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09/07/99Técnica, Tecnologia e Ciência (I)
(*) Milton Vargas
A Tecnologia chegou, em nossos tempos, especialmente depois da
globalização, a adquirir enorme importância - não só para os indivíduos mas,
também, para a nações e para a sociedade em geral - levantando problemas econômicos,
políticos, sociais e mesmo culturais. Torna-se, portanto, necessário indagar sobre a
própria essência do que é Tecnologia. Isto é, urge meditar filosoficamente sobre o
significado e o sentido do que se chama Tecnologia.
Grandes filósofos já vinham, desde o
início do século, preocupando-se com a Técnica. Oswald Spengler, o festejado autor do
best-seller filosófico dos anos trinta, "A Decadência do Ocidente", tratou do
assunto no seu "O Homem e a Técnica". Nesse ensaio o homem é visto como animal
de rapina, usando a Técnica como sua arma. Depois disso, Ortega y Gasset publicou, em
jornal argentino - se não me engano, "La Nacion" - uma série de artigos que
vieram a anfeixar o volume "Meditacion de la Técnica", editado pela Revista do
Ocidente, em 1939. Esse interesse filosófico chegou a motivar as meditações de um dos
maiores filósofos deste século, Martin Heidegger, em seu ensaio, "A Questão da
Técnica", cujo original alemão apareceu em 1953. Contudo, talvez com exceção
desse último, não creio que eles estivessem conscientes que o interesse maior não mais
estava no estudo da Técnica, mas, sim, no da Tecnologia. Isto é, de que as atividades
técnicas não eram mais resumíveis ao trabalho manual ou mecânico sobre materiais ou
construção de obras. De que, entre os técnicos dos nossos tempos, haviam os
tecnologistas, formados em escolas superiores, que aplicavam teorias, métodos e processos
científicos para a solução de problemas técnicos. Isso veio trazer uma simbiose entre
Técnica e Ciência cujos efeitos estavam longe de ser previstos, como determinantes dos
destinos da humanidade.
A Técnica é tão antiga quanto a
humanidade. Há mesmo a idéia, entre antropólogos, de que o que distinguiria os restos
fossilizados de um homem dos de um hominídeo seria a presença, junto ao primeiro, de
instrumentos por ele fabricados. Contudo, há a opinião de Levi-Strauss de que os índios
Nhambiquaras eram tão primitivos que nem mesmo possuíam Técnica - o que, curiosamente,
é desmentido no seu próprio livro "Tristes Tropiques", suscitando a idéia de
que por mais primitiva que seja a sociedade sempre há Técnica, por mais simples que
seja. Ortega y Gasset chama a esse estágio primitivo da Técnica de "técnica do
acaso (azar)", suposto que, nesse estágio, a fabricação dos instrumentos não se
diferenciava muito dos seus atos naturais. Assim sendo, os atos técnicos não seriam
privativos de certos indivíduos mais aptos, mas igualmente efetuados por todos de uma
mesma comunidade.
Contudo, é de acrescentar a Ortega que o
pensamento humano é simbólico; ou seja, sempre interpõe entre os objetos percebidos e a
mente um símbolo, dos quais os mais imediatos são as palavras da linguagem. Essas têm a
propriedade de se conotarem entre si, no sentido de sugerirem ao homem um progresso nos
seus conhecimentos. Entre pedra lascada e cortar há, por exemplo, uma conotação que
permite a melhoria do instrumento; isto é, poli-lo para cortar melhor. Assim, uma vez
obtido, por acaso, um instrumento, instala-se - a princípio muito lentamente - um
processo de desenvolvimento técnico.
Foi isso que permitiu a Ortega e Gasset
conceber um segundo estágio da Técnica; que ele chama de "técnica do
artesanato", em que os atos técnicos são ensinados de geração a geração,
incluindo a invenção e o aperfeiçoamento dos instrumentos. É nesse estágio que
aparecem certos homens dotados de maior habilidade e que se encarregam das funções
técnicas, dedicando a eles a sua vida. São os artesãos, com seus mestres e aprendizes.
O aprendizado progride até o ponto de escreverem-se tratados para o ensino das técnicas
às gerações futuras.
Com o advento da ciência moderna, no
século 17, abriu-se a possibilidade da aplicação de conhecimentos científicos para
resolver problemas técnicos. É o caso da máquina a vapor e, mais especificamente, do
gerador e do motor elétrico. Surge, então, um terceiro estágio da técnica, ao qual
Ortega y Gasset dá o nome de "técnica dos técnicos". Nela é que se dá o
trânsito da mera ferramenta do artesão para a máquina que atua por si mesmo. O homem
passa a ser um auxiliar da máquina, como operário, mas surge aquele que sabe projetar,
construir e conservar as máquinas, o engenheiro, cujos métodos de ação são muito
próximos dos métodos dos cientistas: analisa o problema a ser resolvido, dividindo-o em
partes; e o resolve a partir da mais simples, experimentando os resultados parciais e
concatenando-os em séries de causas e efeitos.
Ortega não viu, entretanto, que, em seu
próprio tempo, já vinha surgindo uma radicalmente nova etapa de desenvolvimento
técnico, isto é, a Tecnologia. Não se tratava mais de aplicar conhecimentos
científicos para construir uma determinada obra ou fabricar um determinado produto, como
o fazem a engenharia, a arquitetura, a indústria ou a agropecuária, mas, sim, de
resolver problemas técnicos de uma forma generalizada, como faz a Ciência, com suas
teorias. Pode-se dizer, por exemplo, que o surgimento de uma tal atividade tecnológica
deu-se com as pesquisas de Edison, em seu laboratório de Menlo Park, para obter um metal
que servisse para os filamentos de lâmpadas elétricas, que pudesse emitir luz,
encandecendo sem, porém, fundir-se. Um outro exemplo é a descoberta das válvulas
termoiônicas por John Ambrose Fleming, físico inglês, e Lee e De Forest, PhD pela
Universidade de Yale, para seu uso na transmissão e recepção radiofônica. Assim, a
pesquisa de propriedades de materiais e o desenvolvimento da eletrônica estão na origem
dessa atual etapa da técnica: a Tecnologia, a qual não prescinde da pesquisa
tecnológica. Não há Tecnologia se não houver pesquisa tecnológica. E essa é muito
semelhante à pesquisa científica.
(*) Professor emérito da Escola Politécnica (Poli), da
Universidade de São Paulo (USP) e diretor da Thaemag Engenharia.
Este artigo já foi publicado pela revista da
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) |