
Não será o gato o melhor amigo do homem?
Brasília, 23 (Agência Brasil - ABr) - Quem disse que o cachorro é o
melhor amigo do homem deve rever essa afirmação. Com a redução do tamanho das
residências e o ritmo acelerado de vida, os gatos, geralmente mais independentes e
higiênicos do que os cães, passaram a ser os melhores companheiros do homem moderno. De
acordo com estudo sobre a convivência entre humanos e animais domésticos realizado pelo
professor e pesquisador Carlos C. Alberts, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o
comportamento do gato com seu dono se assemelha às relações humanas contemporâneas, em
que o comprometimento com o outro é menos valorizado.
A flexibilidade comportamental do gato também o tornou o melhor amigo
do homem. Ele altera suas características comportamentais de acordo com as condições em
que vive. "Se o animal vive em um ambiente com baixa densidade populacional de gatos,
ele tenderá a ser um animal solitário, esquivo e até agressivo. Se vive em um local com
alta densidade de gatos, tenderá a ser sociável, dócil. Se, por outro lado, vive com o
homem, adapta-se facilmente ao esquema de vida deste, tornando-se sociável, ou não,
dependendo dos estímulos que recebe em momentos específicos de sua vida", ilustra o
professor.
Gracioso em seus movimentos e notado por sua inteligência, o gato é,
hoje, um dos animais de estimação mais queridos do mundo. Em alguns países, é mais
admirado do que o cachorro. Estima-se que nos Estados Unidos e na Europa se criem mais
gatos do que cães, em uma proporção de 15 a 45 gatos para cada ser humano, incluindo os
ferais - gatos de áreas rurais e urbanas sem donos fixos.
Mas não é apenas a sociedade urbana atual que se identifica e se
rende aos encantos dos carnívoros mais numerosos do mundo. Esses felinos se tornaram
objeto de apreciação e conquistaram o afeto de célebres poetas e escritores, como
Charles Baudelaire, Bernard Shaw, Mark Twain e Victor Hugo, e de civilizações antigas,
como a egípcia, fenícia e romana, em razão da sua habilidade de caçar ratos. No
século XI, por exemplo, esses felinos foram a arma mais eficaz contra os roedores
transmissores da peste bubônica.
Aparentemente, a domesticação dos felinos ainda está em curso, mas
segundo Alberts, pode-se dizer que o processo começou há cerca de seis mil anos, no
Egito Antigo, onde os gatos eram adorados como divindades. A deusa Bast, por exemplo, que
representava o Sol e significava fertilidade, era retratada com a cabeça de um gato.
"Quando os gatos morriam, eram mumificados e seus donos raspavam as sobrancelhas em
sinal de luto", explica Alberts. Estátuas, desenhos e pinturas em tumbas revelam que
os gatos da raça Abissínio - com pelo curto, corpo esguio e pernas longas - são os mais
semelhantes aos daquela época.
Muitos pesquisadores consideram o gato domesticado egípcio o ancestral
da maioria das raças conhecidas atualmente. Segundo o pesquisador da Unesp, embora fosse
proibida a saída dos gatos do Egito, os fenícios e os romanos levaram o felino
domesticado para a Europa. Depois de dominar o Egito e adotar o culto à deusa Bast, a
civilização romana passou a considerar o gato símbolo de liberdade, transformando-o em
mascote dos exércitos que invadiram países como a Inglaterra. "Os gatos ingleses
são, portanto, descendentes dos egípcios e de gatos selvagens locais que foram
domesticados, o que é regra em diversos países", acentua Alberts. Há, no entanto,
exceções como o Brasil, onde os gatos domésticos descendem somente daqueles trazidos
pelos colonizadores europeus, o que significa que o gato brasileiro tem como ancestral o
egípcio.
Na Idade Média, os gatos deixaram de ser admirados e passaram a sofrer
perseguição da Igreja Católica. "Para acabar com a resistência dos celtas ao
catolicismo, a Igreja pregou que os sacerdotes druidas eram bruxos. Como viviam isolados,
mas rodeados de gatos, estes foram associados ao demônio e à má sorte", conta o
professor. Os gatos, principalmente os pretos, eram perseguidos, capturados e jogados à
fogueira, o que ocorreu também entre os povos germânicos, adoradores da deusa Freya,
considerada uma divindade pagã. O culto a Freya foi considerado heresia e associado à
adoração de maus espíritos. "Imagens da deusa foram destruídas, mulheres que
tinham gatos eram queimadas e os animais, enforcados."
Essa perseguição alimentou uma série de superstições que perduram
até hoje, como a crença de que cruzar com gato preto dá azar (azar, não, má sorte!).
A organização não-governamental dos EUA de proteção a animais The Humane Society of
the United States veiculou em seu site uma série de medidas preventivas a serem tomadas
por criadores de animais domésticos, no dia 31 de outubro, data na qual os
norte-americanos tradicionalmente comemoram o Dia das Bruxas. Aos donos de gatos pretos, a
recomendação era: "Não deixe seu gato solto durante as comemorações do
Halloween, em especial gatos pretos, que podem ser vítimas de brincadeiras nocivas."
(Julia Segatto) |