| Deigma
Turazi/ABr
Brasília - No dia
2 de março de 1983, eleito deputado federal meses
antes pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB)
de Mato Grosso, Dante de Oliveira marcou definitivamente
sua participação na história do Parlamento
e do país: apresentou ao Congresso Nacional a Proposta
de Emenda Constitucional (PEC) n° 5. Após quase
duas décadas de abstinência democrática
imposta pela ditadura militar, esta emenda propunha eleição
direta para a Presidência da República. E apesar
de rejeitada na Câmara dos Deputados, na madrugada
do dia 26 de abril de 1984, dava início à
maior mobilização popular já vista
no Brasil.
Com 32 anos de idade na época,
Dante de Oliveira se aliou ao grupo liderado pelo deputado
Ulysses Guimarães (MDB-SP), o “Senhor Diretas”,
e que incluía ainda o senador Teotônio Vilela,
o “Menestrel das Alagoas”, o então líder
metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva e o
sociólogo Fernando Henrique Cardoso, entre outros
que sonhavam com o ideal de um presidente eleito diretamente
pelo povo. O novo desafio seria acabar de vez com o Colégio
Eleitoral.
Ex-governador de Mato Grosso,
Dante de Oliveira hoje é vice-presidente nacional
do PSDB e presidente do partido no estado. E lembra: “Naquele
momento, perdemos a batalha, mas começamos a ganhar
a guerra”. Para comemorar o aniversário da
campanha pelas eleições diretas, lança
neste mês o livro “Os 15 meses que abalaram
a ditadura”, escrito em parceria com o ex-deputado
federal Domingos Leonelli.
A seguir, alguns trechos
do depoimento de Dante de Oliveira:
Emenda
“Quando fui eleito deputado federal, logo
que cheguei aqui, no dia 1° de janeiro de 1983, antes
de tomar posse, já estava com o projeto de emenda
constitucional para restabelecer o voto direto na minha
cabeça. Essa emenda era necessária porque
estava escrito na Constituição que a sucessão
presidencial se daria por meio do Colégio Eleitoral,
uma eleição indireta. No Centro de Processamento
de Dados do Senado (Prodasen) não havia projeto semelhante
registrado. Passei os meses de janeiro e fevereiro correndo
atrás das 170 assinaturas de deputados e 23 de senadores,
necessárias para que a proposta entrasse em tramitação.
Não foi um trabalho fácil para um guri novo
como eu, de 32 anos, sem conhecer todas as pessoas no Congresso
Nacional, mas no dia 12 de março o projeto estava
registrado lá. A votação só
aconteceria no dia 25 de abril de 1984."
Comícios
“Participar dos comícios era um misto
de responsabilidade e alegria, porque a bandeira das Diretas
Já se transformara em uma unanimidade nacional. Só
a ditadura e os bajuladores da ditadura estavam contra.
O resto, o Brasil inteiro, área rural, área
urbana, empresários, imprensa, todo mundo era a favor
das diretas. Lembro particularmente do comício do
dia 10 de abril de 1984, na Candelária, Rio de Janeiro,
pouco antes do dia da votação da minha emenda.
Não estava nem inscrito para falar, mas o Brizola
foi ao microfone e me chamou, de improviso, me jogou na
frente de 1 milhão de pessoas. Nunca vou esquecer,
porque eu nem sabia o que falar, de tão emocionado
e nervoso. Imagine, de uma hora para outra, você se
ver cercado por toda a imprensa nacional, imprensa internacional,
microfone, fotógrafo, com a responsabilidade de ser
o autor do projeto. Era importante ganhar a rua para pressionar
o Congresso a votar a aprovação da emenda.
Mas também era importante ganhar aqueles que ainda
estavam apoiando a ditadura dentro da Casa, deputados e
senadores que poderiam vir para o nosso lado. Este foi um
grande aprendizado na minha vida pública. E tive
que aprender rápido, nesse período tão
rico da vida brasileira.”
Sabedoria
“Com a rejeição da emenda,
nós perdemos uma batalha mas ganhamos a guerra. Ganhamos
com a vitória de Tancredo Neves no Colégio
Eleitoral, no ano seguinte. O Teotônio era uma grande
figura humana, um democrata autêntico e um homem que
lutava pela eleição direta com a mesma energia,
a mesma força com que lutava contra a doença
que o abatia. Quando o Ulysses Guimarães precisou
tirar uma licença por questão de saúde,
Tancredo Neves assumiu e embalou a campanha. Ele foi à
OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e à ABI (Associação
Brasileira de Imprensa), sempre com aquele jeito de poeta,
de sonhador, e esses apoios foram muito importantes.
