
até 100 toneladas de produtos. Economicamente, a perda equivale a R$ 40 mil do fluxo
monetário diário, situado entre 4 e 5 milhões de reais.
As conseqüências são preços mais altos para consumidor, nos quais
estão embutidos os prejuízos a fim de compensar as perdas. "Os recursos utilizados
para a produção da parte que é perdida não geram riqueza para o país", diz Milza
Lana, pesquisadora da Embrapa Hortaliças, no Distrito Federal. Dados de uma pesquisa
realizada pelo órgão, juntamente com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão
Rural do Distrito Federal (Emater-DF) e a Fapesp, em 1998, mostraram que, do campo a
comercialização, as perdas de tomate chegaram a 14%, as de cenoura a 12% e a de
pimentão a 18%.
O estudo foi feito em quatro lojas de uma grande rede de supermercados
de Brasília. Segundo a economista da Embrapa Hortaliças, Nirlene Vilela, as 88 toneladas
mensais de tomate que não foram vendidas representaram prejuízo de R$ 67 mil, a perda
média de 14 toneladas de pimentão, R$ 17 mil. As 50 toneladas de cenoura perdidas, das
420 compradas, custaram R$ 24 mil ao caixa da empresa.
Para os produtores, o descarte de alimentos é vantajoso, uma vez que o
cultivo de hortaliças e grãos precisa ser aumentado para suprir a demanda do que foi
desperdiçado. No varejo, a diferença de lucro não chega a ser grande entre uma
situação de grande e pouco desperdício por uma questão de compensação: quando as
perdas são altas, os preços também sobem; quando diminuem, os preços acompanham a
redução, elevando as vendas. Já para o consumidor, de acordo com Nirlene, qualquer
nível de perda é prejudicial, visto que a disponibilidade de frutas e verduras se reduz.
No relatório de conclusão do estudo, os pesquisadores ressaltam
necessidade de interesse governamental com o fato. "A questão da redução das
perdas deveria ser motivo de grande preocupação por parte do governo, uma vez que causam
subutilização de recursos, ao alterar as quantidades e preços de equilíbrio, o que é
socialmente indesejável". Quanto maior são as perdas, mais elevados são os preços
do produto e isso limita o consumo, tornando o produto inacessível para a população de
baixa renda", alertam.
Apesar das desvantagens econômicas serem mais evidentes, Milza Lana
lembra os reflexos da questão na natureza. "Há um custo ambiental do qual
geralmente ninguém lembra", diz a pesquisadora. "Cada quilo de alimento jogado
fora implica a necessidade de produzir outro quilo para abastecer a população. Isso
significa mais degradação ambiental devido ao uso do solo, água e insumos para
produção agrícola", explica.
O descarte de alimentos acontece em todas as cadeias da produção e
está espalhado em diferentes graus, desde o cultivo agrícola à mesa do consumidor. Mas
é no varejo que o descarte é maior, segundo Nilza. "Muitas das perdas que ocorrem
nessa fase são resultado de problemas em fases anteriores, como ponto de colheita
inadequado", explica.
As causas do estrago dos alimentos vão desde a fragilidade dos
produtos agrícolas à cultura do desperdício. "Hortaliças e frutas são
perecíveis, portanto você sempre tem um nível de perda de cerca de 3% a 5% mesmo nos
países mais desenvolvidos", destaca Milza. Entre as empresas e centros de pesquisa,
não há discordância. Todos apontam o manuseio inadequado, embalagens inapropriadas e
falta de classificação e padronização dos produtos como os principais fatores de
favorecimento ao descarte de hortifrutícolas.
Apesar da identificação das fases e os fatores que concorrem para a
geração de desperdício, Milza cita problemas nem sempre lembrados à primeira vista.
"A questão não é tão simples. Países da Europa, Japão e parte dos EUA não têm
temperatura de 30°C à sombra, não têm, à exceção dos EUA, grandes distâncias para
transportar mercadoria, nem trabalhadores ganhando menos de 100 dólares por mês. Isso
tudo está implícito na questão das altas perdas de hortifruti no Brasil", analisa.
(Fabiana Vasconcelos) |