|
Spensy
Pimentel/ABr
Brasília
– Com a formação política nascida
entre estudantes, operários e camponeses, o goiano
Aldo Arantes, 63, é hoje responsável por um
setor do governo federal que, segundo ele, une as pontas
de sua história de militância, o Proep, Programa
de Expansão do Ensino Profissional, do Ministério
da Educação.
Foi presidente da União Nacional dos Estudantes entre
1961 e 62, quando se consolidou o projeto dos Centros Populares
de Cultura. Também participou à época
da UNE Volante, caravana que unia eventos culturais e a
mobilização pela reforma universitária
por todo o Brasil – espalhando "comunismo"
pelo país, como ele lembra que o jornal ‘O
Globo’ analisava.
Com a ameaça de golpe militar à época
da posse de João Goulart, participou das mobilizações
da Rede da Legalidade, junto com o então governador
Leonel Brizola. Militou na Juventude Universitária
Católica (JUC) e depois na Ação Popular
(AP). Nos anos 70, filia-se ao Partido Comunista do Brasil
(PC do B) e, após a redemocratização
do país, cumpre quatro mandatos como deputado federal.
Em depoimento à Agência Brasil, Arantes relembra
seu período de militância na UNE, o envolvimento
com a luta pela reforma agrária e faz uma análise
política do período. Leia a seguir os principais
trechos da conversa, concedida em seu gabinete no MEC.
Golpe!
"Eu era ex-presidente da UNE (União Nacional
dos Estudantes) e trabalhava aqui em Brasília na
Superintendência da Política de Reforma Agrária.
No momento em que o Congresso Nacional decidia reconhecer,
de forma ilegítima, que o presidente da República
não estava na capital federal e com isso se declarava
vago o cargo, eu estava nas galerias do Congresso Nacional.
Eu protestei veementemente contra o golpe, gritei, nas galerias
do Congresso, ‘Golpe, golpe!!!’.
Alguns parlamentares, entre os quais Almino Affonso e Plínio
de Arruda Sampaio, articularam com a segurança da
Câmara pra que eu não fosse preso. Eu consegui
sair, fui para o interior de Goiás e fiquei durante
um bom tempo. Aí, por volta de junho, ou julho, fui
para o Uruguai, juntamente com Betinho, o Herbert José
de Souza, que atuava comigo no grupo estudantil".
Influência cubana
"Tudo isso vem em conseqüência de um processo
de ascenso do movimento popular. O golpe militar se dá
pouco depois da revolução cubana, havia um
clima na América Latina de apoio a Cuba, as idéias
libertarias, as idéias revolucionárias e,
evidentemente, uma ofensiva muito grande dos americanos
para conter esse processo. O dinheiro americano colocou
em ação, na América Latina, a Aliança
para o Progresso, na tentativa de conter os movimentos sociais.
Naquela época, havia um crescimento dos movimentos
sociais, não só o movimento estudantil, das
lutas pelas reformas de base, reformas em geral, mas a luta
do movimento estudantil pela reforma universitária,
a luta do movimento camponês pela reforma agrária,
com as Ligas Camponesas, a luta pela soberania nacional.
Se discutia e se aprovou o projeto de lei da regulamentação
da remessa de lucros, houve o processo de nacionalização
das empresas de petróleo, uma série de medidas
que afirmavam o projeto nacional de desenvolvimento.
Esse conjunto de fatores é que levou a uma articulação
de forças internas e internacionais. As forças
internas eram fundamentalmente os grandes empresários
ligados ao capital estrangeiro, além dos grandes
fazendeiros e de um segmento da classe média muito
influenciado por uma certa visão de que esse governo
ia levar a uma república sindicalista.
Houve
uma grande mobilização, grandes passeatas,
como a Marcha com Deus pela Liberdade, do chamado Padre
Peyton, que mobilizou setores importantes da sociedade em
particular da classe média e dos setores de elite
da sociedade, tudo isso terminou redundando no golpe militar
de 64.