Já o Teotônio
Vilela virou um símbolo, principalmente depois que
o Henfil fez aquela caricatura dele com uns dois ou três
riscos. Ele morreu em novembro de 1983, havia um comício
no dia, depois de muita luta pelas diretas e pela democracia.
Teotônio Vilela e Ulysses Guimarães, com sabedoria
e perspicácia política, entenderam que o restabelecimento
das eleições para presidente da República
era uma grande bandeira de luta. E foram construindo a unidade
do PMDB, que tinha diversas correntes políticas.
Não era um partido que, num estalar de dedos, levava
todo mundo para a rua com a campanha das diretas. Alguns
governadores tinham interesse de não brigar com a
ditadura, assim como alguns deputados, senadores, prefeitos.
O partido era muito grande, mas após muita costura
pela unidade, Ulysses percebeu que tinha o PMDB inteiro
naquela luta. Foi quando ele se transformou no Senhor Diretas”.
Pressões
“Antes da votação, dizia-se
que tamanha pressão popular faria com que o Congresso
votasse favoravelmente. Afinal, havia comícios, apoio
da imprensa, o Placar das Diretas nas grandes capitais.
Mas também havia informações de que
os militares jogariam uma pressão monstruosa sobre
o Congresso, como foi feito com a decretação
do estado de emergência, o sítio na Praça
dos Três Poderes, o general Newton Cruz com toda aquela
parafernália de cavalos e chicoteando os carros que
faziam o buzinaço.
No Congresso, vivemos momentos
de muita instabilidade, nossas emoções iam
da euforia à dúvida. Mas de uma coisa tínhamos
certeza: o Brasil era outro naquele momento. A sustentação
da ditadura estava rachada, a tal ponto que eles não
conseguiam consenso para ter um candidato próprio
no Colégio Eleitoral."
Luta
“A luta política não se faz
num ringue, mas na verdadeira arena que é o plenário
das Casas no Congresso, onde se lida com idéias e
ideais, com energia cívica. Só os brutamontes,
os que não têm idéia para defender,
é que partem para a ignorância. Apesar do sentimento
de dor, da decepção de não ter ganho,
sabíamos que lá na frente iríamos ganhar.
Na madrugada do dia 26, o Congresso se transformou num mar
de tristeza. Lembro da deputada Cristina Tavares, que chorava
copiosamente, mas não nos deixamos levar pela emoção.
Já no dia seguinte nós dávamos entrevistas
dizendo que era preciso união para levar nosso candidato
à vitória. É lógico que o partido
estava dividido, havia um grupo minoritário que criou
o Só Diretas, para manter a campanha, mas essa energia
já não cabia. O jogo agora era no Colégio
Eleitoral e o único homem capaz de vencer lá,
nós sabíamos, era o governador de Minas Gerais,
Tancredo Neves. Ainda no momento da votação
da emenda, quando faltaram 22 votos para a aprovação,
ficara claro o motivo para a ditadura ter demorado tanto
no país, mesmo desgastada, desmoralizada, marcada
pela corrupção, pelo arbítrio, pela
violência, pela censura. A ditadura se sustentava
porque ainda havia deputados e senadores que a aprovavam
por oportunismo, por fisiologismo. Tiveram a coragem de
votar contra o povo brasileiro naquele momento em que o
povo inteiro estava na rua. Não houve traidores,
houve os que não são democratas, um bocado
deles, votando contra.”
Livro
“No livro que estou lançando, procuro
mostrar tudo o que aconteceu naquele período em que
os governadores de oposição se elegeram. Leonel
Brizola, no Rio de Janeiro; Franco Montoro, em São
Paulo; Tancredo Neves, em Minas Gerais, essas vitórias
revelam que naquele momento a grande bandeira política
era a das diretas. Embora o PMDB e a esquerda brasileira
estivessem jogando suas fichas na Assembléia Nacional
Constituinte, que buscava a ruptura do poder. Mas para mim
náo existe, na política, esse negócio
de mágoa, de ódio. Política é
escola de psicologia humana, é preciso compreender
as pessoas. O Ulysses Guimarães sempre falava: ‘Ai
daquele que faz a política com ódio. O fígado
não é bom conselheiro’. Isso eu conto
no livro, que se pretende uma contribuição
para a história do Brasil. A campanha pelas diretas
foi o maior movimento cívico da nossa pátria
– e um movimento pacífico, sem quebra-quebra.
Nós derrubamos a ditadura sem um tiro, sem uma bala,
e acho que foi uma grande lição para os que
viveram e para as futuras gerações. A lição
de valorização da democracia." |