Brasília, 15 (Agência Brasil - ABr) - Escuridão permanente e
escassez de alimentos estão na base das transformações que diferenciaram os peixes de
caverna de seus parentes de fora. Descobrir como essas mudanças ocorrem e a partir de que
ponto configuram uma nova espécie foi o desafio de uma equipe do Instituto de
Biociências (IB) da Universidade de São Paulo (USP) coordenada por Eleonora Trajano, que
pesquisou cavernas de Goiás. O trabalho, que ajuda a entender o papel do ambiente na
formação de novas espécies, já rendeu frutos em outros locais: graças a ele, os
bagres cergos do Vale do Ribeira, em São Paulo, foram declarados ameaçados de extinção
e o Poço Encantado da Chapada Diamantina, Bahia, foi interditado para mergulhos.
O cenário da pesquisa é o Parque Estadual de Terra Ronca, no
município de São Domingos, nordeste de Goiás, na região do Alto Tocantins. Ali a água
esculpiu na rocha calcárea cerca de 30 cavernas, pelo menos cinco delas com mais de 5
quilômetros de extensão. A área reúne a mais rica fauna de peixes troglóbios (de
cavernas) do Brasil: das 14 espécies registradas no país, cinco se encontram nessa
região. Existem no parque cavernas secas, algumas com pinturas rupestres, mas as que mais
interessam à equipe da USP são aquelas atravessadas por rios, como a Angélica, a
Bezerra, a Passa Três e a São Vicente.
"Nossa luta é pela preservação desse santuário goiano",
enfatiza Eleonora. O Parque Estadual de Terra Ronca foi tombado pela Unesco como
Patrimônio da Humanidade, a área está em desapropriação e demarcação, mas, devido
à falta de recursos para a aquisição de terras, as nascentes dos rios ficaram fora do
espaço delimitado. "Se as nascentes forem comprometidas por desmatamento, queimadas
e poluição, toda a vida no local estará ameaçada", alerta a bióloga.
O estudo inclui o levantamento da biodiversidade das cavernas e
arredores, e a caracterização das espécies - não só de peixes. O grupo investiga a
biologia molecular, a morfologia, a ecologia e o comportamento dos animais. "Muitas
vezes", observa a pesquisadora, "a biologia molecular nos diz que dois animais
pertencem à mesma espécie, enquanto as análises morfológica e comportamental indicam,
com clareza, que se trata de espécies diferentes". Ao ser caracterizado, um peixe é
comparado a parentes próximos que vivem fora das cavernas e a espécies de caverna não
aparentadas, habitantes de outras regiões. O método permite distinguir características
comuns a espécies não aparentadas, que apresentam respostas convergentes ao mesmo
ambiente - no caso, o meio subterrâneo.
Segundo os pesquisadores, ao se interromper a troca de genes entre as
populações de peixes cavernícolas e aquelas do mundo exterior (chamadas epígeas), as
sucessivas gerações de caverna sofrem uma progressiva redução do aparato visual e da
pigmentação escura (melânica). Pode ocorrer também uma diminuição no tamanho
corporal e modificações comportamentais, como perda da fotofobia, dos ritmos circadianos
(diários) de atividade e do hábito de se esconder. Outras modificações notáveis nos
peixes estudados são o afilamento do focinho e a redução do tamanho relativo da
cabeça.
Tudo resulta de mutações genéticas que, sob as condições
específicas das cavernas, não são eliminadas por seleção natural como seria normal.
Em ambiente iluminado, um peixe que nascesse cego, por exemplo, teria poucas chances de
sobreviver. Essas mutações afetam caracteres como olhos, pigmentação e ritmicidade
circadiana, que perdem a função no ambiente permanentemente escuro das cavernas e podem
regredir após muitas gerações em isolamento nesse hábitat. Explica Elonora que outros
caracteres, como os envolvidos na obtenção de alimento, geralmente escasso em cavernas
devido à ausência das plantas, "são selecionados positivamente, resultando em
maior eficiência na localização, captura e aproveitamento desse alimento". Num
estágio das mudanças, o acúmulo de características divergentes define uma nova
espécie, exclusivamente subterrânea ou troglóbia.
Mas há formas fronteiriças cuja conceituação é um desafio. Maria
Elina Bichuette, integrante da equipe, conta: "Existem populações troglóbias
totalmente cegas e despigmentadas. Outras apresentam esses traços de maneira apenas
parcial. São casos nos quais a regressão ainda não se completou".
