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Turazi/ABr
Brasília - O senador
Pedro Simon (PMDB-RS) é um dos parlamentares mais
temidos por políticos e governantes de várias
tendências, por sua língua afiada. Capaz, até,
de influir na demissão de ministros de Estado que
não estejam em consonância com as expectativas
e anseios da população.
Aos 73 anos, em seu terceiro
mandato, ele já governou o estado do Rio Grande do
Sul e foi ministro da Agricultura em 1985, durante o governo
de José Sarney. Também deixou sua marca em
um dos movimentos democráticos mais memoráveis
da história política brasileira, a campanha
pelas diretas já. Escolhido em 1983 para presidir
a comissão constituída a fim de avaliar a
posição do partido em relação
à emenda Dante de Oliveira, Simon montou a estratégia
que contribuiu para tirar os militares do poder.
É com paixão
que ele fala dos comícios realizados de norte a sul,
da multidão nas ruas, da coragem das pessoas em enfrentar
tanques, baionetas e metralhadoras na luta pela redemocratização
do Brasil em 1984, quando a campanha atingiu seu ápice.
Lembra a articulação feita entre o então
governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, e o deputado
Ulysses Guimarães (MDB-SP) para que o primeiro, com
a derrota da Emenda Dante na Câmara, enfrentasse e
derrotasse Paulo Maluf (PDS-SP), o candidato apoiado pelos
militares no Colégio Eleitoral, em março de
1985.
O senador também fala
do Brasil hoje administrado pelo presidente Luiz Inácio
Lula da Silva que, na opinião dele, conseguirá
superar os problemas que emperram as ações
de governo. Surpreso com a falta de informação
dos jovens de hoje sobre a história política
nacional – "acham que Tiradentes foi um torturador
e não um herói da Inconfidência Mineira"
–, Pedro Simon defende a introdução,
nos currículos escolares, de uma disciplina que substitua
a Moral e Cívica – "uma lavagem cerebral"
– adotada durante o regime militar. E é autor
de um projeto de lei propondo que as televisões transmitam
programas semanais para resgatar nossas principais expressões
históricas.
Confira, a seguir, os principais
pontos do depoimento do senador:
Vitória sobre
as baionetas
"Para mim e para toda a sociedade brasileira,
a campanha das diretas representou o momento ético
mais bonito e mais emocionante da vida política brasileira.
Conseguiu atingir todos os segmentos da sociedade numa época
de total ditadura, onde existiam o medo, a tortura, o crime,
a morte, a cassação. A sociedade, aos poucos,
foi se imiscuindo do sentimento de luta pela eleição
direta. Os artistas, os intelectuais, os jovens, os estudantes
tomaram conta das praças, de peito aberto, e de mãos
vazias derrotaram as baionetas.
Ninguém levava muito
a sério a emenda constitucional proposta pelo deputado
Dante de Oliveira, um jovem recém-chegado ao Congresso.
Vivíamos um momento político duro. Como é
que a ditadura ia permitir que se votasse uma emenda daquelas?
Em uma convenção do MDB ficou decidido que
o partido designaria uma comissão, que eu presidi,
para coordenar uma campanha pelas diretas. O movimento estava
lançado. As diretas já foram uma grande vitória
20 anos atrás".
Todos unidos
"As primeiras reuniões foram realizadas
em Porto Alegre, com o doutor Tancredo e o doutor Ulysses.
No comício que aconteceu em 14 de janeiro de 1984
em Camboriú, Santa Catarina, Tancredo não
pôde ir, teve uma insolação. A caminhada
pela praia reuniu milhares de pessoas. Nos outras que foram
sucedendo, o movimento já não era mais apenas
do MDB, mas de todos os partidos, de todos os segmentos
da sociedade. E aí não parou mais, contaminou
todas as cidades, todas as capitais, todos os lugares.
Duas grandes concentrações
se destacaram: a primeira no Rio e a segunda, em São
Paulo, no feriado do aniversário da cidade. No 'Jornal
Nacional' da Rede Globo saíram só as festividades
do aniversário. E o comício havia reunido
mais de um milhão de pessoas. Isso provocou uma revolta
e até algumas caminhonetes da emissora foram viradas.
A partir daí, a imprensa começou a entrar
mesmo no movimento. Com a adesão dos jornais, rádios,
emissoras de televisão, artistas, o movimento superou
todas as expectativas."
Proposta indecente
"O general Figueiredo (ex-presidente João
Baptista Figueiredo) queria engambelar a opinião
pública, dar uma de bonzinho com a proposta de que
se nós votássemos a emenda prorrogando o mandato
dele por mais dois anos – ele já tinha seis
–, ele mandaria uma emenda ao Congresso garantindo
a realização das eleições diretas
para dois anos depois. Nós não aceitamos essa
tese. Nós não acreditamos nisso e levamos
adiante o movimento das diretas já.
Na véspera da votação
da Emenda Dante de Oliveira pelo plenário da Câmara
dos Deputados, o governo baixou um ato complementar proibindo
manifestações, proibindo que as pessoas chegassem
a dois quilômetros do Congresso Nacional. E no dia
da votação, o Congresso amanheceu cercado
de tropas do Exército, tanques, metralhadoras, praticamente
proibindo a entrada de todos no Congresso. Houve uma pressão
enorme, uma coação no sentido de anunciar
uma enormidade de cassações que seriam feitas.