Não havia uma solidez de apoio político ao
governo do presidente João Goulart e muito menos
solidez do ponto de vista do apoio militar. De tal maneira
que vários setores de esquerda não imaginavam
a possibilidade do golpe, e o movimento social não
estava preparado para enfrentá-lo. A resistência
existiu, mas foi muito limitada e, quando vem o golpe militar,
vem com todas as medidas compatíveis com as razões
que a determinaram, a paralisia no processo de reforma agrária,
o problema da lei de garantia de investimentos estrangeiros,
a extinção da estabilidade no emprego, com
a criação com o fundo de garantia, enfim,
uma série de medidas contrárias aos interesses
nacionais e do povo brasileiro".
Nas universidades
"Nessa época, a minha participação
mais direta era no movimento estudantil, era a luta pela
reforma universitária. O movimento estudantil lutava
pela participação de um terço dos estudantes
nos órgãos colegiados, e isso mobilizou bastante
a sociedade e os estudantes. Nós tínhamos,
na verdade, realizado um seminário de reforma universitária
que projetou o eixo da luta pela reforma universitária,
ou seja, combinava a luta geral do Brasil pela soberania
nacional, pela independência, por um projeto nacional
de desenvolvimento, com a luta específica dos estudantes
pela reforma universitária, pelo processo de modernização
da universidade brasileira e da adequação
das instituições à realidade do país,
e, por outro lado, a luta pela reestruturação
do poder na universidade com a participação
de um terço dos estudantes nos órgãos
colegiados.
Com o seminário, decidimos realizar a chamada UNE
Volante, uma caravana bastante expressiva com lideranças
estudantis e membros do Centro Popular de Cultura da União
Nacional dos Estudantes (UNE), com Oduvaldo Vianna Filho,
Francisco Milani, que participaram desse processo todo.
Percorremos o Brasil inteiro, do Rio Grande do Sul até
o Amazonas, no processo de mobilização em
torno da reforma universitária e em torno do problema
da luta dos interesses nacionais.
Havia a realização de assembléias gerais,
discussão sobre a questão da reforma universitária,
apresentações de peças teatrais e do
filme ‘Cinco Vezes Favela’, que foi produzido
pela UNE. Houve uma atividade política e cultural
que mobilizou amplamente a sociedade, os grandes jornais
da época. O jornal ‘O Globo’ dizia que
a UNE estava ‘levando o comunismo pelo Brasil’.
A caravana tinha cerca de 30 pessoas, saiu de avião
do Rio Grande do Sul e visitou quase todas as capitais brasileiras.
Na realidade, foi um grande movimento, com repercussão
nacional.
Quando a UNE Volante ia caminhando pelos estados do Nordeste,
a repercussão já era muito grande. A UNE era
recebida por uma grande quantidade de estudantes, demonstrando
um fator político de grande relevância, não
só nessas cidades, mas em todo o país".
Um presidente na UNE
"É importante dizer que a participação
política da UNE faz parte da tradição
do movimento estudantil, tanto que, na tentativa de golpe,
durante a posse do presidente João Goulart, a entidade
se mobilizou. Em certo sentido, o início do processo
de luta política, do próprio golpe, já
estava germinando na tentativa de impedir a posse do presidente
João Goulart. Na época, eu era presidente
da UNE, houve uma grande mobilização nacional
dos estudantes na luta pela legalidade, com a resistência
do Brizola no Rio Grande do Sul.
A greve nacional dos estudantes em defesa da legalidade
levou o presidente João Goulart à sede da
UNE. Foi a primeira vez, aliás, a única vez
que um presidente da República esteve na sede da
União Nacional dos Estudantes: o presidente João
Goulart, com todo o seu ministério e com o primeiro-ministro
que, na época, era Tancredo Neves. Foi um fato de
grande relevância, mas que era indicativo de uma tentativa
das forças conservadoras de dar um golpe militar.
Eles iniciaram e desenvolveram, no curso do governo João
Goulart, com a representação de empresários
nacionais ligados ao capital multinacional, da embaixada
americana, uma articulação que terminou no
movimento político que procurou dar base ao golpe
militar e ao próprio golpe militar, com os resultados
que a gente pôde ver".
Reformas limitadas
"Criou-se um clima em torno do problema da revolução
cubana e da mobilização popular. As reformas
tinham um caráter limitado. A reforma agrária
era a reforma nas terras em torno das rodovias, a luta em
defesa da soberania nacional também era limitada.
