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Spensy
PimentelABr
Brasília
– Há quarenta anos, na noite do dia 31 de março
de 1964, o presidente democraticamente eleito João
Goulart foi deposto. Na manhã do dia 1º de abril,
o cronômetro da história começa a marcar
os 21 anos que durariam a ditadura militar no Brasil. A
partir de hoje, 29 de março de 2004, a Radiobrás
une esforços de seu sistema de TV, rádio e
agência para colocar à disposição
da população brasileira um conjunto de depoimentos
especiais sobre esse momento decisivo da história
do país.
Entre os relatos, gente que estava no centro do furacão
que se abateu sobre João Goulart, como Waldir Pires,
em 1964, Consultor Geral da República, hoje ministro
Chefe da Controladoria Geral da República, Almino
Affonso, então ministro do Trabalho, hoje advogado
e membro do Conselho da República, e Jarbas Passarinho,
então chefe do Estado Maior do Comando Militar da
Amazônia, hoje aposentado, assessor da Confederação
Nacional da Indústria.
Na capital federal, outros acompanharam de perto os acontecimentos
confusos de então, procurando orientar-se em meio
à borrasca. Estavam ali José Sarney, então
deputado federal pela União Democrática Nacional,
hoje senador do Maranhão pelo Partido do Movimento
Democrático Brasileiro, presidente do Congresso Nacional,
e Aldo Arantes, então funcionário da Superintendência
do Plano de Reforma Agrária, hoje secretário
do Programa do Ensino Profissional, no Ministério
da Educação.
Outros foram arrastados já pelos primeiros ventos
do golpe, que em 64 sopraram mais forte no Nordeste, onde
a luta pela terra assustava os conservadores. Miguel Arraes,
então governador do estado de Pernambuco, hoje presidente
nacional do Partido Socialista Brasileiro e deputado federal,
foi preso logo após a derrubada de Goulart, assim
como Clodomir de Moraes, então militante das Ligas
Camponesas em Pernambuco, hoje professor aposentado da Universidade
de Rondônia.
No Centro-Sul do país, entre os alvos da repressão
imediata estiveram os estudantes, como José Serra,
então presidente da União Nacional dos Estudantes,
hoje presidente nacional do Partido da Social Democracia
Brasileira. Mais tarde, a ausência de perspectivas
de debate político levaria à resistência
armada brasileiros como Franklin Martins, em 1964 estagiário
da agência de notícias Interpress, hoje comentarista
político e diretor da sucursal de Brasília
da Rede Globo de TV. Qualquer um com envolvimento nos movimentos
sociais estava ameaçado, como conta Clara Charff,
então militante feminista no Rio de Janeiro, hoje
assessora do Partido dos Trabalhadores em São Paulo.
Instituições como a Igreja Católica
apoiaram o golpe num primeiro momento, mas, com o avanço
do totalitarismo militar, passaram a se dividir sobre o
regime, como conta Frei Betto, então estudante de
Jornalismo, hoje frade dominicano, escritor e assessor especial
da Presidência da República.
À interrupção do fluxo democrático
somou-se o ataque às então frutíferas
articulações entre os movimentos sociais e
culturais, na narração de Gilberto Gil, então
secretário de Cultura do Centro Acadêmico da
Escola de Administração da Universidade da
Bahia, hoje ministro da Cultura.
O planejamento democrático desenvolvido pela equipe
de Celso Furtado foi substituído pelo autoritarismo,
como analisa Maria da Conceição Tavares, então
funcionária do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social, hoje economista, professora das
universidades do Rio de Janeiro e de Campinas, assessora
do Partido dos Trabalhadores no Senado.
Às universidades, a tempestade ainda custou a chegar
em São Paulo, onde estava Paul Singer, então
professor da Universidade de São Paulo, hoje secretário
Nacional de Economia Solidária, no Ministério
do Trabalho. Em Brasília, ela veio antes, e atingiu
o trabalho de gente como Sepúlveda Pertence, então
professor da Universidade de Brasília, hoje ministro
do Supremo Tribunal Federal.
Musculatura
"Celso Furtado tem razão", opina Maria
da Conceição Tavares em seu depoimento. É
com base no pensamento do autor de "A Formação
Econômica do Brasil" (1959), ministro do Planejamento
do presidente João Goulart, que a economista e ex-deputada
federal analisa o impacto político ocasionado pelo
Golpe Militar de 1964. "Ali se estava construindo uma
sociedade que ganhava musculatura social, tentava-se um
projeto de reformas que ia modernizar e democratizar o Estado
brasileiro. Isso foi abortado".
Uma semana depois de o Congresso Nacional declarar vago
o posto de presidente da República, foram cassados
os mandatos de 41 deputados federais e suspensos os direitos
políticos, entre outros, de João Goulart,
Jânio Quadros, Juscelino Kubitscheck, Luís
Carlos Prestes (secretário-geral do Partido Comunista
Brasileiro), Miguel Arraes, Leonel Brizola (deputado federal
e ex-governador do Rio Grande do Sul), Celso Furtado, além
dos ex-ministros de Jango Almino Afonso, Paulo de Tarso
Neto (Educação), Darcy Ribeiro (Gabinete Civil)
e Waldir Pires.
