| Deigma
Turazi/ABr
Brasília - Hoje secretário
de Imprensa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
o jornalista Ricardo Kotscho afirma não ter vocação
para cobrir temas econômicos e políticos, principalmente
quando o trabalho se restringe aos gabinetes. Por isso optou
há mais de 30 anos pela atuação junto
aos movimentos sociais, o que possibilitou a ele cobrir
integralmente a campanha das Diretas Já, entre 1983
e 1984. Viajou pelo país para registrar desde as
primeiras até as chamadas megamanifestações
pelo direito à eleição, no voto direto,
do presidente da República.
A experiência foi relatada
no livro “Explode um novo Brasil”, em cujo prefácio
o deputado Ulysses Guimarães, que dividiu com o então
líder sindical Lula a responsabilidade de coordenar
a mobilização popular, afirma: “Kotscho
não se absorve nas estrelas do acontecimento. Sua
pena é também alto-falante da multidão,
assegura-lhe o papel de personagem no grande e terrível
drama social brasileiro”. Repórter da Folha
de S. Paulo, o secretário é chamado de “cronista
das diretas”.
No dia em concedeu esta entrevista,
Kotscho estava sem paletó nem gravata, em seu gabinete
no 1° andar do Palácio do Planalto. O presidente
Lula viajara ao interior do país. E o secretário
avisou, logo no começo, que sempre foi muito emotivo,
apesar da recomendação de que o jornalista
“não deve se emocionar, se envolver com os
fatos”.
A seguir, trechos do depoimento
de Ricardo Kotscho:
Campanha
“A campanha das diretas foi um pouco o resultado
das lutas dos movimentos populares, dos movimentos sociais
ligados à Igreja, da luta pela pela anistia, pela
redemocratização do país, tanto é
que os comícios pelo Brasil inteiro eu encontrava
pessoas com quem eu tinha feito matérias antes, o
pessoal da luta pela terra, da luta pelas demarcações
das terra indígenas, de todas as lutas sociais brasileiras
que vinham desde a década de 60 e 70 e acho que desaguaram
nesse grande movimento que foi a campanha das diretas. Foram
poucos meses mas hoje, olhando para trás, parece
que durou uma eternidade. Está tudo no livro, que
saiu na semana seguinte à rejeição
da Emenda Dante de Oliveira. O último capítulo
eu mandei por telex daqui de Brasília, assim que
terminou a votação.”
Personagens
“Nas muitas matérias que fiz, nos
dramas humanos que acompanhei, como a grande epopéia
brasileira que foi Serra Pelada, no fundo existe sempre
a mesma coisa, a luta de um povo para se libertar, para
ter melhores condições de vida, para ser mais
feliz. Tudo que é ligado às pessoas me emociona
e na campanha das diretas quase todo mundo chorava, porque
era muito bonito. O palanque era sempre o mesmo, as mesmas
figuras falavam e faziam mais ou menos os mesmos discursos.
O que mudava era a platéia, a cada comício
a emoção era maior porque a participação
popular aumentava. Por isso eu preferia ficar lá
embaixo, no meio das pessoas, dos anônimos, à
procura de personagens. Não me lembro de ter visto
incidentes, brigas. Era aquele grito que estava preso há
muito tempo e as pessoas soltavam. Nesses quase 40 anos
de profissão, sempre me interessei muito mais pelo
cidadão comum do que pelas pessoas famosas, pelos
políticos. É a primeira vez que moro em Brasília
e hoje convivo com políticos todo dia, é a
primeira vez que trabalho em governo.”
Votação
“Desde o início, os cientistas e os
comentaristas políticos diziam que a emenda não
seria aprovada e procuravam desanimar a gente. Mas havia
uma confiança, uma certeza de que a ditadura estava
no fim, um clima de expectativa de que seria possível.
