| Publicado em 25/01/02
O desafio de gerar, aplicar e
divulgar o conhecimento científico (*)
Orlando Tambosi ()
A ciência e a tecnologia hoje estão tão imbricadas que já se tornou comum
aplicar-lhes a sigla C&T. Essa recente associação, contudo, tende a ofuscar algumas
diferenças fundamentais. A ciência, como pesquisa básica e processo racional de
conhecimento, produz idéias, hipóteses e teorias, enquanto a tecnologia produz objetos e
bens utilizáveis. A tecnologia possui história própria e é muito mais antiga que a
ciência, originalidade do gênio grego. É tão antiga quanto a própria humanidade: da
agricultura primitiva ao domínio dos metais, da engenharia chinesa às catedrais do
Renascimento, seus êxitos não dependeram de ciência. Pode-se mesmo dizer que esta não
teve algum impacto sobre a tecnologia até o século XIX.
As grandes catedrais, com suas enormes cúpulas e altas naves, não
foram construídas com base em elaborados princípios científicos, mas por engenheiros
que se valiam da experiência prática, isto é, dedicavam-se a fins práticos e não ao
conhecimento. Empregava-se então uma espécie de "teorema dos cinco minutos":
se uma estrutura permanecia de pé por cinco minutos depois de retirados os suportes,
podia-se supor que assim permanecesse para sempre. Em poucas palavras, a tecnologia é
voltada para as necessidades e demandas do mercado, ao passo que a ciência busca, antes
de tudo, o conhecimento como um bem em si mesmo.
O recente matrimônio entre ciência e tecnologia pode ser ilustrado
com a história da comunicação radiofônica. As ondas eletromagnéticas não foram
descobertas por experimentação, mas a partir das equações elaboradas pelo físico
escocês Maxwell (1831-79). Em 1887, Hertz (1857-94) demonstraria a propagação de tais
ondas, sem atentar, contudo, para a sua importância para as comunicações. Coube ao
italiano Marconi (1874-1937) lançar as bases para seu aproveitamento industrial e
comercial. Desde o final do século XIX, portanto, C&T andam de mãos dadas - com as
bênçãos da indústria, que na mesma época fundaria as primeiras empresas baseadas em
conhecimento científico (nas áreas de química e eletricidade).
Hoje, nada de realmente novo existe que não seja resultado da pesquisa
científica. A ciência e a tecnologia revolucionam permanentemente todos os setores:
social, econômico, político, militar, industrial, além de cultural e intelectual. Mas
é necessário reconhecer que, apesar de todos os avanços, o modo científico de pensar
ainda está longe de ser universal. A tecnologia já conquistou os corações, mas a
ciência ainda não alcançou as mentes: proliferam as pseudociências, a superstição,
as crendices e o charlatanismo, que mantêm grande parte da humanidade com os pés na
caverna. E nem se fale na anticiência dos letrados, pretensos humanistas, cuja visão de
futuro é a nostalgia de um passado idealizado.
O fato é que a cultura científica, de que o homem necessita para
compreender o mundo em que vive e nele sobreviver, não se consolidou nem mesmo nos
países economicamente mais avançados. Segundo a Associação Americana para o Progresso
da Ciência (ÀAS), em seu ambicioso Project 2061, são pressupostos dessa cultura:
familiarizar-se com o mundo natural, reconhecendo sua diversidade e sua unidade; entender
os conceitos fundamentais e os princípios científicos; perceber a inter-relação entre
a matemática, as ciências e a tecnologia; levar em conta que a ciência e a tecnologia
são empreendimentos humanos e, como tais, sujeitas a erros e limitações; e, finalmente,
adquirir a capacidade de pensar de acordo com as exigências do rigor científico.
Peculiaridades regionais à parte, no mesmo sentido caminha o Projeto 2006, recentemente
lançado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Ocorre que, diante de tais exigências, apenas 7% dos adultos
britânicos ou norte-americanos podem considerar-se medianamente cultos em ciência. Menos
de metade da população norte-americana sabe, por exemplo, que a Terra gira em torno do
Sol uma vez por ano - isto num país que já conquistou mais de uma centena de prêmios
Nobel. Claro está que um dos grandes desafios - para todos os países - é a divulgação
e a compreensão pública da ciência, algo que diz respeito, em primeiro lugar, aos
próprios cientistas, mas passa, também, por um incentivo ao jornalismo científico. A
atividade de divulgação é tão importante quanto a produção científica e
tecnológica, e não é exagerado igualar seu status para o cômputo do desempenho
acadêmico do pesquisador. Sabe-se que a tarefa é complexa e gigantesca, implicando até
mesmo uma profunda reformulação dos currículos escolares desde o ciclo básico, mas é
imprescindível - o labirinto da história nos ensina, afinal, que os povos podem regredir
a estados pré-científicos.
