Cemitérios podem contaminar lençóis freáticos

 

Brasília, 23 (Agência Brasil - ABr) - Grandes indústrias são as primeiras imagens que vêm à cabeça quando se pensa em fontes de impacto ambiental. Mas os cemitérios, que à primeira vista não oferecem riscos, também podem causar danos à natureza e à saúde da população. Foi o que demonstrou um estudo sobre contaminação de águas subterrâneas por necrópoles realizado pelo engenheiro civil e doutor em Hidrogeologia, Bolivar Matos.

A tese, defendida em maio na Universidade de São Paulo, avaliou a ocorrência e o transporte de microorganismos no lençol freático existente sob o Cemitério Vila Nova Cachoeirinha, o segundo maior de São Paulo. O fenômeno ocorre quando os microorganismos encontrados nos corpos em decomposição chegam aos mananciais, em conseqüência da passagem de água.

Depois da morte, a água existente no corpo humano, que representa 70% de todo ele, se transforma em uma substância escura chamada necro-chorume. Esse líquido, rico em sais minerais, bactérias e vírus, pode se tornar uma potencial fonte de doenças gastrintestinais, principalmente diarréia, se for lançado no lençol freático.

Matos explica que a contaminação das fontes pode se dar de duas formas: pela chuva e pelo contato de um manancial com caixões enterrados diretamente no solo (inumação), que não estão envolvidos por paredes de concreto. Altos índices pluviométricos favorecem a invasão das urnas pela água, causando a percolação (transporte vertical do líquido pelo terreno) até o lençol mais próximo. A quantidade de chuva pode também elevar o nível das águas subterrâneas, fazendo com que alcancem altura suficiente para atingir os corpos.

A possibilidade de contaminação se relaciona, além das chuvas, ao tipo de solo no qual está o cemitério. Terrenos arenosos, que são porosos, facilitam a passagem da água, fazendo que com o necro-chorume chegue mais facilmente ao lençol freático. "O solo argiloso tende a manter a umidade. Se a lente (porção do material) estiver embaixo da sepultura, ela favorece a saponificação (processo de conservação por água, que deixa o organismo com aspecto de cera) do corpo", explica o engenheiro.

Segundo Matos, foi detectado que, com 40% de argila no terreno do cemitério estudado, as bactérias eram transportadas por metros e os vírus, por serem menores, por dezenas de metros. Para que os microorganismos não atinjam a fonte, o ideal é que o solo seja do tipo intermediário e o aqüífero, profundo. Embora a qualidade do material que forme a crosta influa na contaminação, o pesquisador diz que em qualquer tipo de solo há a possibilidade de ocorrência do problema. "Existe a dependência também de vários fatores como precipitação, tipo de sepultamento, profundidade do nível freático, entre outros", ressalta.

Para determinar a rigidez do terreno são feitas sondagens elétricas, que utilizam dois eletrodos, dispostos entre a linha em que se pretende verificar o tipo de material que compõe o local. Matos explica que a resistividade elétrica do terreno será determinada de acordo com a rapidez com que a corrente gerada pela descarga atravesse as camadas. "Quanto mais sólido, maior a velocidade de propagação", diz o pesquisador. Através do teste é possível descobrir a que profundidades estão o embasamento (rocha ou granito sob o qual estão as águas subterrâneas) e o aqüífero.

Outro meio de avaliação dos solos é feita pelos caminhamentos eletromagnéticos, utilizados para detectar a condutividade elétrica na área. Segundo o engenheiro, a velocidade da passagem de energia elétrica é proporcional ao tamanho da contaminação por necro-chorume. "O líquido é rico em sais minerais, que conduzem eletricidade", afirma.

O pesquisador considera essencial a realização de uma análise cuidadosa das características geofísicas antes de destinar uma área para necrópoles, de modo a evitar o depósito de patógenos nas fontes. "É importante que seja feito um estudo pré-característico de solo, de permeabilidade e de nível freático", destaca o pesquisador. Além das recomendações, o pesquisador sugere o uso da tumulação, que é a cova revestida por muros de tijolo e cimento, em lugar da inumação, ou seja, o enterro do caixão direto no local.

De acordo com o pesquisador, ainda não existem normas nacionais de regulamentação sanitária que abordem as características geofísicas dos locais reservados a cemitérios. As poucas iniciativas existentes estão em São Paulo e no Paraná. "Em 1999, a Companhia Técnica de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo lançou uma norma técnica que exige a caracterização de área e estudos hidrogeológicos de profundidade dos níveis freáticos. No Paraná, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente criou um termo de referência", diz. (Fabiana Vasconcelos)

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