No entanto, naquele momento, certamente relacionado com
a questão do receio do crescimento das forças
de oposição que os americanos diziam existir,
o crescimento do comunismo no mundo, certamente, foi um
fator importante. Tanto assim, que levou o presidente John
Kennedy a lançar a ‘Aliança para o Progresso’,
inclusive no Nordeste, onde as ligas camponesas se desenvolviam
amplamente.
Não que as reformas fossem radicais, mas as classes
dominantes e o imperialismo norte-americano não admitiam
qualquer tipo de alteração, qualquer tipo
de reforma no Brasil, por mais restritas que elas fossem.
Sobretudo, na medida em que essas reformas estavam acopladas
ao amplo movimento de mobilização da sociedade.
Na verdade, eles tinham medo de que aquilo ganhasse envergadura
e pudesse caminhar para reformas mais profundas e mais estruturais".
Luta no campo
"Naquela época, existiam as Ligas Camponesas,
uma espécie de movimento de luta pela reforma agrária.
Era a reforma agrária radical, liderada por Francisco
Julião, que atuava principalmente no Nordeste. Durante
o governo do presidente João Goulart, foi iniciado
um processo de sindicalização rural, fruto
de um convênio feito pelo Ministério do Trabalho,
cujo ministro era Almino Affonso, e a Superintendência
da Política da Reforma Agrária (Supra). Ao
lado do trabalho que era realizado pelas ligas, que nessa
época começavam a perder um pouco a força,
começou um processo de luta pela sindicalização
rural. O que ocorre é que o processo de aguçamento
da luta de classe no campo levou à organização
dos latifundiários, que se armaram, de forma semelhante
ao que aconteceu mais recentemente com a União Democrática
Ruralista (UDR). Não se criou um movimento nacional
como se criou com a UDR, mas um movimento semelhante, de
organização de milícias armadas para
conter o avanço pela reforma agrária".
Ação Popular
"Nós éramos da Ação Popular
– eu e o José Serra – e, na realidade,
durante muitos anos o grupo teve controle do movimento estudantil
e da UNE. Primeiro fui eu, depois o Vinícius Caldeira
Brant e, em seguida, o Serra: éramos todos membros
da Ação Popular naquela época. Nós
tínhamos, não só, com relação
à política, cuja base era exatamente de concepção
da Ação Popular, como tínhamos uma
relação pessoal que se mantém até
hoje. Hoje em dia, temos opiniões políticas
diferentes, mas mantemos uma relação de amizade
e fraternidade que vem desde aquela época".
Radicalização
"Num primeiro momento, não se tinha exata idéia
da dimensão do golpe. Se imaginava que o golpe tivesse
um caráter mais passageiro, como tinham tido outros
golpes na América Latina. No entanto, o golpe veio
pra ficar, e não só no primeiro momento. Se
tentou dar continuidade à luta, mais ou menos nos
termos anteriores, como foi a luta de mobilização
popular. Foi criado o Movimento de Luta contra a Ditadura
(MCD). A UNE fazia grandes manifestações,
houve a Passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro (26 de junho
de 1968), houve manifestações pelo Brasil
inteiro. Esse crescente da luta contra a ditadura militar
terminou colocando na ordem do dia o Ato Institucional n°
5.
O AI-5 é o golpe dentro do golpe, exatamente uma
radicalização, transformando a tortura, a
violência e o assassinato, que já ocorriam,
em método de governo. Aí há o processo
de radicalização e de desenvolvimento, de
forma mais ampla, da resistência armada. Muitos setores
consideravam que, a partir dessa situação,
você não poderia mais atuar de forma institucional,
política.
A UNE, que já estava na ilegalidade, se torna uma
entidade clandestina. Os sindicatos, as entidades sociais
perdem as condições de atuar. O espaço
da luta política ficou absolutamente comprimido,
não havia possibilidade, então isso fez com
que outros setores importantes, particularmente da juventude,
optassem pela luta armada. No caso da Ação
Popular, nós tínhamos uma concepção
que combinava a questão da luta armada com a luta
legal, a luta de massas. Considerávamos que a luta
armada deveria ser parte de um processo mais abrangente
de mobilização da sociedade, tanto assim que
nós sempre estivemos presentes na UNE, mesmo no período
da clandestinidade.