Tanto que faltava muito pouco,
apenas uns vinte e tantos votos para a aprovação,
enquanto nas ruas aconteciam cenas ridículas, como
aquelas protagonizadas pelo general Newton Cruz, que era
o comandante militar do Planalto. Ele queria interromper
a caminhada do povo no grito. Com uma varinha, um chicote,
ficava batendo nos carros e xingando. Ele não se
conformava, estava irado com a festa do povo na Esplanada
dos Ministérios. Quando vi essa cena, senti que a
ditadura se acabava. Depois, foi aquela choradeira, todo
mundo muito triste porque aquela era uma esperança
de praticamente todos os brasileiros.”
Fuga
“Por coincidência, no Congresso, eu
estava no lugar onde ficam os gabinetes dos parlamentares.
Vi vários deles fugindo do plenário para se
esconder nos gabinetes. Eles não tinham coragem de
votar contra as diretas e então simplemente não
votaram, ausentaram-se, refugiaram-se nos gabinetes. Naquele
momento eu percebi que ia ser muito difícil a aprovação.
Após a derrota, continuei no mesmo lugar e fiz uma
coisa que jornalista não deve fazer e que não
é exemplo para ninguém. Nem contei no livro.
Fiquei com tanta raiva que quando os parlamentares fugiam
para os gabinetes, eu e mais outros colegas demos um pés
na bunda deles. Era a única coisa que a gente podia
fazer. Eles até podiam chamar os seguranças,
mandar prender a gente, mas estavam tão envergonhados
que procuravam sair depressa.”
Lideranças
“O Ulysses Guimarães e o Lula foram
as grandes lideranças da campanha. Foi o ex-deputado
quem contou sobre a articulação do Tancredo
Neves com outros políticos para chegar ao Colégio
Eleitoral. Havia grupos que discretamente preparavam esse
caminho, vários deles até iam aos comícios,
apareciam nas fotos, enquanto o outro grupo se unia cada
vez mais na luta pelas diretas. Se todos estivessem unidos,
acho, a emenda teria passado. E se a emenda passasse, o
candidato seria Ulysses. Se houvesse Colégio Eleitoral,
o candidato seria Tancredo – foi o que acabou acontecendo.
O Lula e o Senhor Diretas se davam muito bem, um como grande
líder popular e o outro como grande articulador político.
Eles tinha uma relação meio de pai para filho.
E nunca desanimaram, compareceram
do primeiro ao último comício. A campanha
pela redemocratização vinha do final dos anos
70, com muita força no ABC paulista, um centro de
resistência com as lutas do movimento sindical em
que o Lula sobressaía. O que se queria era a democracia,
não era para eleger ninguém. A campanha das
diretas era suprapartidária, era a campanha de um
país pela normalização democrática.”
Jornalismo
“Esse negócio de imparcialidade jornalística,
eu sempre disse isso e parece que também escrevi,
simplesmente não existe. O jornalista tem é
que ser honesto, em tudo – na política, no
futebol – e contar o que aconteceu o mais próximo
possível da verdade. Porque verdade absoluta também
não existe, cada um de nós que vê uma
cena, que vê uma paisagem, vai descrever de uma forma
diferente. A Folha de S. Paulo foi o único veículo
de comunicação que apoiou a campanha das diretas
desde o início, no sentido de se engajar e não
apenas ceder espaço na cobertura. Era ordem do dono
do jornal e não havia limite para despesas, o que
considero um momento raro na imprensa brasileira: quando
a direção e a redação do jornal
querem a mesma coisa. No final, todos os veículos
acabaram abrindo espaço, a partir da pressão
popular. Quando se diz que a mídia faz a cabeça
do povo, nesse caso foi o contrário. Foi o povo quem
fez a cabeça da mídia.”
Lição
“A grande lição que ficou é
a de que a gente não deve desistir nunca. Acho que
foi uma lição de persistência. E que
a campanha das diretas simboliza um pouco também
a história do próprio Lula, que chegou à
Presidência da República em eleições
diretas depois de ter sido derrotado em três votações.
A campanha das diretas foi assim também: ela foi
vitoriosa porque mobilizou a população, mas
a emenda acabou derrotada na votação. Como
lição de vida, o que ficou é que você
não deve desistir na primeira pancada que leva, na
primeira derrota. Ao contrário, acho que isso deve
ser um estímulo para continuar lutando.” |