stamos no limiar de novo século e de novo milênio e, precisamos, pelo
menos, refletir no que poderemos esperar do futuro, ou, melhor seria, planejar que futuro
desejamos para nossos descendentes.
Todos nós somos inquilinos deste planeta e, pelo jeito, parece que
não temos sido muito corretos com ele. Temos progredido, porém à custa da espoliação
dos recursos naturais do planeta e da espoliação do trabalho do próprio homem.
Assistimos a todo momento o surgimento de novo problema ambiental. O
buraco na camada de ozônio, a temperatura do planeta se alterando, cada vez mais gás
carbônico na atmosfera, erosão do solo, erosão hídrica e, assim, se vai a fila de
problemas.
E mal nos damos conta de que os principais problemas ecológicos da
atualidade, segundo Leonardo Boff, são a pobreza e a miséria, originadas pelo sistema
perverso de capitalismo, acumulador de riqueza, de um lado, e gerador de pobreza e
miséria, do outro.
Um mundo dividido entre ricos perdulários, ao norte, e famintos, sem
teto, miseráveis, necessitados, ao sul. E os ricos nem sequer aceitam reduzir sua
emanação de gás carbônico.
Já não é hora de nós, ambientalistas de verdade, nos darmos conta
dos reais problemas ambientais? Já não é hora de dizermos que não basta apenas salvar
o mico leão dourado, a ararinha azul, as baleias, mas principalmente o elemento ambiental
mais importante da biosfera que é o próprio homem? Já não é hora, meus amigos, de
sentarmos à mesa e falarmos a mesma linguagem? A linguagem do homem universal, do homem
que anseia por equidade e justiça sócio-ambientais?
Estamos todos, ricos e miseráveis, no mesmo barco, ou melhor, na mesma
nave. Se ela despencar vamos todos ao abismo. Já não é chegada a hora de entendermos
que não podemos estimular a manutenção dessas diferenças? De sermos responsáveis, de
sermos éticos com a vida do planeta? Acreditamos, meus amigos, que reflexões deste porte
precisam ser feitas ao entrarmos numa nova era.
Estamos numa região impar no mundo, o Pantanal. Nome que tem apelo,
abre portas e chama a atenção. Graças aos bravos colonizadores e aos seus descendentes
pantaneiros que aqui têm vivido nos últimos três séculos, recebemos esta dádiva.
Reconhecido pela Unesco, como reserva da Biosfera. Significando um
prêmio pela forma como está conservado o Pantanal. Significa também maior
responsabilidade pela conservação e possibilidades de aporte de recursos financeiros
para os projetos de desenvolvimento sustentável. Uma Reserva da Biosfera tem tres
finalidades básicas: Conservação, desenvolvimento e apoio logístico.
Os problemas ecológicos que mais colocam em risco o Pantanal, nos dias
atuais, nascem no planalto circundante, resultantes da erosão de solos arenosos cujos
sedimentos assoreiam os rios e transformam ambientes terrestres em ambientes
permanentemente inundados.
Mas, recentemente, apareceram "salvadores" do Pantanal que
estão implementando uma tática sui generis, na fá de, comprando extensões de terras e
retirando o gado dessas áreas, estarem realizando um feito grandioso de conservação.
Dessa forma os incêndios poderão vir a ser o maior problema ambiental dentro da
planície.
O Pantanal não precisa deste tipo de salvação. O Pantanal precisa de
se ver livre daqueles que o estão usando como pano de fundo para ações
pseudo-ambientalistas. A retirada do gado é um exemplo claro das bobagens que podem ser
cometidas em nome da religião do ecologicismo. Não vão conseguir salvar coisa alguma, o
que certamente conseguirão é transformar o Pantanal numa imensa fogueira.
Vivemos uma crise global, que é fruto do modelo de civilização que
adotamos. É hora de buscarmos novo modelo que considere a cidadania, a democracia, a
participação, a solidariedade e a cooperação. Um modelo que busque novas fontes de
energia, formas sustentáveis de uso dos recursos e novos paradigmas e valores éticos
dominados pelo sentido de busca da manutenção da vida. Um modelo do qual todos possam
participar, não gerando excluídos ou marginais. Pois bem, os desafios para o milênio
são desta monta. Ou o homem enxerga estas coisas e as implementa, ou poderá transformar
as condições de vida do planeta em condições de morte.
A competição exacerbada pode levar a autofagia, o que seria
simplesmente o caos e representaria o extermínio da espécie humana. Os desafios do novo
milênio também nos levam a defender nossos recursos e a lutar pela nossa soberania e
independência. A Amazônia e o Pantanal são brasileiros.
Esta é uma questão para a qual não cabe discussão. Podemos falar
como o ex-governador do Distrito Federal, Professor Cristovão Buarque: se querem
internacionalizar a Amazônia e o Pantanal, muito bem, que o façam, mas primeiro que
sejam internacionalizadas as reservas de petróleo do mundo, o capital financeiro dos
países ricos, os grandes museus do mundo (O Louvre e O Museu Britânico, por exemplo,
abrigam tesouros de toda a humanidade), Nova York, Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de
Janeiro, Brasília, Recife, os arsenais nucleares americanos.
Por que não internacionalizar a Rocinha, a fome, a pobreza africana,
as crianças de rua? Como brasileiros, povo responsável e soberano, defenderemos até a
última gota de sangue o que é nosso.
Os desafios do novo milênio nos levam a repartir nossa nave com, no
mínimo, seis bilhões de pessoas, cuja maioria estará vivendo nas cidades. Já pensaram
no aumento dos problemas sociais e das necessidades de saúde (epidemia de HIV,
reaparecimento de doenças infecto-contagiosas), emprego, habitação, transporte,
energia, água, alimentos? Já pensaram como subsiste uma cidade?
Precisamos nos alinharmos aos princípios da Declaração de Berlim,
afirmados na Conferência Global do Futuro Urbano, realizada em Berlim, de 4 a 6 de julho
passado: princípios do desenvolvimento sustentável, da não discriminação e igualdade
de gêneros, da tolerância cultural e religiosa, da boa governança, da
complementaridade, da interdependência e da solidariedade.