Quem dirigia a UNE era a Ação Popular. É
claro que posteriormente ela terminou, a própria
Ação popular evoluiu para se incorporar ao
partido Comunista do Brasil (PC do B), mas nesse período
ainda existia e era a entidade que dirigia a UNE, dirigia
parcelas importantes do movimento camponês, por exemplo,
em Pernambuco e no Maranhão, também tinha
presença no movimento operário, particularmente
em São Paulo. Era uma organização política
revolucionaria, mas que dava ênfase a um trabalho
de mobilização política".
Comunismo no poder
"Há uma certa recuperação, eu
também acho que é como se nós tivéssemos
tido um corte, e a gente volta a viver uma nova época
– é claro que em novas condições,
porque o processo de globalização traz um
condicionamento muito forte. O governo Lula sem dúvida
representa um governo de mudanças, um governo em
que um trabalhador e a esquerda assumem o governo no país.
Não o poder como tal, mas o governo, com a participação
inclusive do PCdoB em dois ministérios, esse é
um fato inusitado na historia política brasileira,
nunca um comunista teve o governo no país.
A esquerda não pode se dar ao luxo do que ocorreu
no governo João Goulart, com uma desesperança
e uma falta de apoio ao governo. Acho que é necessária
a mobilização da sociedade pelas mudanças,
a mobilização pelo desenvolvimento já.
Pelo emprego, como sendo peça fundamental numa nova
política de desenvolvimento do país. A sociedade
tem de se mobilizar, nós queremos lutar dentro do
governo. Mas, queremos lutar fora do governo, com a sociedade,
para pressionar, como se pressiona um amigo, um irmão,
uma pessoa da família. O governo brasileiro ainda
sofre pressões poderosas do governo norte-americano,
do sistema financeiro e da grande mídia. É
necessário, exatamente, que haja essa ‘contrapressão’,
para que o governo se sinta apoiado para fazer essas mudanças,
que eu considero absolutamente indispensáveis".
Golpes atuais
"Eu não penso que o golpe do Haiti e a tentativa
de golpe na Venezuela sejam similares a 64. É um
momento diferente. Existem condicionais e particularidades,
o que predomina hoje na América Latina é a
manutenção da estabilidade política
dentro dos marcos do neoliberalismo. Não há
razões que pudessem justificar uma política
golpista. A sociedade também é mais exigente
contra uma política golpista. É claro que
há situações especificas. Nesse caso,
o Haiti é mais uma coisa tópica. Mesmo na
Venezuela, apesar de haver uma forte mobilização,
é muito pela política do Chaves, a sociedade
venezuelana não aceitou o golpe até agora.
Resistiu, foi para as ruas, tem apoiado o governo. Essa
coisa não está presente na América
Latina nos moldes que estava na década de 60.
A América Latina estava um pouco num caldeirão.
Inspirada numa experiência concreta, que era a cubana.
Aquilo foi igual a um dominó, um golpe atrás
do outro. E todos dentro de um mesmo contexto. Era o contexto
de conter, digamos assim, o avanço da luta popular
na América Latina".
Sem o Golpe
"É difícil saber o que teria ocorrido
se não tivesse acontecido o golpe. Aconteceu porque
tinha uma série de fatores internacionais e internos
que conduziram a isso. Mas, imagino que o Brasil teria progredido
tremendamente, porque a situação em que o
país vivia durante o governo do presidente João
Goulart, era um desabrochar.
Eu nunca vivi um momento da história do Brasil com
a sociedade tendo uma auto-estima tão alta. Com a
criatividade tão elevada, com a alegria tão
grande. Aquilo ali, num país nas dimensões
do Brasil... Era um povo unido querendo mudar, transformar.
Nós poderíamos ter chegado a um estágio
completamente diferente do que estamos hoje em dia. Um dos
problemas graves da sociedade é exatamente a incapacidade
dos governantes de ver o potencial brasileiro.
O Brasil é uma potência, tem uma grande população,
riquezas minerais, um parque industrial relativamente desenvolvido.
Hoje, o Brasil deveria estar num patamar muito mais elevado,
mas a falta de consciência por parte das nossas elites
da necessidade de um projeto nacional de desenvolvimento,
e a dependência até mental, cultural, é
o que faz com que a gente fique marcando passo. Outros países
como a China estão avançando tremendamente.
A própria Índia e a África do Sul...