A lista, que, juntamente com a deposição de
Jango, formava o Ato Institucional número 1, incluía
ainda 29 líderes sindicais e 122 oficiais expulsos
das Forças Armadas. Demitiu 10 mil funcionários
públicos suspeitos de atos subversivos, tornou ilegais
os partidos da oposição, os sindicatos e as
associações de classe, proibiu greves, extinguiu
a União Nacional dos Estudantes (UNE) e várias
entidades estudantis.
Golpe contra o povo
O historiador Jacob Gorender, à época membro
do Comitê Central do Partido Comunista, analisa o
período em seu livro "Combate nas Trevas":
"Segundo penso, o período de 1960-1964 marca
o ponto mais alto das lutas dos trabalhadores brasileiros
neste século, até agora. O auge da luta de
classes, em que se pôs em xeque a estabilidade institucional
da ordem burguesa sob os aspectos do direito de propriedade
e da força coercitiva do estado. Nos primeiros meses
de 1964, esboçou-se uma situação pré-revolucionária,
e o golpe direitista se definiu, por isso mesmo, pelo caráter
contra-revolucionário preventivo. A classe dominante
e o imperialismo tinham sobradas razões para agir
antes que o caldo entornasse".
Um dos principais auxiliares de João Goulart, Waldir
Pires reflete sobre o significado do golpe em seu depoimento:
"Nada é mais terrível para o Brasil do
que a interrupção em 1964 do desenvolvimento
político do País, da incorporação
gradual do seu povo na cultura global do Brasil, na capacidade
de cada um ir se tornando gradativamente cidadão
e cidadã. Aquilo tudo foi interrompido por uma visão
canhestra, uma visão pequena, obtusa, que exclui
o povo do processo civilizatório. Hoje, o Brasil
é um dos países campeões da criminalidade
no mundo. Por quê? Por que essa exclusão? Foi
o povo brasileiro que mudou? A natureza do nosso povo mudou?
A índole do nosso povo mudou? Ou não mudaram
as estruturas sociais, as quais eram terrivelmente arcaicas
e continuaram arcaicas?".
Miguel Arraes, então governador de Pernambuco, é
um dos entrevistados que relaciona o Golpe de 64 a um movimento
mais amplo, que remonta a quinze anos antes: "O golpe
sempre existiu e foi mais ou menos permanente desde que
Getúlio Vargas reassumiu o poder. É preciso
recordar que, quando ele se elegeu, em 1950, em uma grande
campanha, essa história começou. A conspiração
data do momento em que ele tomou posse".
O depoimento de Almino Affonso resume a sensação
dos analistas sobre o período: "Eu digo com
absoluta clareza, o golpe de 64 foi menos contra o presidente
João Goulart ou contra outras lideranças que
eram consideradas à esquerda do espectro político
ou de esquerda. O golpe foi contra a emergência popular".
Programação
A série
de depoimentos "O Brasil Interrompido" estará
presente ao longo de todo o noticiário do sistema
Radiobrás a partir desta segunda-feira (29). Desde
o início do mês, repórteres colheram
em áudio, vídeo e texto depoimentos inéditos.
Tudo será transmitido pelas emissoras Radiobrás
(TV Nacional, NBr, Rádio Nacional AM, Rádio
Nacional FM e Rádio Nacional da Amazônia, Agência
Brasil), em edições diversas, de acordo com
suas diferentes linguagens.
Além
dos depoimentos, a Agência Brasil, bem como as TVs
e rádios do sistema Radiobrás, terão,
ao longo da semana, extensa programação relativa
à lembrança dos 40 anos do Golpe.
Na Agência
Brasil, reportagens especiais disponibilizadas ao longo
da semana traçarão um retrato dos aspectos
políticos, econômicos, sociais e culturais
do Brasil dos anos 60.
As TVs
apresentam, de segunda a sexta-feira, sempre às 21
horas, uma série de documentários, com fatos
e histórias de personagens marcantes da época.
Hoje, "O Mestre", vídeo produzido pela
TV Câmara, mostra a trajetória de vida do sociólogo
Florestan Fernandes. Amanhã, "Barra 68",
de Vladimir Carvalho, traça a história da
utopia da criação da Universidade de Brasília.
Na quarta-feira, "O Golpe de 64", produção
da Rede Minas, mostra detalhes dos acontecimentos que levaram
à ruptura institucional de 1º de abril. Na quinta-feira,
"Vale a Pena Sonhar" traz às telas a trajetória
libertária do militar socialista Apolônio de
Carvalho. Na sexta-feira, fecham a série os filmes
"Sobre os Anos 60" e "Sobre os Anos 70",
produzidos pelo Instituto Itaú Cultural.
Cinco
reportagens especiais serão exibidas cada uma nos
três principais telejornais da Radiobrás, NBR
Manhã (8h), Notícias de Brasília (13h30)
e NBR Noite (20h). Nesta segunda-feira, o contexto social,
econômico e cultural em que ocorreu o golpe. Amanhã,
os polêmicos projetos de reforma urbana e agrária
do governo Jango. Na quarta-feira, uma análise sobre
as propostas de reforma educacional e de voto para os analfabetos,
em debate na época. Na quinta-feira, reforma bancária
e lei de remessas. Na sexta-feira, depoimentos de pessoas
que participaram do governo em 1964 e personagens falando
da experiência de ter vivido na época.
Nas
rádios, entrevistas ao vivo com analistas e personagens
que viveram a época estarão presentes por
toda a programação da semana. A programação
musical também fará alusão ao período.
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Colaborou Rodrigo Savazoni
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