Há situações limítrofes nos quais a regressão parece estar em fase
tão inicial que fica difícil distinguir completamente os peixes de caverna dos do
exterior. É o que ocorre com o peixe elétrico Eigenmannia vicentespelaea, da
mesma ordem do poraquê, mas cujas descargas não são fortes. Sua classificação como
espécie gera dúvidas. Não se observam diferenças morfológicas acentuadas entre a
espécie subterrânea e as parentes do ambiente epígico. Os pesquisadores observaram na
espécie cavernicola não só exemplares com olhos bem reduzidos e despigmentados, como
também indivíduos com pigmentação cutânea e olhos bem desenvolvidos. Essas espécies
duvidosas são o maior quebra-cabeça que já encontraram.
Os peixes são vistos em várias situações. Alguns habitam cavernas
que se tornaram iluminadas em função de desmoronamentos, mas são totalmente cegos e
despigmentados - prova de que sua diferenciação ocorreu antes da abertura desses amplos
contatos da caverna com o exterior. Outros habitam cavernas escuras, mas estão apenas
começando a se diferenciar. Pode ser um sinal de que colonizaram o local há pouco tempo,
mas nem sempre. "Pode ocorrer de o animal habitar a caverna há muito tempo, mas seu
isolamento genético ser fato recente", diz Elonora. "Só quando deixam de
trocar genes com seus parentes epígeos é que os troglóbios começam a se
diferenciar". A perda da visão, por exemplo, progride ao longo de quatro etapas:
diminuição do tamanho dos olhos, com preservação das estruturas; desorganização do
cristalino e de estruturas associadas; desorganização da retina e atrofia do nervo
óptico.
"Encontramos bagrinhos troglóbios, da família Trichomycteridae,
com olhos relativamente desenvolvidos", relata Maria Elina. "Pelo exame
macroscópico, acreditamos que se encontrem entre a primeira e a segunda etapa". A
redução dos olhos, no entanto, só tende a progredir, porque, segundo ela, não existe
uma população externa capaz de contribuir com genes associados ao desenvolvimento da
visão.
Se nesse caso é fácil entender a dinâmica da diferenciação, o
mesmo não se pode dizer do cascudo Ancistrus cryptophthalmus, que tem
possibilidade de contato com populações externas e, no entanto, está divergindo. É um
mistério. "Talvez estejamos diante de um caso raro de especiação parapátrica (sem
isolamento)", comenta Maria Elina. "A especiação por isolamento, chamada
alopátrica, explica as características da maioria das populações brasileiras, mas não
de todas".
A especiação alopátrica segue um roteiro conhecido. Inicialmente,
haveria uma única espécie ocorrendo tanto dentro como fora da caverna. Então, uma
mudança climática poderia eliminar a população externa. Protegida, a população da
caverna se preserva mas, sem a população externa, deixa de haver troca de genes. Então,
as mutações vão diferenciando esses peixes, que acabam por formar uma outra espécie.
"Com base nesse modelo", diz Elonora, "seria de se
esperar que houvesse mais espécies troglóbias em regiões que sofreram muitas
modificações paleoclimáticas do que em regiões que sofreram poucas". As cavernas
de São Domingos confiram essa expectativa para a fauna de invertebrados terrestres, mas a
desmentem para os peixes. A região passou por alterações paleoclimáticas pouco
acentuadas e, no entanto, ali são encontradas cinco espécies de peixes troglóbios, mais
do que em qualquer outra área cárstica - formada por rochas solúveis onde se
desenvolvem cavernas - do Brasil. O problema é que o modelo alopátrico é insuficiente
para explicar essa situação. De qualquer modo, diz a bióloga, "as exceções são
importantíssimas para o desenvolvimento dos modelos, porque lhes conferem balizas. Quanto
mais delimitado um modelo, maior sua capacidade de predição".
Para destinguir espécies, a equipe usou a morfometria geométrica.
Gravou imagens digitalizadas dos animais por um sistema de vídeo acoplado a um computador
e, depois, aplicou sobre elas uma grade cartesiana, cuja deformação indica como e quanto
a figura estudada diverge de uma forma padrão. O método foi aplicado ao estudo de quatro
populações do cascudo Ancistrus cryptophthalmus das cavernas, comparadas à
população epígea de Ancistrus na região.
Um gráfico desse levantamento mostra a transformação gradual, da
população epígea para a das cavernas. "Partindo-se do princípio de que a espécie
epígea hoje encontrada na região é uma forma pouco modificada do ancestral das
populações troglóbias, pode-se concluir que, a partir de um ancestral de cabeça grande
e corpo curto, focinho largo e olhos grandes, originaram-se populações que gradualmente
sofreram redução dos olhos e da pigmentação, afilamento da cabeça e aumento relativo
do corpo", resume Eleonora.