Nós necessitamos conter essas amarras, essas limitações
que têm imposto um modelo de desenvolvimento ao país
que não faz jus ao tamanho, as dimensões e
a grandeza do nosso país. Nós temos que dar
uma virada nisso para correspondermos ao potencial do Brasil
e à aspiração de mudança do
povo brasileiro".
Depois do Golpe
"Depois do golpe, eu saí junto com o Betinho
(o sociólogo Herbert de Souza) e a minha esposa para
o Uruguai. Fiquei lá um ano, onde nasceu meu primeiro
filho, que é uruguaio. Eu voltei para a reorganização
da Ação Popular, para fazer parte da resistência
ao regime militar. Vivi onze anos na clandestinidade. Fui
preso quando estava no Nordeste brasileiro, em Alagoas,
no interior. Eu estava fazendo um trabalho com os camponeses
e fui preso em 1968, passei seis meses na prisão.
Terminei fugindo da prisão de Maceió, voltei
para a clandestinidade, em 1972.
A Ação Popular se incorporou ao PC do B e,
em 1976, fui preso novamente na famosa Queda da Lapa, onde
foram assassinados três companheiros nossos. A partir
daí, fiquei preso mais dois anos e oito meses. Saí
com a Anistia e, posteriormente, voltei para o meu estado
natal, que é Goiás. Fui candidato a deputado
federal e exerci até agora quatro mandatos, tendo
sido constituinte em 1986".
Resistência no campo
"Naquele período, a atitude do governo era de
repressão a todos os movimentos sociais, inclusive
ao movimento camponês. Tinha um gérmen de uma
organização social, um sindicato de trabalhadores
rurais que foi reprimido. Vivíamos na clandestinidade,
em uma cidade chamada Pariconha, na época um distrito
de Água Branca. Hoje, é emancipada. Eu vivia
lá com minha esposa, com meus filhos pequenos, com
nome frio, era Roberto. Nós fazíamos um trabalho
junto ao sindicato dos trabalhadores rurais e tínhamos
uma escola de formação de camponeses. Acharam
que havia um movimento suspeito por lá, e a repressão
baixou e nos prendeu. Foi uma reação muito
violenta. Eles desencadearam uma operação
do Exército. Criaram um terror tremendo na região,
uma repressão muito grande no sentido de tentar,
digamos, contem aquele gérmen que agente havia implantado
ali".
Cenas
"Eu não estava lá no incêndio da
UNE. Foi algo que vivi de longe, estava em Brasília.
Foi algo muito traumático. Aquilo simbolizou, na
verdade, a derrota. Aquela cena, a sede da UNE sendo queimada,
era exatamente a derrota de um projeto político para
o Brasil, um projeto transformador. É claro que todas
as pessoas que estavam engajadas naquele projeto sentiram
profundamente.
Se não bastasse isso, é importante lembrar
que a sede da UNE foi destruída. Apesar de queimada,
ela continuou como um símbolo para a juventude e
o povo brasileiro. Era chamada na época de ‘A
Casa da Resistência Democrática’. A existência
pura e simples dessa casa incomodava os militares. Eles,
num determinado momento, mandaram destruir a sede da UNE
para não ficar vestígio nenhum. Foi uma barbaridade".
Movimento estudantil
"Eles tinham medo das idéias que o movimento
estudantil e a UNE levavam ao povo brasileiro, e particularmente
para a juventude. Tentaram esvaziar a juventude logo depois
do golpe militar. Diziam que o dever do estudante era estudar
e do trabalhador era trabalhar. No sentido de despolitizar
a sociedade. Mas, o movimento estudantil nunca se submeteu
a isso, enfrentou momentos de grandes dificuldades e progressivamente
foi se reorganizando.
Hoje, o movimento estudantil está aí novamente.
A UNE, a Ubes, as entidades. Estão jogando o papel,
é claro que em situações novas, diferentes.
Mas jogando o papel que, historicamente, a juventude brasileira
sempre jogou. O papel de livre arbítrio, de luta
pela democracia, de luta pela reforma agrária, pela
soberania nacional e de mobilização da sociedade
e dos estudantes para mudar esse país. Infelizmente,
nós ainda necessitamos de mudanças que são
fundamentais, e essas mudanças só podem vir
com a mobilização da sociedade e com a participação
destacada dos estudantes". |