Os artigos publicados na revista Nexus (edição de dezembro),
abrangendo amplas áreas de conhecimento (da Engenharia de Materiais à Engenharia
Elétrica e Engenharia de Controle e Automação, da Tecnologia de Alimentos à Farmácia
e à Química, da Administração ao Direito e às Relações Internacionais), apontam
para a necessidade de uma maior integração entre universidade e empresas no
enfrentamento dos desafios da indústria brasileira e na geração de novas oportunidades,
tanto em C&T quanto em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).
Nesse aspecto, ainda há um longo caminho a percorrer, envolvendo três
agentes: o Estado, ao qual cabe gerar e aplicar políticas públicas de ciência e
tecnologia, além de financiá-las; a Universidade, à qual cabe formar pessoal
qualificado e criar ciência básica; e a Indústria, que deve investir na criação de
tecnologia, além de realizar pesquisa aplicada, incorporar pessoal qualificado e, desse
modo, ganhar competitividade.
O problema é que o setor privado tem investido pouco no
desenvolvimento científico e tecnológico, em parte devido à instabilidade econômica
nacional e à contínua mudança de regras. Especialistas de todo o país são unânimes
em afirmar que há pouca pesquisa no ambiente empresarial. Os dados são reveladores: no
Brasil, dos cerca de 90 mil cientistas e engenheiros ativos em P&D, apenas 9 mil
trabalham diretamente em empresas, no desenvolvimento de produtos ou serviços, enquanto
na Coréia do Sul - exemplo sempre citado entre os países de industrialização recente
-, a participação chega a 75 mil.
O resultado é que a Coréia registra 1.500 patentes por ano, e o
Brasil, só 56. Nos Estados Unidos, dos 960 mil cientistas e engenheiros que trabalham em
P&D, 760 mil estão nas empresas (aproximadamente 80%). Já nos países que participam
da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o dispêndio
empresarial atinge 2/3 do investimento nacional e vem crescendo significativamente (chega
a 11% ao ano na Finlândia, que ocupa o primeiro lugar no Índice de Avanço Tecnológico
da ONU).
Mas é justo reconhecer que boa parte da iniciativa privada já
demonstra consciência de que a inovação tecnológica é cada vez mais decisiva para que
as empresas ganhem ou mantenham competitividade diante da globalização dos mercados. A
propósito, uma pesquisa realizada pelo MCT e pela Confederação Nacional das Indústrias
(CNI) junto a mil empresas, em 1997, revelou que 38% delas pretendiam investir, nos cinco
anos subseqüentes, entre 2 e 5% de seu faturamento líquido em P&D, e 28% procurariam
superar os 5%.
Muitas empresas - privadas, públicas ou mistas - investiram na
formação de cientistas e geraram tecnologia própria. Cite-se o caso da Embraer, exemplo
típico de boa parceria entre universidade e indústria, com resultados excepcionais: hoje
é uma das maiores fabricantes de aviões a jato do mundo e líder nas exportações
brasileiras de produtos tecnológicos, com faturamento anual próximo dos US$ 2 bilhões.
Vale lembrar, também, a Petrobras, que desenvolveu uma avançada tecnologia de
perfuração e prospecção de petróleo em plataformas submarinas, e a Embrapa, que, com
seus 2 mil cientistas, tornou a agricultura nacional um empreendimento produtivo, com
pesquisas na área de biotecnologia, técnicas de melhoramento genético e no cultivo de
soja. Graças a esse trabalho, a soja e seus derivados rendem US$ 3 bilhões por ano em
exportações.
O dado inquestionável, porém, é que a pesquisa científica continua
sendo desenvolvida maciçamente nas universidades e nos institutos públicos. O sistema de
ensino superior é de qualidade, embora atinja só 12% dos jovens entre 18 e 24 anos. Mas
o pior problema está na base e é um dos fatores que pesaram na má classificação do
Brasil no Índice de Avanço Tecnológico da ONU. O mais novo índice criado pelo Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) relaciona 72 países em termos de
criação e difusão de tecnologias e capacidade humana para participar nas inovações
tecnológicas. Pelo baixo nível educacional dos trabalhadores, que freqüentam, em
média, pouco mais de 5 anos de escola - quando a média, nos países melhor colocados, é
de 12 anos -, restou ao Brasil o 43º lugar na lista (perde, na América Latina e Caribe,
para Argentina, México, Chile, Trinidad e Tobago e Panamá).
Apesar de tudo, o país conta com excelentes cursos de
pós-graduação, muitos de nível internacional, formando cerca de 5 mil doutores por
ano. É fundamental que as empresas passem a incorporar essa massa crítica em atividades
de P&D. Pois, se promover o desenvolvimento científico é um dever do Estado,
incumbindo à universidade a geração e difusão de conhecimento científico, investir no
desenvolvimento tecnológico é tarefa da empresa. Como resumem os pesquisadores e
cientistas, falta aqui o principal parceiro.
(*) Artigo publicado pela revista
Nexus - C&T, da UFSC
() Orlando Tambosi é do Departamento de Jornalismo
do Centro de Comunicação e Expressão (CCE)
da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). |