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Publicado em 31/03/00

 

Como acessar a Internet em alta velocidade utilizando a rede telefônica convencional

Paulo Roberto Bueno Monteiro (*)

 

Os usuários da Internet que utilizam suas linhas telefônicas para transmissão e recepção de informações, se defrontam diariamente com a lentidão de troca de dados com o provedor, devido principalmente às limitações da rede telefônica. Esta não foi projetada para transmissão de dados em alta velocidade como a Internet exige e aceita uma taxa de transmissão de bits de no máximo 56kbps (quilobits por segundo), que se consegue quando são utilizados os modems de 56k. Mesmo assim, nem sempre se consegue esta velocidade. Tudo depende da qualidade da linha que está sendo utilizada, do caminho percorrido pelo sinal da residência do usuário até o provedor e vice versa, do tipo da central telefônica associada ao telefone do usuário (se analógica ou digital), pois caso contrário se consegue no máximo 33,6kbps (que é a velocidade dos modems de 33,6k).

Para complicar ainda mais a situação, a linha telefônica permanece ocupada durante a utilização da Internet pelo usuário, impedindo que este possa receber ou efetuar chamadas utilizando seu aparelho telefônico.

Diversas soluções foram propostas para contornar esses problemas, como a troca da rede telefônica convencional (e de seus pares de fios trançados) por sistemas de Tv a cabo (com seus cabos coaxiais), ou a instalação de uma rede de cabos de fibra óptica interligando os usuários da Internet. Porém, estas soluções implicam em custos elevados e em longo tempo de espera para implantação. Desta forma, seria mais adequado tentar contornar os problemas apresentados pela rede telefônica convencional, de forma a se aproveitar toda a infra-estrutura existente com um acréscimo mínimo nos custos. Felizmente a solução já existe e se chama ADSL.

A ADSL é uma técnica de codificação de sinais (hoje um padrão mundial) surgida nos anos 90, que possibilita a transmissão de dados em alta velocidade pela linha telefônica convencional (o par de fios trançados que conecta o usuário à central telefônica). Inicialmente, esta técnica foi utilizada para transmitir sinais de vídeo em linhas telefônicas. Este tipo de transmissão era realizado da central telefônica para o usuário de forma que a comunicação central/usuário mais se assemelhava a uma comunicação de uma só via. Devido a isto, reservou-se um maior número de canais ou faixas de freqüências para o sinal codificado transmitido da central telefônica para o usuário, de forma a se conseguir uma velocidade de até 6 milhões de bits por segundo e consequentemente reservou-se um menor número de canais para o sinal codificado transmitido em sentido contrário, chegando-se a uma velocidade de até 0,6 milhões de bits por segundo. Devido a assimetria na transmissão/recepção dos dados, esta técnica recebeu o nome de "linha de assinante digital assimétrica", ou em inglês "Asymmetric Digital Subscriber line", ou ADSL.

Porém, existe uma limitação ao uso dessa técnica. Para se transmitir sinais correspondentes a velocidade de até 1,5 Mbps (um milhão e meio de bits por segundo ou cerca de 50 vezes a velocidades dos modems de 33,6kbps) é necessário que a distância entre o usuário e a central telefônica seja no máximo 5 kms (em alguns casos se consegue até 6 kms, dependendo da qualidade da linha). A razão é que um dos fatores que limitam a faixa de freqüências e a intensidade do sinal transmitido, é a atenuação introduzida pelo canal de comunicação (no caso a linha telefônica) naquele sinal, à medida em que ele viaja pela linha. Os sinais de alta frequência são os mais afetados. Portanto, uma forma de se obter maior capacidade de comunicação, é por meio da redução do comprimento das linhas (no caso, redução da distância entre o assinante e a central telefônica). É evidente que se o assinante estiver situado a uma distância superior àquele valor (5 ou 6 kms), ele terá que se contentar com uma velocidade de comunicação menor. O oposto também é verdade.