A emenda constitucional foi
rejeitada e o Tancredo lançou a candidatura dele
dentro do Colégio Eleitoral. Isso era meio incompreensível,
porque o MDB era contra o Colégio Eleitoral, um instrumento
da ditadura pelo qual haviam sido 'eleitos' (nomeados) cinco
generais presidentes da República. Mas a tese era
a de que nós iríamos ao Colégio Eleitoral
para destruir o Colégio Eleitoral."
Ameaças na
votação
"A minha reação foi a do mais
vibrante protesto. Fiz um discurso duro, porque na época
estava inclusive no Congresso o assessor de Imprensa do
presidente Figueiredo, o Carlos Átila, que fazia
a coordenação dos votos perante o Palácio
do Planalto, com promessas, favores, ameaças. Ele
estava numa daquelas salas das galerias da Câmara,
a gente via atrás do vidro a fisionomia dele. E o
Congresso estava cheio de militares à paisana, pessoal
da segurança da Presidência da República
fazendo pressão e coação. Eu vi gente
chorando, gente que não votou dizendo 'eu não
sou um covarde, mas eu tenho a minha mulher, os meus filhos...'
No final, o Congresso inteiro cantava o Hino Nacional e
nós saímos para a rua, em caminhada em volta
do Congresso.
No mesmo momento, o doutor
Ulysses e o doutor Tancredo iniciaram o movimento de que
nós iríamos ao Colégio Eleitoral para
deslegitimizá-lo, para dizimá-lo. Mas ficaram
as incertezas: como o povo vai entender, se nós passamos
a vida inteira com a eleição do Castello Branco,
do Costa e Silva, Geisel, do Médici, Figueiredo?
Nós sempre esculhambamos o Colégio Eleitoral,
como é que nós íamos, agora, querer
ganhar no Colégio Eleitoral?
A explicação
era a de que, acabando com o Colégio Eleitoral, a
democracia seria restabelecida. E foi o que deu força
à nossa caminhada. A partir daquele dia da derrota
da Emenda Dante de Oliveira, o povo resolveu topar a parada.
E era um confronto com as Forças Armadas, um confronto
com a ditadura. Tancredo Neves começou a percorrer
o Brasil como candidato a presidente, enquanto Paulo Maluf,
que era o candidato da Arena, não saía de
casa, para não enfrentar as vaias do povo. E aconteceu
o inesperado: um racha nessa antiga Arena."
Racha na Arena
"Nós conseguimos fazer um acordo com
a dissidência da Arena, onde estavam o José
Sarney, o Jorge Bornhausen, o Marco Maciel e muita gente.
Mas o governo militar ameaçava pelos jornais todo
dia: antes do dia das eleições para presidente,
no Colégio Eleitoral, eles iam cassar os deputados
e senadores, até chegar ao número necessário
para eleger o candidato deles. Essa era a expectativa e
a gente imaginava que isso aconteceria mesmo. Mas a manifestação
do povo foi tão intensa que eles não tiveram
coragem.
Eles foram obrigados a aceitar
e na hora o número de pessoas que votou a favor da
candidatura de Tancredo Neves foi muito maior do que imaginávamos.
O Brasil inteiro parou, o Congresso parou, as emissoras
de rádio e de televisão transmitiam a votação
diretamente do Congresso. Olha, que eu me lembre, foi uma
festa maior do que quando o Brasil ganhou o tricampeonato
do mundo (1970) no futebol. Foi o ato mais bonito da nossa
vida político-partidária. Mesmo que não
tenha sido uma eleição direta, ela foi mais
do que isso, foi um verdadeiro plebiscito."
Vitória de
Lula
"O Brasil jogou muito, muito mesmo, na eleição
do Lula em 2002. Ele viveu um momento muito importante:
um líder sindical, um operário, uma pessoa
humilde do Partido dos Trabalhadores que teve uma vitória
espetacular para a Presidência da República.
A angústia desde a morte de Tancredo Neves só
foi superada com a vitória de Lula. O povo achou:
'bom, chegou a nossa hora'. Infelizmente, neste ano e meio
de governo, o Lula não disse ainda a que veio. E
o povo, na verdade, está angustiado à espera
de que o governo do Lula comece. Mas não há
ainda o sentimento de revolta. O que existe é uma
expectativa, e eu acredito nisso, de que o Lula ainda vai
dar a volta e o governo dele vai fazer aquilo que a gente
espera".
Resgate dos heróis
"Na época da ditadura havia matérias
estúpidas, com professores especiais – geralmente
militares – querendo fazer uma lavagem cerebral na
mocidade. Aquilo foi um escândalo. Agora nós
temos professores que analisam a nossa História,
que contam a nossa História, inclusive o extraordinário
movimento das diretas já.
É preciso ensinar
o povo a admirar seus heróis, estimular o Brasil
a amar seu povo, a conhecer seus heróis, como acontece
nos Estados Unidos, na França, na Argentina e na
maioria dos países que têm orgulho de seus
heróis. No Brasil há uma certa apatia por
causa da ditadura de Getúlio, desses 21 anos de ditadura
que o Brasil viveu após o golpe de 1964. Meu projeto
prevê uma disciplina escolar para dar um conteúdo
de seriedade ao povo brasileiro e principalmente aos nossos
estudantes." |