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16/10/98A cesta básica e o Plano Real
Elias José Simon (*)
A estabilidade econômica tem sido buscada de todas as formas pelos
países do mundo. Assim, têm sido implementados os mais variados tipos de planos
econômicos como ocorreu no Brasil, Argentina, México, etc. No Brasil, apenas em 9 anos
(1986 a 1995), foram implantados pelo menos cinco planos de estabilização. O último
plano, o Plano real, que já completou quatro anos, será objeto de algumas reflexões
neste artigo.
A fase do plano que criou a URV como
indexador, deveria servir para um ajuste e equilíbrio dos preços preparando o sistema
para a mudança da moeda, passando do Cruzeiro Real para Real. Nesta passagem, os preços
deveriam ficar alinhados em razão do atrelamento à URV, para que a partir daí os mesmos
pudessem ser estabelecidos.
Diferentemente do Planos Cruzado, o Plano
Real concedeu determinado tempo para um ajustamento "a priori" dos preços. Mas,
afora isto, não contemplou políticas econômicas e sociais que melhorassem as
condições de vida da popualçao: é um plano que criou um indexador e mudou a moeda.
Outro ponto a se destacar, é que os
formuladores de Políticas e/ou Planos Econômicos, têm que equacionar as variações da
economia, que em determinado momento podem atuar em sentido oposto ao do plano. Por
exemplo, tem que se levar em conta as expectativas dos agentes econômicos que às
vésperas de qualquer plano praticam aumentos abusivos dos preços: nada foi feito em
relação a isto. Deve-se destacar também que nada foi feito em relação aos aumentos
ocorridos em fevereiro de 94, antes da implantação da URV. Nem mesmo se viu qualquer
atitude que procurasse evitar a elevação que os preços tiveram nos meses de junho/julho
de 94 em função da expectativa da entrada da nova moeda.
Para reforçar os argumentos é importante
apresentar alguns números relativos aos custos da Cesta Básica em Botucatu (SP) e na
cidade de São Paulo, que foram calculados a partir da metodologia de pesquisa elaborada
pelo PROCON/DIEESE.
Os resultados mostraram que até outubro de
1993 (época em que o plano foi anunciado), a cesta básica custava cerca de 91 URVs em
Botucatu e 82 URVs em São paulo. Em razão dos aumentos ocorridos tanto na fase da URV
como na fase da implantação do Real, verificou-se que a cesta básica atingiu em julho
de 1994 (quando mudou a moeda para o Real), os valores de R$ 111,10, em Botucatu, e R$
102,83, em São Paulo, representando, em relação à outubro de 1993, aumentos reais de
22,1% e 25,4% em Botucatu e São Paulo, respectivamente. Em julho de 1995, um ano após a
implementação do plano, estes custos foram de R$ 115,55, em Botucatu, e de R$ 103,88, em
São Paulo, significando que a partir do Plano Real a cesta básica não aumentou
consideravelmente. Mas, em relação a outubro de 1993, sem se considerar os meses
intermediários, os aumentos foram da ordem de 27%, em Botucatu, e 26,7%, em São Paulo.
A partir de setembro de 1995, a cesta
básica, tanto em Botucatu como em São Paulo passou a ter elevações sistemáticas,
atingindo, em dezembro, valores de R$ 122,74 e R$ 109,88 nas duas cidades,
respectivamente. Com isso, verifica-se que em relação a julho de 94, os números foram
de 10,5%, em Botucatu, e 6,9%, em São Paulo, o que significa uma mudança de patamar dos
preços em um ano e meio de Plano Real. Consequentemente, em relação a outubro de 1993,
a cesta básica ficou cerca de 34,0% mais cara nas duas cidades.
Em julho de 1996, a cesta básica passou a
custar R$ 127,60, em Botucatu, e R$ 110,54, em São Paulo. Isto significa que as cestas
ficaram cerca de 14,8% e 7,5% mais caras em Botucatu e em São Paulo, relativamente a
julho de 1994. Verificou-se também que os custos da cesta básica tanto em Botucatu como
em São Paulo, foram cerca de 40,2% e 34,8% maiores, respectivamente, quando se toma como
referência o mês de outubro de 1993.
Do mês de julho de 96 a julho de 97 a
cesta básica apresentou em Botucatu valores acima de R$ 125,00 (exceto em janeiro e
fevereiro de 97), sendo que em São paulo os valores ficaram acima de R$ 107,00.
A partir de dezembro de 1997, os valores
tanto em Botucatu como de São Paulo, passaram a crescer sistematicamente, atingindo em
maio de 98, R$ 142,49 e R$ 127,87, respectivamente. Portanto, em relação a outubro de
93, os custos da cesta básica ficaram 56,6% e 55,9% maiores em Botucatu e em São Paulo.
Se considerarmos apenas o período do Plano Real, estes aumentos foram de 28,2%, em
Botucatu, e 24,3%, em São Paulo.
De maio de 98 a agosto de 98 há uma
tendência de queda nos preços da cesta básica, chegando a R$ 137,04, em Botucatu, e R$
120,27, em São Paulo. Mesmo assim, estes valores continuam bastante superiores aos de
outubro de 93 (50,6% e 446,17%, respectivamente) e maiores em 23,3%, em Botucatu, e 17,0%,
em São Paulo, em relação a julho de 94.
Pode-se concluir, portanto, que o fato do
plano não estar contemplando propostas distributivas em termos sociais, ainda faz
persistir apenas uma situação de estabilidade monetária, mas com o agravante de que a
população está pagando cerca de 50% a mais pela mesma cesta básica em agosto de 98,
comparativamente a outubro de 1993. Ou seja, a não existência efetiva de propostas
sociais pode ter agravado o grau de pobreza e miséria em que se encontrava grande parte
da população brasileira.
(*) Elias José Simon é diretor e pesquisador
da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual
de São Paulo (Unesp) - www.fca.unesp.br |