Com a tecnologia ADSL, os dados transmitidos ou recebidos pelo usuário não interferem no canal de voz (aquele que utilizamos para falar com outras pessoas) porque utilizam canais independentes, situados acima da faixa de freqüências de voz (note que quando falamos em canais independentes, estamos nos referindo às faixas de freqüência dos sinais correspondentes aos dados que trafegam pelo mesmo canal de comunicação, ou seja a linha telefônica).

Na comunicação ADSL, as informações ou dados da Internet são encaminhadas (pelo provedor) por cabos de fibra óptica até a central telefônica. Na central, um equipamento chamado multiplexador combina os sinais da Internet com o sinal de voz proveniente de uma chave comutadora regular de voz da central (a chave comutadora de voz faz a conexão entre dois assinantes, habilitando a comunicação de voz entre eles). Os sinais de voz e Internet combinados, são então enviados através da linha telefônica até o usuário final (note que a tecnologia ADSL é muito mais rápida porque ela não utiliza o equipamento de chaveamento regular de voz existente na central telefônica para comunicação com a Internet). Um modem ADSL, na residência do usuário, transfere os dados recebidos (Internet) ao seu computador e o sinal de voz ao aparelho telefônico, por meio de um divisor de sinais ("splitter"), o qual faz a distribuição dos dois tipos de sinal. Desta forma, o usuário fica conectado de maneira permanente à Internet (24 horas) e ainda tem seu aparelho telefônico liberado para uso. As prestadoras de serviço de telefonia costumam cobrar um valor fixo mensal por esta conexão permanente independente do tempo de uso. Apenas com relação ao canal de voz, ou seja, com relação às chamadas via aparelho telefônico é que são cobradas as tarifas telefônicas normais. O usuário também tem que se associar a um provedor de comunicação com a Internet (e pagar a sua mensalidade) que seja associado a uma prestadora de serviços de telefonia que ofereça a comunicação ADSL e é claro, adquirir o modem ADSL (custo aproximado de R$ 200,00 em março de 2000).

Já no ano de 1998 a tecnologia ADSL passou a ser utilizada em grande escala em redes telefônicas dos Estados Unidos, e espera-se que ainda este ano (2000), atinja um número de usuários superior àqueles que acessam a Internet via cabo.

No Brasil, mas particularmente no estado de São Paulo, a tecnologia ADSL é oferecida aos usuários da Internet nas velocidades de 256 kbps, 512 kbps e 2Mbps no sentido da central telefônica para o usuário ("downstream") e respectivamente 128, 128 e 300 Kbps no sentido contrário ("upstream").

Quanto a comparação com os sistemas que utilizam as redes de TV a cabo para comunicação com a Internet, a comunicação ADSL oferece algumas vantagens:

Na comunicação ADSL há maior privacidade, porque o sinal que trafega na linha telefônica não é compartilhado com outros usuários como é o caso da TV a cabo, uma vez que no caso da ADSL existe uma linha só do usuário para conexão com a central telefônica (ao contrário do cabo comum da TV a cabo).

Os sistemas de TV a cabo implantados no Brasil até o presente momento (ano 2000) são unidirecionais (embora isto esteja mudando), ou seja, os sinais de TV são enviados da operadora para o assinante. Não existe comunicação do assinante para a operadora. Caso estes sistemas sejam utilizados para comunicação com a Internet, o tráfego de volta (do usuário para a operadora) precisa ser feito via rede telefônica o que reduz drasticamente a velocidade de comunicação neste sentido.

Outro fator limitante é que, em nosso país, relativamente poucos usuários estão conectados a sistemas de TV a cabo ao passo que as redes telefônicas se espalham pelo país. Portanto, podemos prever para o século 21, uma grande utilização das redes telefônicas convencionais em nosso país, para comunicação em alta velocidade com a Internet.

(*) Paulo Roberto Bueno Monteiro é engenheiro eletrônico com mestrado em tecnologia nuclear. Trabalha atualmente na divisão de instrumentação e controle do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo. Seu e-mail é: proberto@net.ipen.br

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